A revisão de homenagens públicas a homens que cometeram feminicídio tem avançado em diferentes cidades brasileiras como iniciativa de reparação simbólica e enfrentamento da violência de gênero.

Roraima (lei nº 1.944/2026) e Mato Grosso (Lei nº 12.457) já possuem legislações que proíbem que ruas e logradouros recebam o nome de pessoas condenadas por feminicídio. Em Uberlândia (MG) e São Paulo (SP), propostas legislativas seguem a mesma direção, sendo a segunda fruto do movimento popular “Feminicida Não é Herói”.

Em São Paulo, dois casos a serem revistos são os das ruas Peixoto Gomide e Moacir Piza. A primeira faz referência ao ex-senador e ex-presidente do estado de São Paulo que, em 1906, assassinou a filha Sophia por não aceitar seu casamento com o poeta Manuel Baptista Cepelos, suicidando-se em seguida.

A segunda homenageia o jornalista Moacir Piza, que em 1923 matou sua amante, a cortesã Nenê Romano, com três tiros, também tirando a própria vida na sequência.

Memória das vítimas

Para a pós-doutoranda em História Maíra Rosin, tais iniciativas integram um movimento mais amplo de questionamento de homenagens públicas a figuras associadas à violência e à violação de direitos humanos.

“É importante discutir as homenagens a feminicidas da mesma forma como passamos a questionar às direcionadas a torturadores da ditadura civil-militar e escravocratas”, contextualiza.

“Manter esses nomes significa, de certa forma, admitir que homens que cometeram crimes contra mulheres seguem considerados dignos de homenagem pública, enquanto a vida e a memória das vítimas parecem importar menos do que a trajetória daqueles que as assassinaram”, ressalta a historiadora.

No caso da Rua Peixoto Gomide, o projeto de lei pede a substituição do nome do assassino pelo da vítima.

“A mudança reconhece que alguém que cometeu esse tipo de crime não deve ser homenageado pela cidade, ao mesmo tempo que permite trazer à tona a memória da vítima, sinalizando que aquele crime e o legado associado ao agressor não são mais tolerados socialmente”, completa.

Dimensão pedagógica

Para Rosin, a revisão desses nomes pode influenciar a percepção social sobre a violência de gênero.

“Os nomes que damos às ruas, praças e equipamentos públicos não são neutros: expressam valores coletivos e ajudam a construir a memória pública da cidade. Quando uma cidade mantém homenagens a homens que cometeram violência contra mulheres, ela naturaliza, ainda que indiretamente, a permanência dessas figuras no espaço público. Rever essas homenagens é uma forma de afirmar que esse tipo de violência não deve ser relativizado ou esquecido”, destaca.

“Debates sobre nomes de ruas e homenagens públicas não dizem respeito apenas ao passado, mas também ao tipo de cidade e de memória coletiva que queremos construir no presente. Os espaços urbanos possuem uma dimensão pedagógica e simbólica muito forte, pois comunicam valores e prioridades mesmo que, muitas vezes, isso passe despercebido”

“Ao discutir quem merece ser homenageado publicamente, também discutimos quais vidas importam, quais histórias são preservadas e quais violências foram historicamente silenciadas. Embora a mudança de nomes, por si só, não seja suficiente para prevenir a violência contra as mulheres, ela tem um importante papel simbólico e pedagógico”, completa.

Passado contextualizado

Para a doutora em História Paula Janovitch, a mudança do nome é um ponto de partida para reflexões. “Porém, é necessária educação patrimonial nas ruas e nos currículos escolares para que isso não se perca”.

Janovitch também defende que mudar o nome da rua não significa apagar o passado.

“Apagar o passado é uma forma de não permitir compreender como chegamos até aqui. Logo, de alguma forma, a mudança de nomes de ruas tem que carregar a explicação dessas substituições e os motivos que nos levaram a elas”, finaliza.

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Crédito da imagem: wsfurlan – Getty Images

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