O luto é uma reação humana e natural diante de uma perda significativa, funcionando como um processo de adaptação diante da ausência.

“É comum pensarmos no luto pela morte de alguém, mas ele também pode aparecer em separações, mudanças, perda de saúde, emprego, projetos ou vínculos”, lista o psicólogo Leonir Troscki.

Tristeza, saudade, choro, raiva, culpa, ansiedade, sensação de vazio, descrença, confusão, irritabilidade e dificuldade para aceitar a realidade são manifestações recorrentes, assim como alterações no sono e no apetite, cansaço, dores, isolamento social e desconcentração. “Cada um vive o luto de um jeito. Não existe tempo ou forma única e correta de sofrer”, desmistifica o psicólogo.

A vivência do luto, porém, pode ser diferente dependendo do gênero. “Homens e mulheres podem sofrer com a mesma intensidade, mas expressar isso de maneiras diferentes. Culturalmente, mulheres recebem mais autorização social para chorar, falar da dor e buscar apoio. Já muitos homens são ensinados a controlar emoções, resolver problemas e demonstrar força”, diz Troscki.

Por isso, tendem a expressar o luto de forma mais prática ou silenciosa. “Cuidam de documentos, funeral, burocracia, trabalho, família, finanças. Isso não significa ausência da dor, mas que ela é vivida de modo reservado”, acrescenta Troscki, que é autor do livro “O luto dos pais: como os homens entendem e enfrentam esta situação”.

“A cultura da masculinidade, do provedor e do homem forte pode fazer com que o luto masculino seja menos reconhecido”.

Isso traz consequências. “A ideia de que o homem precisa ser forte todo o tempo pode tornar o luto mais solitário. Quando acredita que não pode chorar, falar ou demonstrar fragilidade, pode reprimir sentimentos. Isso dificulta a formação e a elaboração da perda, porque o sofrimento não encontra espaço simbólico, afetivo e social para ser reconhecido”, alerta Troscki.

“Você precisa cuidar dela”

O bancário Fernando Dibb, 45, perdeu o pai há três meses. “Tem dias melhores, dias piores, e outros em que não sabemos ao certo o que estamos sentindo”, compartilha.

“Ouço bastante: ‘Agora você precisa ser forte e cuidar da sua mãe’. Mas poucos perguntam se estou cuidando de mim”, exemplifica.

Troscki explica que, no luto paterno, muitos homens são colocados no lugar de quem precisa apoiar a mãe, cuidar da casa, resolver as questões burocráticas e voltar ao trabalho o quanto antes. “O problema é que, ao ocupar apenas o papel de suporte, pode sentir que a sua própria dor não importa. Essa invisibilidade reforça o chamado luto não reconhecido. A perda e a dor existem, mas a sociedade não valida plenamente o direito daquele homem de sofrer”, destaca o psicólogo.

Troscki explica que, quando o homem não encontra espaços para falar, sentir e elaborar o luto – como na terapia – o sofrimento pode se intensificar e se prolongar. “A pessoa permanece presa a uma dor intensa, com prejuízo importante na vida social, afetiva e profissional”, alerta.

Também pode haver aumento dos pensamentos de desesperança e risco de ideação suicida. “Por isso, acolher o luto masculino é uma questão de saúde mental. Reconhecer a dor não enfraquece o homem. Ao contrário, pode protegê-lo do adoecimento”, enfatiza.

“Pensei não estar sentindo nada”

Além dos homens que expressam o luto por meio da ação, outros buscam manter a rotina, apoio na espiritualidade ou mais momentos privados por meio de lembranças, sonhos, acesso a fotos, visitas ao cemitério ou pequenos rituais pessoais.

“Essas formas não são erradas. O problema aparece quando a ação vira fuga permanente da dor. Para completar, alguns comportamentos podem dificultar a elaboração do luto, como negar o sofrimento, evitar conversas sobre a perda, isolar-se, usar álcool ou outras drogas para anestesiar sentimentos, bem como agir com agressividade, mergulhar no trabalho ou recusar todo tipo de apoio”, lista.

Carlos*, 53 anos, é filho de pai colombiano e mãe brasileira que se separaram quando ele era criança. “Meu pai voltou para a Colômbia e era alcoólatra. Morreu quando eu tinha 35 anos e, por conta da distância geográfica, não fui ao velório. Naquela noite, saí com amigos para a balada, era como se nada tivesse acontecido. Penso que, se estivesse em terapia naquele momento, teria entendido o que estava realmente sentindo”.

“O luto precisa de espaço para ser vivido, mesmo que cada homem encontre o seu próprio modo de expressá-lo”, lembra Troscki.

Como acolher o homem enlutado?

Segundo o psicólogo, o primeiro passo é reconhecer que ele também está em luto. “Frases como ‘você precisa ser forte’ ou ‘você não deve chorar’ devem ser evitadas porque podem reforçar o silêncio. É melhor dizer ‘estou aqui’, ‘você não precisa passar por isso sozinho’ ou ‘quando quiser falar, eu posso escutar’”, recomenda Troscki.

“Também pode-se oferecer apoio prático, lembrar datas difíceis, respeitar o silêncio sem abandonar a pessoa e convidá-la para pequenos momentos de convivência. Se houver sinais de sofrimento intenso, desesperança, abuso de álcool ou risco para a própria vida, é importante incentivar a busca por ajuda profissional e não deixar a pessoa isolada”, compartilha.

A terapia oferece um espaço seguro e sigiloso para que o homem possa organizar a sua dor, nomear sentimentos, compreender pensamentos de culpa, raiva ou vazio e construir formas mais saudáveis de enfrentamento.

“Os grupos de apoio também são importantes, especialmente quando voltados aos homens, porque reduzem a sensação de isolamento”, apresenta Troscki. “Permitir que o homem fale da sua dor, peça ajuda, lembre, silencie e reconstrua sentido é uma forma de cuidado”, finaliza.

*nome alterado a pedido do entrevistado

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Crédito da imagem: D-Keine – Getty Images

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