Geralmente definida como a orientação sexual de quem pode sentir atração afetiva, romântica ou sexual por pessoas de mais de um gênero, a bissexualidade ainda é refém de inúmeros estereótipos, como aponta a doutoranda em Letras e pesquisadora da bissexualidade no audiovisual Nanda Rossi.
“A bissexualidade está inserida em uma dinâmica social que binariza a sexualidade, lendo somente a heterossexualidade e a homossexualidade. Assim, existe na invisibilidade e na falta de reconhecimento”, analisa a pesquisadora.
“Quando raramente é vista, é sob a ótica do estereótipo, como impossível, mentirosa. Estereótipos comuns são: ‘a bissexualidade não existe’; ‘é uma fase’; ‘bissexuais são confusos, indecisos, promíscuos’; ‘são verdadeiramente homo ou heterossexuais’, entre outros”, lista.
A sub-representação e os estereótipos sobre o que é ser bissexual também apareceram historicamente no cinema.
“A representação da bissexualidade em filmes e séries costuma espelhar os estereótipos comuns e ser um aparato de efeito meramente cômico. Como ocorre, por exemplo, no filme Minha Mãe é uma Peça 2, de Paulo Gustavo (no qual um personagem gay aparece se relacionando com uma mulher)”, analisa Rossi.
“A bissexualidade como trama também costuma servir a um enriquecimento do enredo de outro personagem, um conflito para algum casal estabelecido, uma descoberta que pode deixar o núcleo do personagem mais interessante. Porém, em geral, é um fio de enredo incompleto, abandonado e sem compromisso com uma representação digna dessa população”.
“Para completar, outras representações apenas induzem à bissexualidade ou retratam a prática sem nunca nomeá-la”, complementa Rossi.
Novas representações
Os roteiros de filmes e séries passaram a retratar pessoas bissexuais de forma mais positiva e menos simplificada, como aponta a pesquisadora.
“Há representações interessantes, mais complexas, personagens bissexuais decididos ou até confusos, mas sendo representados nesse percurso instável com legitimidade e respeito”, diferencia Rossi, que atribui o avanço nas representações culturais da população ao esforço de militantes e pesquisadores da bissexualidade.
O Brasil, por exemplo, conta com a Frente Bissexual Brasileira e com a Rede de Estudos sobre Bissexualidade e Monodissidência (Rebim), que reúne pesquisadores.
Segundo ela, essa mudança pode ajudar a combater preconceitos e estereótipos.
“Se eu formo as minhas ideias a respeito de determinado grupo por meio da cultura midiática, ao ter contato com uma representação que apresenta o contrário do que pensava, passo a dar a ele novos sentidos”, explica.
“Por isso é importante falar de bissexualidade por outra perspectiva, como por meio das experiências das próprias pessoas bissexuais”, sugere.
A seguir, Rossi lista 13 filmes e séries que ajudam a compreender melhor o que é ser bissexual e as diferentes vivências de quem possui essa orientação sexual. Confira!
1) Margarita com canudinho (2014)
O filme acompanha Laila, uma jovem indiana com paralisia cerebral que vai estudar em Nova York e começa a explorar sua sexualidade e seus desejos. A descoberta de uma atração por homens e mulheres é apresentada como parte de um processo de autonomia, experimentação e descoberta de si.
2) Canções de amor (2007)
No musical dirigido por Christophe Honoré, um jovem parisiense se envolve em um relacionamento com duas mulheres e, após uma perda inesperada, passa a reconstruir sua vida afetiva. O filme aborda desejo, amor e luto sem estabelecer fronteiras rígidas para a sexualidade de seus personagens.
3) Jovem aloucada (2012)
O filme chileno acompanha Daniela, uma jovem de família evangélica que mantém um blog anônimo sobre suas experiências sexuais. Entre relacionamentos com homens e mulheres, ela enfrenta os conflitos entre sua liberdade e os valores conservadores de sua família.
4) The Bisexual (2018)
Criada e protagonizada por Desiree Akhavan, a série acompanha Leila, uma mulher que, depois de anos em um relacionamento com outra mulher, começa a se envolver com homens e a repensar a própria sexualidade. Com humor e ironia, a produção explora as dificuldades de se reconhecer bissexual em ambientes que muitas vezes tratam a sexualidade de forma binária.
“A realizadora também é ‘bissexual, e a personagem percorre um enredo de rir dos estereótipos direcionados à bissexualidade. É, para mim, das representações mais complexas e bem realizadas que temos hoje no audiovisual”, opina Rossi.
5) Hacks (2021)
A série acompanha Deborah Vance, uma veterana comediante de Las Vegas, e Ava, uma jovem roteirista contratada para ajudá-la a renovar seu trabalho. Ao longo das temporadas, a produção aborda relações afetivas, sexualidade, amizade e as diferentes formas de construir a própria identidade.
6) Heartstopper (2022)
A série adolescente acompanha Charlie e Nick, dois estudantes que desenvolvem uma relação de amizade que aos poucos se transforma em romance. A descoberta da bissexualidade de Nick é tratada como um processo de autoconhecimento, sem reduzir sua identidade aos conflitos ou à sexualidade. “A série adolescente conta com um personagem bissexual confortável e confiante.”
7) Pobres criaturas (2023)
O filme acompanha Bella Baxter, uma mulher que, após ser ressuscitada por um cientista, parte em uma jornada de descoberta pelo mundo e pelo próprio corpo. “A personagem principal se aventura pelo mundo que não conhece e, assim, a bissexualidade não é negativada e se torna possibilidade de liberdade pelo corpo”, pontua a pesquisadora.
8) Saltburn (2023)
O filme acompanha Oliver Quick, um estudante que se aproxima do aristocrático Felix Catton e de sua família durante um verão. A sexualidade e a atração atravessam as relações entre os personagens, em uma narrativa sobre jogos de poder e classe social.
9) Brooklyn Nine-Nine (2013)
A série de comédia policial acompanha o cotidiano dos agentes de uma delegacia do Brooklyn, entre investigações e situações absurdas. A personagem Rosa Diaz se destaca por sua trajetória de descoberta e afirmação da própria bissexualidade, apresentada como parte de sua identidade e não apenas como elemento da trama. “Rosa Diaz foi uma das primeiras a se definir como bissexual”, compartilha Rossi.
10) The Bold Type (2017)
A série acompanha três jovens mulheres que trabalham em uma revista feminina em Nova York e enfrentam questões relacionadas a carreira, amizade, relacionamentos e identidade. Kat Edison, uma das protagonistas, vivencia um processo de descoberta de sua sexualidade e passa a se reconhecer como bissexual.
11) Shiva Baby (2021)
O filme acompanha Danielle, uma jovem bissexual que, durante uma reunião familiar judaica, se vê diante de parentes, antigos conhecidos, uma ex-namorada e um homem com quem mantém um relacionamento.
12) Coisa Mais Linda (2019)
Ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1950, a série acompanha mulheres que desafiam as convenções sociais de seu tempo enquanto constroem suas próprias trajetórias profissionais e afetivas. Thereza, personagem vivida por Mel Lisboa, se envolve em relações que questionam os padrões amorosos e sexuais impostos às mulheres.
13) The Rocky Horror Picture Show (1975)
O clássico musical dirigido por Jim Sharman acompanha um jovem casal que, após uma pane no carro, chega à misteriosa mansão do cientista Dr. Frank-N-Furter. Entre performances e personagens que desafiam normas de gênero e sexualidade, o filme se tornou um marco da representação queer no cinema. “É a representação mais livre e sagaz que conheço da bissexualidade nas artes, sendo ácido, divertido, ousado e sem medo do sexo. E devemos honrar o ator Tim Curry (falecido em 2026) por esse corpo existindo em liberdade na tela”, finaliza Rossi.
Crédito da imagem: The Good Brigade – Getty Images