O avanço de discursos misóginos na internet e os crescentes episódios de violência de gênero no ambiente escolar tornam urgente o debate sobre machismo com crianças e adolescentes. Para ajudar a responder ao desafio, o escritor Marcelo Correia criou a “Coleção para Meninos AntiMachistas” (Coleção MaM), que trabalha o tema por meio da contação de histórias.

Segundo o autor, o diálogo desde a infância ajuda a prevenir a misoginia e a interromper ciclos de agressividade que também impactam a saúde mental dos próprios meninos.

“A primeira lição de todo menino é ‘não ser uma menina’, ou seja, qual cor não usar, qual brincadeira não se deve brincar… Isso coloca o feminino como algo inferior ou perigoso”, explica.

“Falas como ‘menino não chora’ o condiciona a não demonstrar emoções, que podem acabar descontadas em violência, pornografia, jogos etc. ‘Seja homem’ cobra demonstração da agressividade. Separação de cores e brinquedos polariza o mundo e fecha portas para habilidades diversas”, descreve.

Instituto Claro: Como você define o antimachismo?

Marcelo Correia: Não somente como oposto ou ausência de machismo, mas como a prática de combatê-lo e de desconstruir padrões culturais que limitam meninos e meninas aos roteiros de gênero, apresentando novas formas possíveis de ser, estar e se relacionar neste mundo. Utilizo o conceito de ‘letramento do cuidado’, que é ensinar, desde a infância, o cuidado consigo, com o outro e o meio ambiente. Quando um menino aprende a cuidar dos próprios sentimentos, de pessoas ao redor e do espaço que ocupa, está praticando antimachismo. Porque o machismo, em sua essência, ensina o contrário: que cuidar é fraqueza, que sentir é perigo e que dominar é força.

Por que é importante discutir o antimachismo com meninos desde a infância?

Correia: Do ponto de vista da neurociência, a infância é o período de maior neuroplasticidade do cérebro humano. As conexões neurais formadas nessa fase, especialmente as relacionadas à regulação emocional, vínculos e resposta ao estresse, são moldadas pelo ambiente e por mensagens recebidas. Quando um menino ouve repetidamente “menino não chora”, por exemplo, seu cérebro aprende a reprimir emoções como estratégia de sobrevivência. Ao final, o antimachismo não é contra meninos; é a favor deles. O machismo também os machuca, priva de emoções, de liberdade de expressão e de relações profundas.

Quais comportamentos do cotidiano podem parecer “normais”, mas reforçam o machismo entre os meninos?

Correia: A primeira lição de todo menino é “não ser uma menina”, ou seja, qual cor não usar, qual brincadeira não se deve brincar ou, ainda, que cuidado e afeto são “de menina”. Quando se interessa por algo considerado “feminino”, a repreensão é imediata. Isso coloca o feminino como algo inferior ou perigoso. A semente da misoginia é plantada desde cedo. Sobre as falas, o clássico “menino não chora” o condiciona a não demonstrar emoções, que podem acabar descontadas em violência, pornografia, jogos etc. O “seja homem” cobra demonstração da agressividade. Tem ainda normalização da agressividade e separação de cores e brinquedos, o que polariza o mundo e fecha portas para habilidades diversas.

Como abordar o tema com os meninos?

Correia: Fuja de palestra fria ou sermão: crianças aprendem por uma experiência positiva, um bom storytelling. Prefiro uma abordagem narrativa e lúdica. Quando eu chego a uma escola para contar histórias, não digo “hoje vamos falar sobre machismo e gênero”, mas conto uma história em que um personagem enfrenta um dilema emocional, toma decisões. As crianças se identificam, emocionam-se; a partir daí, a conversa surge organicamente.  A abordagem deve ser de conexão antes de “correção”. Além disso, valide a emoção primeiro: “Eu vejo que você está bravo, o que é legítimo. Vamos pensar juntos em como expressar isso de um jeito que não machuque outros?”

Como agir quando presenciamos comentários, brincadeiras ou atitudes machistas entre meninos?

Correia: É importante acolher a vítima e pontuar o comportamento presenciado ao agressor, nomeando o impacto destas atitudes na hora, fazendo todos entenderem que isto só abastece um ciclo de violência que cometemos e sofremos. No momento do ato violento, podemos também exercer um papel de educador oferecendo uma alternativa à de apenas dizer “não faça”. Por exemplo: “Em vez de chamar assim, que tal chamá-lo pelo nome?”. Além disso, ainda que a intervenção em público precise ser rápida, uma conversa profunda, com calma e escuta, pode acontecer depois.

Quais são os desafios hoje de promover uma educação antimachista?

Correia: Primeiro, a resistência cultural: o machismo não é uma opinião, mas uma estrutura. Desafiá-la gera desconforto em adultos que foram formados nela, que se sentem acusados ou julgados. Muitos, ainda, entendem que não cabe falar do tema com crianças. Despreparo dos adultos e polarização do debate também aparecem.

Dentro do antimachismo, quais temas podem ser trabalhados?

Correia: Diria primeiro educação emocional e saúde mental: o menino que sabe nomear e regular emoções tem menos necessidade de demonstrar poder via agressão. Desconstrução de estereótipos de gênero, oferecendo modelos ampliados de ser menino. Respeitar a diversidade em todas as suas formas: quem o faz não seleciona quem merece respeito. Cito também consciência social, que inclui justiça, cooperação, responsabilidade coletiva. O machismo é individualista, o antimachismo é comunitário. Por fim, consentimento e cuidado com o meio ambiente: quem aprende a cuidar do outro também cuida do espaço comum.

Quais erros são mais comuns quando famílias tentam promover a igualdade de gênero?

Correia: Tratar como conversa única, quando a criança aprende em diversos microespaços de poder que frequenta, como casa dos avós, no esporte etc. Não adianta um discurso bonito de um pai sobre cuidado, se a mãe é encarregada das tarefas domésticas. Ou falar de letramento emocional se o adulto de referência não demonstra vulnerabilidade e emoção. Os adultos precisam olhar para si mesmos primeiro. Para completar, não ser nem punitivo, nem permissivo, mas firme e acolhedor.

Quais mudanças de comportamento indicam que um trabalho de educação para o antimachismo está produzindo resultados positivos entre os meninos?

Correia: Ampliação do vocabulário emocional, quando o menino começa a dizer: “Eu estou frustrado” ou “Eu me senti excluído” em vez de apenas reagir ou se calar; interrupção de atitudes machistas em pares, quando ele mesmo questiona um amigo: “Não fala assim dela” ou “Isso não é legal”; busca por diálogo em vez de agressão; ampliação de interesses, quando se permite brincar, ler, vestir, experimentar coisas que antes evitaria por “não ser de menino”. Cito ainda o cuidado espontâneo, como ajudar nas tarefas sem ser cobrado e quando não apenas deixa de praticar brincadeiras machistas, mas demonstra desconforto quando as presencia.

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Crédito da imagem: acervo pessoal – Marcelo Correia

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