A linguagem pode reproduzir e reforçar estereótipos sobre povos indígenas, contribuindo para a manutenção de preconceitos.

“Durante a colonização, a catequização e a imposição de valores europeus contribuíram para a desvalorização das culturas e dos saberes dos povos originários, fortalecendo ideias de que eram ‘selvagens’, ‘primitivos’ ou ‘atrasados’. Assim, diversas expressões e ideias estereotipadas sobre indígenas permanecem presentes no cotidiano ao longo dos séculos, sendo, muitas vezes, reproduzidas de forma naturalizada, sem que se reconheça seu caráter discriminatório”, explica a primeira doutora indígena da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Alíria Wiuira.

Wiuira destaca a importância de atualizar o vocabulário utilizado para se referir aos povos indígenas porque a linguagem influencia a forma como esses grupos são percebidos e representados na sociedade. “Evitar termos genéricos ou carregados de estereótipos ajuda a romper com uma herança colonial que desconsidera a diversidade cultural, social e linguística dos povos originários”, acrescenta.

“A linguagem pode carregar muito preconceito e erros históricos. Ainda hoje usamos palavras que nos foram dadas pelos colonizadores e, por isso, não refletem a realidade contemporânea e a diversidade de povos indígenas do Brasil”, reforça o comunicador tupinambá Jose Kaete.

“Não significa apenas substituir palavras, mas questionar concepções historicamente construídas e contribuir para uma representação mais respeitosa. Trata-se de transformar a maneira como nós, povos indígenas, somos percebidos e representados, valorizando nossas identidades, culturas e conhecimentos”, assinala Wiuira.

A seguir, conheça dez palavras e expressões para excluir do vocabulário, pois reforçam preconceitos e discriminações contra povos originários.

Índio: O termo foi originado de um equívoco de Cristóvão Colombo, que acreditava ter chegado às Índias. Posteriormente, foi utilizado pelos colonizadores de forma genérica para se referir à diversidade de povos aqui existentes. “Consideramos que o termo apaga nossa diversidade, culturas e línguas. Atualmente, o Brasil tem cerca de 391 etnias, povos ou grupos indígenas e 295 línguas indígenas. Uma diversidade que não cabe em uma palavra”, destaca Wiuira.

Substitua-o por povos originários, indígenas ou, quando possível, o nome específico do povo, como Guarani, Kaingang ou Yanomami. “Caso esteja se referindo a uma pessoa, é importante falar o nome dela. Quando a gente pensa nas obras de arte que foram feitas no período colonial, as pessoas brancas tinham seus nomes identificados, já indígenas e negros eram reduzidos a ‘escravos’ ou índios’”, compara Kaete.

Programa de índio: A expressão costuma ser utilizada para designar algo considerado ruim, desagradável ou desorganizado. Dessa forma, associa os povos indígenas a uma ideia negativa. “Pode ser substituída por expressões como ‘programa ruim’, ‘desagradável’ ou ‘desinteressante’, de acordo com o contexto”, ensina Wiuira. “Um programa de alguém indígena seria cuidar da floresta, conectar-se com a natureza, valorizar a sua cultura”, contrapõe Kaete.

Índio de verdade: A expressão pressupõe que exista um modelo único do que seria um indígena “verdadeiro”, geralmente associado a características estereotipadas, como viver isolado, usar determinados objetos ou manter costumes específicos. “Ela desconsidera a diversidade e as transformações históricas dos povos indígenas”, alerta Wiuira.

“É um comentário carregado de estereótipo e preconceito, porque ainda existe um imaginário do que é ser indígena que ficou parado em 1500: cabelo liso, pele avermelhada e sem roupas ou sapatos. Tudo o que foge dessa imagem — usar celular, morar na cidade, usar roupas — é questionado. Ninguém pergunta a uma pessoa branca se ela é ‘branca de verdade’ porque usa um carro elétrico em vez de uma caravela. Questionar a identidade de alguém dessa forma é uma violência, mas, por causa da lógica da colonização, essa pergunta ainda parece normal quando dirigida a pessoas indígenas”, destaca Kaete.

Tribo:  sugere que povos originários são grupos primitivos ou menos complexos socialmente, além de apagar a diversidade presente entre indígenas. “É preferível utilizar ‘etnia’, ‘povo indígena’, ‘comunidade indígena’ ou o nome específico do povo”, sugere Wiuira.

Pajelança: desmerece e homogeniza práticas espirituais e conhecimentos tradicionais de cura, que variam de acordo com o povo.

Muito cacique pra pouco índio: A expressão utiliza uma representação estereotipada das sociedades indígenas para indicar que existem muitas pessoas querendo mandar e poucas dispostas a executar tarefas. “Além de generalizar os povos indígenas, reduz suas formas de organização e liderança a um clichê. Pode ser substituída por ‘há muitos líderes para poucas pessoas executando as tarefas’”, exemplifica Wiuria.

Bugre:  Segundo Wiuria, é um termo historicamente utilizado pelos colonizadores para designar determinados povos indígenas de maneira genérica e depreciativa. “A palavra possui uma história complexa e foi empregada em diferentes regiões do Brasil, especialmente em contextos de contato, conflito e ocupação de territórios indígenas. Em muitos desses contextos, foi associada à ideia de indígena considerado ‘selvagem’, ‘incivilizado’, ‘sem alma’, ou inferior”, aponta.

Caboclo (quando utilizado de forma pejorativa): Wiuria explica que a palavra possui diferentes significados históricos e regionais no Brasil e não é necessariamente ofensiva em todos os contextos. “Entretanto, quando empregada de maneira depreciativa para caracterizar uma pessoa como inferior, ignorante ou ‘menos civilizada’, pode reproduzir preconceitos relacionados à origem indígena e mestiça. Por isso, é importante considerar quem utiliza o termo, em qual contexto e com qual intenção”, orienta.

Selvagem (quando associado aos povos indígenas): O termo reproduz diretamente uma visão colonial que classificava os povos indígenas como inferiores, não civilizados ou incapazes de organização social. “Essa concepção serviu historicamente para justificar práticas de dominação, catequização e apropriação de territórios”, diz Wiuria.

Preguiçoso/não gosta de trabalhar (quando associado aos povos indígenas): Essas expressões reforçam um estereótipo racista que atribui aos povos indígenas uma suposta falta de disposição para o trabalho. “Trata-se de uma generalização que desconsidera suas diferentes formas de organização econômica, atividades produtivas, conhecimentos e relações com o território. Além disso, reproduz uma visão de trabalho baseada exclusivamente em padrões ocidentais”, explica Wiuria.

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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