“A linguagem do cotidiano é um dos lugares em que a homofobia pode se esconder justamente por parecer inofensiva”, afirma o professor da pós-graduação em Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rodrigo Borba.

Ele explica que, ainda que usadas sem intenção de ofender, expressões corriqueiras podem reforçar estereótipos, naturalizar discriminação e contribuir para a invisibilidade de gays e lésbicas.

“Uma piada, um apelido, um ‘isso é coisa de viado’ dito no almoço de família reforçam a ideia de que ser gay ou lésbica é algo menor, engraçado ou vergonhoso”, exemplifica.

Segundo Borba, o efeito de uma fala não depende só de quem fala. “Também depende de quem ouve e do que aquela frase lembra. Algumas palavras têm força porque já foram ditas milhares de vezes para humilhar”, ressalta.

Doutora em linguística, Ana Beatriz Oliveira Ribeiro lembra que rever o vocabulário é importante porque o preconceito não se manifesta apenas por meio de agressões físicas ou ofensas diretas, mas em comentários aparentemente inofensivos, olhares de reprovação, questionamentos invasivos e tentativas de determinar como outras pessoas devem viver suas relações afetivas.

“Assim, a linguagem pode contribuir tanto para a reprodução dessas violências quanto para a construção de relações mais respeitosas”, destaca.

O humor é outro ponto sensível. “Um adolescente que ainda não contou à família que é gay e escuta uma ‘brincadeira’ entende o recado: se contar, vira motivo de chacota. Rever o vocabulário exige perceber que a graça de muitas piadas depende de alguém ser rebaixado”, acrescenta Borba.

Termos ressignificados

Borba lembra que o sentido das palavras não é fixo: ele depende de quem fala, para quem, em que ambiente, e, ainda, depende de a pessoa que é chamada por esses termos concordar ou não.

Um exemplo é o fato de muitos gays usarem entre si palavras como ‘bicha” e “viado” com afeto, humor e orgulho.

“É a chamada ressignificação: um grupo retoma uma palavra usada contra ele e muda o seu sentido”, compartilha.

“Mas isso não apaga o passado da palavra: o sentido novo convive com o antigo, e o antigo pode voltar conforme quem diz e como diz”, ensina.

Autora da tese “Heterossexualidade compulsória e violência(s): análise sociolinguística de relatos de mulheres lésbicas e de homens gays sobre descoberta, aceitação e preconceito”, Ribeiro reforça que nem toda pessoa está autorizada a utilizar tais expressões.

“É importante a proximidade entre os interlocutores para o seu uso, e, ainda assim, as preferências são individuais”, complementa.

E o que fazer quando a fala machuca? “Todo mundo erra. O que importa é o que vem depois”, opina Borba.

“Quando alguém diz que uma frase incomodou, a reação mais comum é se defender: ‘não foi isso que eu quis dizer’, ‘você está exagerando’, ‘agora não pode falar mais nada’, ‘isso é mimimi’ e por aí vai. Essas respostas tiram o foco de quem se sentiu ofendido e colocam em quem falou”, alerta.

“O caminho mais ético é ouvir sem interromper, reconhecer que a fala atingiu a pessoa mesmo sem intenção, pedir desculpas sem ‘mas’ e mudar o comportamento daí em diante. A mudança vale mais que o pedido de desculpas”, orienta.

Quem apenas escuta a “piada” sem ser alvo também pode ajudar. “Não rir da piada, perguntar ‘qual é a graça?’ e conversar depois com quem falou tira das costas de quem foi atingido o peso de se defender sozinho”, conta Borba.

Por fim, trocar palavras sem mudar atitudes adianta pouco. “Não adianta fazê-lo e continuar estranhando dois homens de mãos dadas. A linguagem melhora quando vem junto com outro jeito de conviver”, completa.

A seguir, confira 13 palavras e expressões de cunho homofóbico para retirar do vocabulário.

Usar ‘gay’ como insulto

Associa a homossexualidade a algo negativo ou inferior.

“Isso é coisa de gay”

“Comentários que relacionam determinadas características físicas ou comportamentais à orientação sexual reforçam estereótipos sobre como homens e mulheres deveriam ser”, diz Ribeiro. “Esses usos linguísticos contribuem para um conjunto de expectativas sociais que considera a heterossexualidade como padrão e estabelece determinadas formas de comportamento como mais legítimas ou aceitáveis do que outras”, acrescenta.

“Não tenho nada contra, desde que não faça na minha frente” ou “Tudo bem ser, mas não precisa se exibir”

“Essas afirmações expressam uma aceitação condicionada: a pessoa diz aceitar a homossexualidade, mas estabelece limites para que ela seja manifestada publicamente. Ou seja, é uma forma de tolerância que exige a invisibilidade das pessoas LGBTQIAPN+”, comenta Ribeiro.

Ela também lembra que muitas demonstrações de afeto, como andar de mãos dadas, abraçar ou beijar a pessoa com quem se mantém um relacionamento, costumam ser socialmente aceitas entre casais heterossexuais, e consideradas inadequadas com casais do mesmo gênero. “Isso não representa uma aceitação em condições de igualdade”.

Opção sexual

“Sugere que uma pessoa pode simplesmente decidir por quem sente atração afetiva ou sexual, que é escolha consciente e voluntária”, explica Ribeiro, que lembra ser “orientação sexual” o termo correto.

“Nem parece gay”

Reforça que parecer gay é algo ruim. “A imagem estereotipada do homem afeminado ou da mulher masculinizada é tratada como defeito. Quem ouve é parabenizado por se afastar dessa imagem, e quem se parece com ela é rebaixado”, analisa. “A frase ainda supõe que dá para reconhecer a orientação sexual de alguém pela aparência, o que não é verdade”, comenta Borba

Homossexualismo

Borba explica que a substituição do termo por “homossexualidade” tem a ver com a história dessa palavra, e não com o sufixo “-ismo”, também presente em doenças como “alcoolismo”.

“Na verdade, o ‘-ismo’ aparece em muitas palavras sem nenhuma relação com doença, como turismo ou jornalismo. O problema é que ‘homossexualismo’ se firmou no vocabulário médico e jurídico de uma época em que a homossexualidade era classificada como doença ou perversão”, diz Borba. “A Organização Mundial da Saúde a retirou de sua classificação de doenças em 17 de maio de 1990, data que hoje marca o Dia Internacional contra a Homofobia”, compartilha.

“Que desperdício!”

Segundo Ribeiro, a expressão pressupõe que a orientação sexual de alguém representa uma perda de possibilidades para pessoas do outro gênero.

“Quando uma mulher lésbica é chamada de ‘desperdício’, a afirmação sugere que sua beleza deveria estar disponível para o interesse masculino”, exemplifica.

“Qual de vocês é o homem/a mulher da relação?”

Segundo Ribeiro, essa frase pressupõe que todo relacionamento afetivo precisa reproduzir a estrutura tradicionalmente associada a um casal heterossexual

“Quando duas mulheres estão em um relacionamento, ambas são mulheres. Da mesma forma, quando dois homens estão juntos, ambos são homens. A orientação sexual não determina que uma das pessoas precise assumir uma identidade de gênero diferente da sua”, orienta Ribeiro.

“Além disso, a pergunta reproduz estereótipos sobre os próprios relacionamentos heterossexuais, ao pressupor que determinadas responsabilidades, comportamentos ou posições devam ser atribuídos obrigatoriamente a homens ou a mulheres”, aponta a pesquisadora.

“Cada casal constrói sua própria dinâmica de relacionamento, sem que exista a necessidade de reproduzir papéis previamente estabelecidos pela sociedade”, complementa.

“Não sou homofóbico, tenho amigos gays”

“Ter amizades com pessoas gays ou lésbicas não impede que alguém reproduza atitudes, comentários ou concepções preconceituosas. A existência dessas relações pessoais não é, por si só, uma comprovação da ausência de homofobia”, reforca Ribeiro.

“Você ainda não encontrou um homem/mulher de verdade” ou “Se não provou, como pode dizer que não gosta?”

Essas frases desconsideram a autonomia das pessoas para compreender e definir a própria orientação sexual. “Além disso, reproduzem a ideia de que a heterossexualidade seria o destino esperado para todos e que a homossexualidade poderia ser modificada a partir de determinada experiência”, analisa Ribeiro.

“Ninguém exige que um heterossexual tenha uma experiência com alguém do mesmo sexo para confirmar sua orientação sexual. Muita gente sabe por quem sente atração antes de qualquer experiência sexual. Desejo não precisa de teste, e o que a pessoa diz sobre si deveria valer mais do que a dúvida de quem está de fora”, finaliza Borba.

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Crédito da imagem: Vladimir Vladimirov – Getty Images

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