A leitura em celulares e tablets tem particularidades que devem ser ensinadas aos alunos. É o que aponta a doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Bárbara Cibelli da Silva Monteagudo, que estuda o assunto. “O percurso do leitor é outro: posso avançar ou recuar, fazer links com outros textos e, ao invés de folhear para buscar um trecho, busco palavras-chaves. A internet também oferece diversidade de gêneros, mas a distração é mais fácil. Caso não saiba exatamente o que estou buscando, posso me perder nos hiperlinks”, descreve. Em entrevista, a pesquisadora explica o papel da escola e do professor no ensino dessa leitura em suporte digitais.

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Instituto Claro: Qual a diferença entre ler no suporte digital e no físico?

Bárbara Monteagudo: A materialidade é diferente. No físico, eu seguro o livro com uma mão e o folheio com outra. No digital, eu seguro e faço o movimento de deslizar o dedo rapidamente com a mesma mão. O percurso do leitor também é outro: eu posso avançar ou recuar ao ler no celular, fazer links com outros textos e, ao invés de folhear para buscar um trecho, busco palavras-chaves. A internet também oferece diversidade de gêneros, mas a distração é mais fácil. Caso não saiba exatamente o que estou buscando, posso me perder nos hiperlinks e não concluir nada.

Há benefícios da leitura em suporte digital?

Monteagudo: A leitura física requer que o livro, jornal, revista ou quadrinho esteja no mesmo espaço. Isso pode limitar a aprendizagem, uma vez que há alunos sem condições econômicas ou culturais para acessar tais materiais. A internet oferece gêneros textuais diversos e pode criar uma cultura de leitura democrática.

E o que deve ser considerado sobre a leitura em suporte digital?

Monteagudo: Apenas acessar o texto não garante compreensão. Ser leitor requer questionar e relacionar o que leio com outros textos e saberes. É preciso ensinar o aluno que cada texto tem uma intenção e os porquês disso. A internet está cheia de textos com intenções diversas: mensagens de fanatismo, medo, violência e fake news. Analisar, refletir e dialogar são atributos da ciência que criam uma postura crítica. Por exemplo, se apresento um jornal online, posso questionar qual a posição e ponto de vista dele.

E sobre a escrita em suporte digital?

Monteagudo: O teclado do celular é rico: tem letras, cores, caracteres e emojis. No espaço virtual, o aluno escreve para se comunicar com alguém, ou seja, leitura e escrita têm função social. Ele lidará com pontuações e com a língua em uso. Aplicativos de texto e de mensagens têm corretor ortográfico e banco de palavras. Posso alfabetizar até mais facilmente quando desafio o aluno a ler e escrever nesses suportes. Porém, penso que a escola tradicional ainda ignora, simplifica e impede que o aluno lide com esses textos que circulam na sua vida, restringindo-se a ensinar a decodificar letras e sílabas

Qual o papel da escola em relação à leitura digital?

Monteagudo: Um erro é achar que apenas ensinar o código da escrita garante leitura. O ato de manejar muitos textos e criar um diálogo entre eles para compreender uma determinada informação é uma habilidade aprendida. O papel da escola é ensinar isso de forma planejada. A responsabilidade aumenta porque exige formar um cidadão que compreende criticamente o que lê na internet.

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O que o professor deve considerar ao ensinar a escrita e leitura em suportes virtuais?

Monteagudo: Não dá para ignorar a importância da tecnologia na vida dos alunos, mas também não se faz na escola o que os estudantes fazem em casa. Por isso a necessidade de um planejamento pedagógico pelo professor. Assim, deve-se colocar o aluno em situação de leitura. Caso contrário, ele bate o olho no texto e busca palavras-chaves, informações e ilustrações, mas não está lendo realmente.

Pode dar um exemplo de atividade para colocar o aluno em situação de leitura?

Monteagudo: Os alunos podem reunir os textos que receberam no WhatsApp, organizando-se para pesquisar e validar a veracidade das informações. Eles buscam novos textos, discutem o que leram para, ao final, determinar se aquilo é uma fake news. Se for, podem produzir outro texto que elucide o post. Isso é rico, porque o aluno vai levar esse olhar crítico para outras leituras.

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Alunos compartilhando um único celular pode ser comum nas escolas públicas. A socialização tem pontos positivos?

Monteagudo: O texto debatido no coletivo é mais rico e a educação se torna mais alargada. É na socialização que aprendemos um movimento que o leitor fará depois sozinho, que é aprender a dialogar e a relacionar aquilo que se lê com outros textos e saberes. E quando leio o texto de outra pessoa, também estou dialogando com esse autor.

E quando a leitura em tela deixa de ser benéfica?

Monteagudo: Quando vicia e aliena a criança. Quando deixo de ser ativo na escolha do que leio para me tornar refém do que o algoritmo me sugere. Quando uso a internet para apenas uma atividade, seja jogar videogame ou ficar nas redes sociais. É necessário equilíbrio e tempo fora das telas para conversar com o outro, ler, ouvir música e exercer uma autonomia crítica.

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