Manuais e livros didáticos sugerem aos professores lerem em voz alta para os alunos na tentativa de aproximá-los da leitura. Apoiar-se apenas nesse modelo, porém, pode prejudicar a autonomia deles em lerem livros que não contenham ilustrações, como aponta a doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) Bárbara Cibelli da Silva Monteagudo.

Ela é autora da tese “Ensino do ato de ler obras literárias sem ilustrações: recomendações oficiais, vozes das professoras e formação docente como espaço e tempo dialógico” (2021).“Na pronúncia, a compreensão se dá pelo ouvido, não pelos olhos. Como se a passagem de escutar para a leitura silenciosa fosse algo automático e não um aprendizado estimulado”, explica. “A leitura tem várias formas e uma não substitui a outra. Assim, é preciso oferecer para os alunos todos os tipos de texto desde pequenos, incluindo somente escritos, para conquistar autonomia”, sugere.

Leia também: Mediação de leitura: confira 6 livros para promover a prática em sala de aula

Instituto Claro: Por que é importante que alfabetizadores conheçam a história da leitura?

Bárbara Monteagudo: Porque essa ainda influencia na escola. No século IV, Santo Agostinho escreveu sobre Santo Ambrósio, dizendo ser a primeira vez que via alguém “lendo somente com os olhos”. Naquele tempo, era necessária a oralidade na leitura. Havia uma escrita contínua, sem recurso linguístico de pontuação e espaço em branco entre as palavras. Os monges oradores ajudavam com sua voz a dar entendimento ao texto. Além disso, nem todos eram alfabetizados. Apenas entre os séculos IX e XII é que aparecem os espaçamentos e é possível a leitura silenciosa à qual ele se referia.

Qual a relação da história da leitura com seu ensino hoje na escola?

Monteagudo: Ainda hoje a leitura é relacionada à pronúncia na escola. Ou seja, as conquistas do século XII, aprofundadas até o século XIII, ainda não chegaram nela. Os manuais e livros didáticos, por exemplo, pedem que os docentes leiam para os estudantes na alfabetização. Nesse caso, a compreensão se dá pelo ouvido, não pelos olhos. Essa escuta não garante a autonomia do aluno para ler sozinho. Como se a passagem de escutar para a leitura silenciosa fosse algo automático, não um aprendizado organizado pelo professor. Ocorre o mesmo quando se pede para ele ler pronunciando em voz alta. Não é garantido que ele esteja compreendendo o que está escrito.

O que seria indicado para mudar essa situação?

Monteagudo: Entender que a leitura é polissêmica. Tem várias formas e uma não substitui a outra. Assim, é preciso oferecer para os alunos todos os tipos de texto desde pequenos: o oral, o escrito com ilustrações, mas também aqueles sem esse recurso. O texto somente escrito é chamado de texto gráfico. Pode ser oferecido um pequeno, como uma fábula. Isso garante o contato com a cultura do texto gráfico.

Porque o ensino da leitura apenas apoiado na pronúncia é problemático?

Monteagudo: Quando apenas se lê para o aluno, não se cria a cultura da leitura do texto gráfico e sua autonomia de leitor. Ele depende de um adulto para compreender o sentido do texto. Além disso, há um descompassado: os manuais indicam que o professor leia ao estudante, mas as avaliações externas cobram do aluno uma leitura autônoma que não é ensinada. Crianças e adolescentes não habituados desde pequenos a textos gráficos tendem a permanecer somente na ilustração. Como no caso dos quadrinhos, em que o texto é apoiado pela imagem. Claro que o aluno tem direito de ler esse tipo de gênero, mas precisa também ser apresentado a outros. A escola é fundamental para que essa autonomia da leitura seja conquistada.

Confira: Como adaptar a metodologia de Paulo Freire para a alfabetização infantil?

Qual a diferença entre a leitura com ilustração e somente escrita?

Monteagudo: No texto gráfico, o leitor não apenas precisa compreender as palavras, mas seus sentidos dentro do texto, o que é algo sofisticado. Precisa buscar todos os sentidos daquela palavra pra tentar compreender o enunciado. Além disso, o autor está preocupado sobre como o leitor compreenderá seu texto. Para isso, usa parágrafos, vírgula e pontuação. Como não há imagens no texto escrito, essas são mentais e construídas. Já na leitura de ilustração, eu posso ir e vir com meus olhos para texto e imagem. A ilustração me auxilia na compreensão, ajudando a dar sentido ao texto.

Quais as orientações ao oferecer o texto somente escrito para alunos pequenos?

Monteagudo: Isso pode ser feito coletivamente. Os estudantes podem ler o texto e depois discutir com o professor e colegas o que compreenderam. Ao final, retomam sozinhos novamente ao texto escrito.

Ao pesquisar o tema com professores de uma escola estadual no oeste paulista, o que você notou?

Monteagudo: Há conhecimentos empíricos. Eles percebem que as formas que os manuais e guias sugerem a leitura não dão conta e buscam alternativas. Também têm vontade e compromisso para que o aluno aprenda. Apenas falta conhecimento teórico para que façam escolhas. Na pesquisa, ouvi esses docentes, que trouxeram suas vozes e experiências. A partir delas, montei um plano formativo como resposta às suas questões, focando na existência dos diferentes modos de ler.

Veja mais:

Plano de aula – A escrita alfabética e a produção de bilhetes

Plano de aula – Alfabetização inspirada em Paulo Freire: como fazer?

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