Passar o conteúdo na lousa para os alunos copiarem ainda é um recurso pedagógico usado por muitos professores. Contudo, nem sempre ele leva à aprendizagem ou estimula o domínio da escrita. Segundo a mestre em psicologia escolar pela Universidade de São Paulo (USP), Giuliana Temple, o estudante precisa ver sentido no que está escrevendo para se apropriar do processo da escrita. “Como não se vincula emocionalmente, aquilo não desperta seu interesse”, complementa.
A hipótese de que métodos pouco efetivos pode levar alunos a terem dificuldades em escrever é reforçada pelo resultado de exames externos. A Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) de 2013 apontou que 46,6% das crianças que concluíram o 3º ano do ensino fundamental na rede pública e privada das capitais do país não alcançaram o que era esperado em relação à escrita.
“Esses ‘alunos copistas’ não completaram seu processo de alfabetização. Eles são capazes de identificar as letras, copiá-las da lousa ou do livro, mas não conseguem ler o que copiam”, pontua Giuliana.
Segundo ela, outros fatores que levam a pouca apropriação do universo escrito são muitos alunos numa mesma sala de aula com ritmos de aprendizagem diferentes, pouco preparo dos professores para estimular a escrita, falta de acompanhamento dos pais no processo de escolarização dos filhos, entre outros.
Alunos do 8º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Jucá (CE) durante a Oficina Jovem Editor (Crédito: arquivo pessoal)
 Ajuda da tecnologia
A tecnologia pode ser uma parceira na hora de ajudar os alunos a dominarem a escrita. Professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental José Jucá, em Quixadá (CE), Maria de Nazaré Sousa Freire havia notado dificuldades entre seus alunos do 8º ano do ensino fundamental em escrever. Entretanto, eles apresentavam grande facilidade com o uso de dispositivos móveis. Ela, então, reuniu os docentes de informática, língua portuguesa, história e geografia, e criou o projeto “Plugado na Informação, Construindo Conhecimento”.
As atividades incluíram a Oficina Jovem Editor – que ensina os alunos técnicas de redação e edição de textos – e a produção do jornal virtual e impresso “JJ News: A Nossa Voz”. Os estudantes usaram laptop, celulares e câmeras digitais para produzirem as reportagens. “O objetivo era desenvolver a prática da leitura, a compreensão e a produção textual com a utilização das tecnologias da informação e comunicação. Os recursos tecnológicos têm a função não somente de ferramentas de buscas e processamento de informações, mas de colaboração e comunicação”, diferencia.
Aluna participante do “Trocando Cartas” na cantina da escola (Crédito: arquivo pessoal)
“Trocando cartas”
A apropriação da escrita também pode ser estimulada por atividades de baixo custo – como escrever cartas. Essa foi a proposta de Vera Fellipin, professora da Educação Infantil do Colégio Marista Arquidiocesano. Ela criou o projeto “Trocando Cartas” com alunos do 1º ano do ensino fundamental após identificar que os estudantes gostavam de se corresponder por cartinhas durante a aula.
No projeto, as crianças trocaram cartas entre elas, com os professores e ainda deixaram outras espalhadas pelo colégio, para desconhecidos. Os alunos passaram a ver sentido no que escreviam à medida que se sentiam valorizados como interlocutores. “Elas se colocaram em um estado de autoconhecimento para falar de si, escolher assuntos e desenvolvê-los na forma escrita. A percepção de que suas visões de mundo despertavam o interesse de pessoas mais velhas mobilizou a vontade de aperfeiçoar essa escrita”, finaliza.
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