Aya é uma jovem de 19 anos que vive em Yopougon, bairro operário da antiga capital da Costa do Marfim, Abdjã, na década de 1970. Seus relacionamentos com familiares, amigos, planos de vida e dilemas da adolescência são temas da série de histórias em quadrinhos (HQ) “Aya de Yopougon”, de Marguerite Abouet. O material pode ser usado de forma pedagógica e interdisciplinar para aproximar os alunos da cultura dessa região.

“A roteirista é nascida em Abdjã e radicada francesa, inspirando-se nas suas vivências para criar a personagem”, relata a doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Luciana de Campos. Dois volumes da série foram traduzidos para o português, sendo adotados pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) em 2012. Há, ainda, uma animação, dirigida pela autora e pelo ilustrador francês Clément Oubrerie.

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Mesmo ambientado no passado, o quadrinho traz discussões atuais. “Ele retrata jovens que querem estudar e ter profissão, mas também outras meninas com projetos e sonhos diferentes”, aponta Campos. “Conflitos importantes da adolescência são apresentados, como namoro, diversão irresponsável e até gravidez precoce. Por outro lado, há temas como o trabalho infantil e a exploração da mão de obra de meninas para sustentarem seus familiares”, ilustra a professora.
Aproximação de culturas

História da África

A historiadora e doutoranda em educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Aline Praxedes de Araújo recomenda a série como conteúdo didático de História da África nas escolas, como estipulado pela Lei nº 10.639/2003. Araújo é autora de artigo sobre o assunto (https://doi.org/10.22169/revint.v15i36.1981)“Aya retrata elementos da cultura tradicional africana, como culinária local, religiosidade e léxico”, afirma.

Ela ressalta que é abordado o contexto histórico da África pós-colonial, com o avanço de empresas multinacionais e oligarquias nacionais que aprofudaram desigualdades. “A HQ destaca a ampliação demográfica nos centros urbanos causada pela migração de pessoas das zonas rurais após uma severa estiagem”, relata.

Doutor em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB), João Vicente Pereira Neto destaca a apresentação da cultura marfinense e sua aproximação com a brasileira. “É possível estudar a organização da sociedade marfinense, dinâmicas familiares, de trabalho, econômicas e de geografia urbana. Na minha experiência em sala de aula, notei que o quadrinho gerou surpresa nos estudantes mais por semelhanças com a cultura periférica brasileira do que por diferenças”, compartilha.

Uso interdisciplinar

O material pode ser utilizado em disciplinas como história, geografia, língua portuguesa e sociologia nos 8º e 9º anos do ensino fundamental e ensino médio. Em geografia, é possível abordar desenvolvimento de países e cidades e relações entre periferias e grandes centros urbanos. “Questões de gênero como assédio e direitos iguais entre homens e mulheres, ricos e pobres, também estão presentes”, aponta Neto

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Campos aponta que há questões de geopolítica, trabalho, condição social e influências estrangeiras no cotidiano africano. “A história narra exploração, trabalho infantil e um período conturbado do continente africano, com guerras de independência diversas”, explica. No entanto, Aya também mostra uma África diversa e que vai além de notícias sobre conflitos armados, fome e doenças. “É um continente onde vivem jovens que querem se divertir, estudar e ter uma carreira assim como no Brasil”, enfatiza.

Em Língua Portuguesa, Araújo indica trabalhar o léxico utilizado na HQ: “É possível aprofundar o glossário disponibilizado ao final de cada volume, que traz as palavras recorrentes nos diálogos”.

Habilidades de leitura

O material também ajuda a apresentar o gênero das histórias em quadrinhos aos alunos. “Ele considera não apenas a palavra escrita, mas o contexto apresentado e até mesmo o formato do balão que contém determinado texto. Ou seja, exige interpretação de signos para além do alfabeto “, pontua Neto.

Outro tema presente são as gírias. “É possível elaborar um estudo comparado, mostrando como cada geração desenvolve formas de comunicação específicas”, acrescenta Campos. Para completar, Neto aponta o uso de Aya para trabalhar competências de leitura, como analisou em monografia e artigo.

“A forma da escrita, que remete à fala também pode gerar leituras mais dinâmicas e coletivas. Por exemplo, com cada estudante lendo um personagem. Isso mostra ao aluno que aquilo que se vivencia também é passível de ser escrito, isto é, a escrita não é algo distante”, reforça.

Veja mais:

7 livros para apresentar a riqueza cultural africana aos alunos

5 livros para entender o pensamento decolonial

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