A iniciação científica é uma forma de pesquisa acadêmica na qual o estudante participa de um projeto de investigação orientado por um professor. Ela serve como um primeiro contato com a construção do conhecimento científico e ajuda a despertar o interesse pelo universo acadêmico.

“É uma pesquisa de cunho didático cujo objetivo final é o aprendizado do aluno. Ela abrange desafios e imprevistos enfrentados pelos pesquisadores e sua eficiência dependerá de conhecimento e empenho”, resume o professor da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Carlos Roberto Grandini.

Apesar de ser uma atividade desenvolvida no ensino superior, a iniciação científica também pode ser praticada como modalidade júnior na educação básica pública. 

“Para os alunos, é uma forma de aprender a pesquisar e ir além dos conteúdos curriculares. Para a escola, ajuda a superar a aula expositiva e a educação bancária denunciada por Paulo Freire, que entende o discente como passivo. Esse aluno estará produzindo conhecimento junto ao professor-orientador e não apenas recebendo informações”, assinala Ana Carolina Rigoni Carmo, coordenadora de pesquisa do Colégio Pedro II e professora de filosofia.

Para Carmo, a iniciação científica pode ser implementada a partir do ensino fundamental com diferentes níveis de complexidade, mas é o ensino médio que mais se beneficia da prática. “É possível desenvolver uma pesquisa de profundidade por serem adolescentes com potencial de entenderem conteúdos complexos”, pontua.  

Entre as habilidades desenvolvidas pelos alunos, Grandini lista disciplina para trabalhar seguindo as etapas do projeto e humildade para aprender. “Na Ciência, cada nova observação é um novo aprendizado”, justifica. 

A iniciação científica também estimula o desenvolvimento do pensamento científico e da criatividade vindos do enfrentamento dos problemas da pesquisa. “O aluno, por sua vez, deve possuir senso crítico, curiosidade e sempre buscar resultados confiáveis.”, completa o professor. 

Foto da IV jornada de iniciação científica
Créditos: acervo do Colégio Pedro II – IV Jornada de Iniciação Científica

Como fazer?

No Colégio Pedro II, o professor-orientador propõe uma temática ampla e os alunos apresentam possibilidades de pesquisas alinhadas a esse projeto. “Isso alia o interesse do professor em pesquisar um determinado assunto e protagonismo do estudante em escolher os caminhos e os subtemas a serem desenvolvidos”, relata Carmo.

Um exemplo prático que dá, veio de quando apresentou como tema as cartas escritas por filósofos. “A partir disso, os estudantes trouxeram o desejo de pesquisar cartas escritas por mulheres que contribuíram com a filosofia, por identificarem um apagamento de gênero nesse campo do conhecimento”, conta.
Grandini explica que a iniciação científica pode ser realizada como um trabalho de conclusão do ensino médio, mas de caráter interdisciplinar. “O trabalho de iniciação científica possibilita agregar diversas disciplinas. Na área de ciências, pode-se aliar matemática, para a análise e interpretação dos resultados, e língua portuguesa e inglesa para a redação”, exemplifica.

“Se for um trabalho na área de ciências humanas, disciplinas como filosofia, sociologia, língua portuguesa, língua inglesa e matemática podem ser incorporadas”, acrescenta.

Já o produto final da pesquisa pode ser realizado de diferentes formas, sendo os mais tradicionais a monografia em formato reduzido, a produção de artigo científico e apresentações de banner ou palestra para a comunidade escolar.

“O formato do produto tem que ser pensado em relação ao conteúdo e à área pesquisada. Assim, alunos também podem produzir manifestações artísticas como montagem teatral, produção audiovisual, entre outros”, informa Carmo.

Se a escolha do produto for a defesa da monografia em uma banca de avaliação, esta deve ser composta por profissionais qualificados, com conhecimento sobre o tema estudado e sem relação de proximidade com o estudante avaliado. “O orientador é o presidente da banca e são convidados um membro da instituição e outro externo”, orienta Grandini.

Financiamento e carga horária são desafios 

Ao contrário das pesquisas desenvolvidas nas universidades, a iniciação científica júnior na educação básica pública enfrenta dois desafios: falta de verba e a carga horária limitada dos professores.

“No primeiro caso, é importante oferecer bolsa para esse estudante para valorizar a atividade de pesquisa e remunerar o seu tempo. A realidade brasileira é que os secundaristas precisam trabalhar para ajudar a família e a escola não pode fechar os olhos para isso”, adverte Carmo. 

No caso do Colégio Pedro II, as bolsas dos alunos selecionados são custeadas pela instituição. Outra possibilidade é a escola se candidatar a projetos que ofereçam bolsas para a pesquisa desenvolvida nas escolas públicas.

“O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possui uma modalidade de bolsa denominada Iniciação Científica Júnior (ICJ) para despertar esta vocação entre estudantes do ensino fundamental, médio e profissional da rede pública. Para isso, deve-se participar de atividades de pesquisa científica ou tecnológica orientadas por pesquisador qualificado e em instituições de ensino superior ou  institutos de pesquisas”, esclarece Grandini.

Já em relação à carga horária, docentes das escolas públicas nem sempre são remunerados para planejamento de atividades extraclasse e para atendimento de alunos. 

“Sabemos que a educação pública enfrenta inúmeros desafios que saem na frente em termos de prioridade. Porém, seria importante que as secretarias de educação de cada estado e município pensassem em projetos de pesquisa nas escolas. Hoje temos docentes com formação adequada e com interesse em pesquisar e orientar”, finaliza Carmo. 

Veja mais:

11 dicas e atividades para aproximar alunos da escola pública do ensino superior.

10 metodologias ativas de aprendizagem explicadas.

Pedagogia de projetos coloca aluno no centro da resolução de problemas.

O que é o tinkering e como pode ser usado por educadores?

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