A história oral é uma abordagem de pesquisa que se baseia em entrevistas e testemunhos de pessoas que viveram determinados eventos ou períodos. Ela busca registrar memórias e experiências individuais que, muitas vezes, estão indisponíveis em livros ou outras fontes convencionais.

Professora e uma das líderes do grupo de História Oral e Educação Matemática da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Rio Claro), Heloisa da Silva explica que a história oral pode colaborar com a formação de professores. Isso por meio de entrevistas com educadores que atuaram em momentos históricos diversos, com ex-alunos e funcionários de uma escola ou rede específica.

“O contato direto com professores e outros atores da educação, e com os sentidos que essas pessoas dão ao que fizeram e vivenciaram, possibilita novas compreensões sobre programas, legislações, materiais didáticos, métodos de ensino, formas de gerenciar demandas do dia a dia escolar. Também sensibiliza os futuros professores sobre questões envolvendo realidades muito próximas das que serão suas quando estiverem exercendo a profissão”, explica a pesquisadora. 

Conversar com professores sêniores também ajuda a entender como a vida escolar se transformou ao longo do tempo e aponta caminhos para lidar com desafios atuais.

“É possível analisar as práticas educativas identificadas visando compreendê-las em suas épocas e contextos, relacionando-as com situações de ensino vividas atualmente”, acrescenta Silva.

“Entrevistas sobre o ensino de determinado conteúdo matemático, por exemplo, permitem aos futuros professores constituírem um repertório de situações possíveis a serem vivenciadas em sala de aula que já foram experienciadas por outros profissionais no passado”, destaca. 

Confira, a seguir, a entrevista completa com Heloisa da Silva.

Como a história oral pode contribuir com a formação inicial e continuada de professores?

Heloisa da Silva: Ela permite identificar, para além do que está nos registros usuais e sem desprezá-los, processos, trajetórias e histórias de vida. A partir disso, possibilita compreensões sobre as condições em que o ensino, a aprendizagem e as formações se deram e se dão. Também permite problematizar práticas e adversidades vivenciadas e acessar vozes que permanecem ocultas em uma história puramente documental. Possibilita aos professores avaliarem como os currículos escolares em matemática foram historicamente se transformando no que são e as relações desse processo com os aspectos culturais, sociais, políticos e educacionais das diferentes épocas e contextos. Além disso, ajuda a direcionar o interesse desses futuros professores a questões que envolvam o sentido da educação. 

Por que é benéfico aos professores acessarem fontes históricas que não estão disponíveis em livros e demais materiais didáticos convencionais?

Heloisa da Silva: Por meio de entrevistas com pessoas que participaram de situações envolvendo a profissão docente e a educação, professores podem ampliar o sentido dado à cultura escolar e conhecer aspectos desconhecidos. O contato direto com professores e outros atores da educação, e com os sentidos que essas pessoas dão ao que fizeram e vivenciaram, possibilita novas compreensões sobre programas, materiais didáticos, métodos de ensino, formas de gerenciar demandas do dia-a-dia escolar, bem como uma sensibilização para questões da profissão. Tal contato permite que os futuros professores se identifiquem com os profissionais em serviço, avaliem suas motivações, tomadas de decisão, práticas e também se percebam como participantes e narradores de histórias.

O que é identificado nas pesquisas do Ghoem com a história oral na educação matemática e formação de professores? 

Heloisa da Silva: São pesquisas que falam sobre a religiosidade popular e suas relações com a educação; das práticas políticas conservadoras que prejudicam a formação docente; das movimentações político-regionais em torno de criação e consolidação de cursos de formação de professores; dentre outras temáticas. Também problematizam outros assuntos envolvendo a profissão, como questões de gênero e o que elas imprimem nos processos de formação docente; de como discursos sobre a circulação de conhecimentos promovem crenças segundo as quais nós, pesquisadores do hemisfério sul, meramente aplicamos teorias de pesquisadores do norte acerca da educação. Esse trabalho permite reconstituir aspectos da educação escolar, interpretar e conhecer narrativas históricas diferentes e refletir sobre as práticas.

O que pode ser perguntado por professores em formação a educadores sêniores? 

Heloisa da Silva: Já tivemos trabalhos de entrevistas de licenciandos com educadores sêniores sobre abordagens para ensinar conteúdos matemáticos em aula; sobre os resultados obtidos ao implementar essas abordagens; as dificuldades dos alunos na aprendizagem desses conteúdos e as ações para tratá-las. Além disso, entrevistas sobre o ensino de determinado conteúdo matemático permitem aos futuros professores constituírem um repertório de situações possíveis a serem vivenciadas em sala de aula que já foram experienciadas por outros profissionais no passado. Isso estabelece possibilidades de atuação e tomada de decisões frente a dificuldades. As entrevistas também podem abordar assuntos sociais contemporâneos, como desigualdades sociais e seus reflexos na educação — discussão ainda tímida nas áreas de exatas. Tal ausência de debates e de representatividade acarreta silenciamentos e na permanência do racismo e outras formas de preconceito nas escolas e sociedade.

Conversar com antigos professores ajuda a entender como a vida escolar se transformou? Qual a importância disso?

Heloisa da Silva: As narrativas orais podem trazer à cena diferentes perspectivas e aspectos da educação em diferentes momentos históricos, como também a possibilidade de compreender a formação e atuação do professor em determinada época e região do país. O mesmo para aspectos sobre o uso de materiais didáticos e as dificuldades enfrentadas pelo professor de matemática em determinada época. Para investigar a história da educação matemática brasileira em determinado período, podem ser discutidos aspectos como: quais os aspectos políticos, socioeconômicos, culturais daquela região brasileira naquela ocasião? Em quais condições os professores iniciavam sua carreira à docência e quais estratégias utilizava para exercê-la diante das dificuldades? Qual era a legislação vigente na educação brasileira naquela época que permitiam brechas para ministrar aulas enquanto ainda não se tinha o diploma? Isso ainda acontece atualmente? 

Quais aspectos históricos da formação de professores ajudam a compreender situações vividas no presente?

Heloisa da Silva: Sobre os aspectos históricos relevantes, podemos citar a antiga e duradoura exclusão no Brasil, que considerou a educação dispensável para pessoas negras e indígenas durante séculos; como também a tardia oferta de cursos de formação de professores, iniciada a partir do século XIX, e lentamente até a década de 1960.

Quais as orientações ou possibilidades de projetos de história oral que ocorram em escolas públicas? 

Heloisa da Silva: Eles podem ocorrer, por exemplo, visando preservar e divulgar a memória institucional da escola, por meio da produção de acervos sobre práticas didáticas e sociais da instituição, desde sua fundação. Podem trazer o seu histórico, identificar saberes em documentos como diários de classe, atas, cadernos de registros de aulas, livros didáticos, cadernos de alunos, exames, dentre outros, por meio do contato com ex-professores e ex-alunos da escola. É possível analisar tais práticas educativas identificadas nesses documentos junto aos docentes da escola visando compreendê-las em suas épocas e contextos, relacionando-as com situações de ensino vividas atualmente. Outra possibilidade é a realização de um projeto de reconhecimento da história da comunidade onde se localiza a escola. Nele, estudantes podem entrevistar pessoas antigas da família e do bairro, como também pessoas que estiveram envolvidas com a escola no passado e, com isso, acessar histórias e conhecimentos novos, se identificarem e sensibilizarem com questões locais.

Veja mais:

História oral: método usa entrevistas para trabalhar comunicação, escuta e senso crítico

6 links para utilizar a história oral em sala de aula 

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