Um problema relacionado à realidade dos estudantes é relatado como história, caso ou narrativa. Na sequência, a turma se reúne em pequenos grupos para pensar possíveis soluções que se apoiam no conteúdo curricular de uma determinada disciplina. Este é o caminho da aprendizagem baseada em problemas, uma forma de metodologia ativa que convida os alunos a relacionarem teoria e prática, escola e vida em sociedade.

“Por meio do problema, os aprendizes percebem quais conteúdos ainda desconhecem e necessitam aprender, individual e coletivamente. Entendem como buscar e se apropriar desses conteúdos, desenvolvendo, assim, estratégias diversas de aprendizagem”, descreve a bióloga e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Dália Conrado.

Para completar, tal metodologia estimula diferentes habilidades. “Podem ser tanto intrapessoais – como autoconhecimento, autocontrole, disciplina – quanto interpessoais, como ética, comunicação e tratamento de conflitos”, exemplifica. Em entrevista, ela aprofunda a realização da aprendizagem baseada em problemas a partir de nove perguntas.

O que é a aprendizagem baseada em problemas?

Dália Conrado: É uma metodologia educacional que coloca o estudante como centro da atividade pedagógica, tendo o professor como mediador do processo de aprendizagem. Suas principais características são: apresentar um ou mais problemas, geralmente em forma de casos, como ponto inicial para mobilizar conteúdos do currículo; estimular uma aprendizagem contextualizada e baseada em problemas concretos que o estudante poderá enfrentar em sua vida pessoal ou profissional; enfatizar o papel ativo do estudante em processos de investigação, discussão e apresentação de possíveis soluções para o problema; valorizar o trabalho colaborativo e à ação participativa na sociedade.

Qual é a origem dessa metodologia?

Conrado: De acordo com a literatura, ela foi inicialmente desenvolvida na Universidade de McMaster, no Canadá, e na Universidade de Maastricht, na Holanda, no final da década de 1960, para cursos de medicina. O objetivo era superar problemas do ensino tradicional, como a aprendizagem aprofundada de conteúdos e seu posterior uso na prática profissional desses estudantes. No Brasil, igualmente foi utilizada no ensino superior para, posteriormente, ser aplicada na educação básica.

Como ela funciona?

Conrado: A partir de um planejamento prévio, o professor expõe um problema a ser resolvido, frequentemente associado a uma narrativa ou a um caso. Recomenda-se que a questão se relacione ao cotidiano do estudante. Este terá um prazo para se reunir em grupo, discutir o problema e buscar formas de resolvê-lo. Na sequencia, os grupos compartilharão a solução encontrada e os conteúdos mobilizados que apoiaram o processo. O professor acompanha todas as etapas e pode, ao final, sintetizar os principais conteúdos associados à compreensão e à resolução do caso. Durante a pesquisa, os aprendizes podem consultar especialistas ou profissionais relevantes para aquele problema. Já a avaliação é processual e considera diversas ferramentas para não apenas privilegiar a aprendizagem de conhecimentos, mas também habilidades, valores e atitudes.

Quais as habilidades estimuladas neste processo de pesquisa?

Conrado: O estudante perceberá que conteúdos eles não ainda sabem e precisam aprender, individual e coletivamente. Entenderá como buscar e se apropriar desses conteúdos, desenvolvendo, assim, estratégias de aprendizagem. Para completar, há as habilidades intrapessoais – como autoconhecimento, autocontrole, disciplina – e interpessoais, como ética, comunicação, tratamento de conflitos, entre outros.

Quais suas contribuições para a aprendizagem?

Conrado: Aumenta o interesse do estudante pelo conteúdo escolar, por ser uma aprendizagem contextualizada, aliando teoria e prática. O mesmo vale para o protagonismo estudantil. Contribui para superar o ensino vinculado à memorização e ao acúmulo de conteúdos. Desenvolve trabalho colaborativo, respeito compreensão das diferenças e ação participativa na sociedade. Permite perceber habilidades e conhecimentos necessários para resolver problemas.

Quais suas orientações para a sua aplicação na educação básica?

Conrado: Recomendo adaptar essa metodologia para o nível educacional desejado, ajustando essas estratégias ao currículo, mas sem perder o foco sobre problemas cotidianos e atividades colaborativas. No ensino fundamental, é importante considerar atividades para o desenvolvimento de virtudes epistêmicas (como precisão semântica, raciocínio lógico, etc.), virtudes morais (como compaixão, respeito, etc.) e virtudes híbridas (como disciplina, responsabilidade, etc.). No ensino médio, recomendo aprofundar essas virtudes, desenvolvendo também capacidade crítica e autonomia, além de habilidades sistêmicas como sentimento de pertencimento a uma sociedade e ao planeta. Isso pode ocorrer a partir de ações individuais (casa ou família) e coletivas. Nessa etapa, problemas socioambientais podem ser interessantes fontes para mobilizar conteúdos interdisciplinares.

Qual sua diferença para a aprendizagem baseada em projetos?

Conrado: A principal diferença é que a aprendizagem baseada em projetos costuma exigir a criação de um produto ao final do processo, como uma maquete, peça teatral, apresentação, entre outros. Frequentemente, esse produto é exposto para a comunidade escolar. Já na aprendizagem baseada em problemas, tradicionalmente, o resultado final geralmente é a própria solução do problema, não sendo comum a exposição dessa solução fora do ambiente escolar.

Ao que o professor deve se atentar ao trabalhar essa metodologia ativa em aula?

Conrado: É importante refletir sobre a coerência entre os objetivos educacionais que se deseja atingir e o modo de utilização dessa metodologia. Por exemplo, quando a intenção é desenvolver autonomia, criticidade e habilidades para o trabalho em equipe, como responsabilidade e negociação, o professor terá que escolher um problema (situação, caso ou narrativa) que consiga estimular tais capacidades durante as atividades em grupo dos estudantes. Além disso, evite o hábito de usar métodos passivos, como transmissão do conteúdo por meio de aulas expositivas, que reduzem o protagonismo estudantil.

Há algum erro comum?

Conrado: Aplicar tal metodologia ativa e adotar avaliações “tradicionais”, e não diversificadas (individual e coletiva), considerando diferentes conhecimentos e habilidades desenvolvidas ao longo do processo. Recomenda-se a aplicação de avaliação processual, mútua e autoavaliação, para valorizar tanto a metodologia aplicada, quanto o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes dos estudantes.

Veja mais:

Brainstorm: 9 perguntas sobre esta metodologia ativa de aprendizagem

Estudo de caso: 8 perguntas para utilizar essa metodologia de aprendizagem em aula

7 perguntas sobre a metodologia ativa de aprendizagem World Cafe

Vídeo discute resolução de problemas na aprendizagem de geografia

Atualizada em 25/02/2021, às 13h48

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Dia dos professores: docentes da educação básica inspiram alunos a seguirem na profissão

Educadores relembram mestres que motivaram escolha por lecionar na rede pública

Geometria ajuda a desmentir terraplanismo nos anos finais do ensino fundamental

Em projeto internacional, escolas de todo o mundo se unem para calcular diâmetro da Terra

Tirinhas do Recruta Zero ilustram Guerra da Coreia e Guerra Fria nas aulas de história

Material também pode ser usado em geografia, sociologia e língua portuguesa

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.