O vínculo da língua inglesa com a colonialidade é extenso e complexo, sendo historicamente marcado pela expansão colonial britânica e pelo imperialismo norte-americano. 

Enquanto a primeira colaborou com o apagamento de idiomas e culturas tradicionais nos países invadidos pela Inglaterra na América do Sul, Central, África e Ásia, o segundo disseminou globalmente valores norte-americanos por meio do entretenimento. 

O ensino da língua inglesa por uma perspectiva decolonial, por sua vez, possibilita questionar a influência cultural e ideológica do ocidente e resgatar a  diversidade e a voz de povos e grupos subalternizados. 

Segundo a professora do programa de pós-graduação em língua e cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Fernanda Mota, o professor pode ajudar a turma a deslocar o olhar do chamado Norte global e focar em outras culturas que também possuem o inglês como língua nativa. “Caso de nações que sofreram com o colonialismo e são excluídas de narrativas, como a África do Sul e a Nigéria”, exemplifica. 

“Alguns percursos são acrescentar textos produzidos por sujeitos subalternizados e ampliar o leque de representações daqueles que não são contemplados por discursos hegemônicos e nos materiais didáticos”, resume ela, que é uma das autoras do e-book gratuito “Ensino de espanhol e inglês em perspectivas decoloniais” (UFBA, 2022).

A seguir, confira seis orientações para promover um ensino de língua inglesa pela perspectiva decolonial.

1. Desmistifique o falante nativo de língua inglesa como sendo do Norte global

Isso ajuda a explorar a cultura de outras nações que possuem o inglês como língua oficial. Esse é o caso da África do Sul, Botsuana, Gâmbia, Gana, Libéria, Malawi, Namíbia, Nigéria, Quênia, Serra Leoa e Uganda (na África); Índia, Filipinas, Singapura e Malásia (na Ásia); Belize, Jamaica, Bahamas, Trinidade e Tobago, Guiana, Barbados, Granada, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas (na América Central). 

“Essa aprendizagem pode ser realizada por vídeos e áudios de pessoas de diversos países falando em inglês, o que mostra aos alunos que há mais maneiras de falar o idioma do que a britânica e norte-americana”, recomenda a doutoranda em estudos da linguagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL),  Marilice Zavagli Marson. 

“Os temas dessas atividades podem ser a cultura desses países e suas similaridades e divergências com a brasileira”, sugere Marson.

“A ideia não é deixar de contemplar a língua inglesa falada nos países do Norte global, que também têm a sua pluralidade, mas abarcar aquelas que não são referências nos livros didáticos”, lembra Mota. 

“Reconhecer que o inglês pode ser falado de diversas formas leva a uma atitude mais respeitosa em relação a usos da língua que fogem a um padrão artificialmente construído”, complementa. 

2. Desmistifique que o falante de inglês é homem, branco, heterossexual, cisgênero e de classe média 

“Isso cristaliza uma representação de quem pode ter acesso ao inglês e quem não pode, além de desconsiderar o inglês negro falado nos Estados Unidos e o cockney, variedade usada por falantes pouco escolarizados na Inglaterra”, justifica Mota.

Segundo ela, um ponto de partida é o professor se perguntar quais são os sujeitos, lugares e componentes culturais mais presentes nas aulas de inglês e, então, identificar e incorporar aqueles que foram excluídos. 

“Vale ainda trazer imagens de pessoas negras, indígenas, com deficiência, entre outros corpos ignorados em nome de uma padronização”, enfatiza. 

3. Traga experiências de sujeitos tidos como subalternos

Em aulas sobre profissões, rotina diária e presente simples, Mota propõe a leitura de textos que abordem trabalhadores domésticos, caso do conto “The Welcome Table”, da escritora afro-estadunidense Alice Walker. 

“Faça uma contextualização da história, pergunte sobre saberes e experiências prévios dos estudantes em torno da temática. Estimule-os a pensar sobre a discriminação sofrida pela personagem e suas relações com o racismo e sistemas de opressão que hierarquizaram pessoas e as submetem a preconceitos”, propõe a docente. 

De acordo com ela, a atividade pode ser associada a exercícios de escrita, interpretação e vocabulário sobre a rotina dessa personagem em sua profissão. 

“Isso pode sensibilizar sobre a situação das trabalhadoras domésticas que, apesar de conquistarem alguns direitos, ainda são alvo de práticas escravocratas”, completa.

4. Use textos de escritores indígenas e africanos

“Isso ajuda os estudantes a conhecerem aspectos culturais de populações tradicionais excluídas de materiais didáticos e que ensinam sobre outras formas de pensar e viver a vida”, conta Mota.

Ela indica apresentar a classe o livro “The Whale Rider” (2008), do autor indígena da etnia Maori, Witi Ihimaera. A obra conta a história de uma encantadora de baleias, Kahu. 

“O romance apresenta as visões dos maoris e combate estereótipos sobre percepções e modos de vida dessa população tradicional. Além disso, a história é repleta de exemplos de convívio harmonioso e respeitoso com o meio ambiente”, pontua Mota. 

Ela sugere trechos em que um personagem fala sobre a relação de respeito com o mar e o cuidado em não pescar além do necessário. 

5. Use músicas e de países africanos e caribenhos falantes da língua inglesa 

Mota propõe usar em atividades com a turma de músicas produzidas em países fora do eixo hegemônico, como Nigéria, Barbados, África do Sul, Quenia etc. Uma possibilidade é a música de Calypso Rose, de Trinidad e Tobago.

“Além de ter acesso a outros sotaques e variações da língua inglesa, trazer uma música de uma cantora de Trinidad e Tobago descentraliza a ênfase em produções artísticas do Norte global em uma forma de colonialidade musical, que sempre coloca produções britânicas e estadunidenses no centro ao se pensar em música em língua inglesa”, destaca Mota.

6. Apresente o TED Talk “The danger of a single story” (“O perigo de uma história única”), de Chimamanda Ngozi Adichie 

Nesta popular palestra de 2009, a escritora nigeriana compartilha sua experiência de crescer exposta a narrativas criadas por ocidentais que retratavam os africanos de maneira simplista e estereotipada. 

Segundo ela, contar apenas uma história sobre uma pessoa ou cultura perpetua estereótipos e preconceitos. Contra isso, destaca a importância de pessoas e povos subalternizados falarem por si e serem ouvidos. Também encoraja as pessoas a buscarem histórias múltiplas e diversas para uma compreensão mais abrangente do mundo.

A partir desse vídeo, Mota propõe atividades de reflexão e usando o “what if” (“e se”). 

Veja mais: 

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Esse conteúdo faz parte do especial “Educação decolonial”. Para acessar os outros materiais com abordagem decolonial, clique aqui.

Atualizado em 12/09/2023, às 12h41.

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