Autor brasileiro traduzido e lido em todo o mundo, Jorge Amado (1912-2001) segue pouco visível nas escolas. Na tese de doutorado “Da leitura literária e suas invisibilidades: o lugar de Jorge Amado” (2019), a pesquisadora Rosane Hart descobriu que o autor aparecia em apenas 8% dos livros didáticos de língua portuguesa e literatura analisados. “Muitos não contextualizavam sua obra, usando apenas fragmentos de textos para estudos gramaticais e de interpretação”, lamenta.

Hart analisou 93 livros didáticos da década de 1970 até 2015. A primeira menção ao autor ocorreu somente em 1976. “Ele é praticamente invisível no ensino fundamental 1 e aparece no ensino médio com menções que não levam o leitor a compreender a importância da sua escrita. A incoerência se dá justamente porque o escritor permanece quase esquecido no cânone escolar, no entanto reaparece nos vestibulares”. Ela destaca que Amado teve mais de quarenta indicações de obras como leitura obrigatória nos maiores vestibulares do país entre 1997 e 2019.

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Para o coordenador do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos da Universidade Estadual de Feira de Santanta (UEFS), Adeítalo Manoel Pinho, falar do autor com as turmas é apresentar uma literatura humanista. “Amado era consciente do seu papel social como escritor. Sua importância para a literatura e sociedade é o engajamento às lutas das classes sociais menos privilegiadas e prejudicadas. Aqueles ‘embaixo’ apresentados como heróis e os ‘de cima’ como oponentes”, resume. Desigualdade social, injustiças, preconceito racial e contra pobres são algumas das faces de sua literatura. “Mas ele opta por finais otimistas, até pela utopia advinda do viés político”, observa Pinho.

Religião e sociedade

A morte de Jorge Amado completa 20 anos no próximo dia 6 de agosto. Ele nasceu também neste mês, em 10 de agosto de 1912. A crítica tradicional enquadra o escritor como representante da Geração de 30. “Porém, ao considerar toda a sua obra, não temos um estilo único”, adverte Hart. Em termos de estilo, ele foi um contador de histórias adepto da oralidade e temas do imaginário popular. “É menos inventor de realidades e mais representativo da sociedade sobre a qual escolheu escrever”, sintetiza Pinho. “Versava sobre temas variados como disputa de terras, ciclo econômico do cacau, sincretismo religioso, menores abandonados, vida em Salvador, dentre outros”, acrescenta a pesquisadora.

A Bahia, aliás, era o principal cenário das narrativas. “Temos a região grapiúna em torno de Ilhéus e Salvador com suas faces territoriais: mar, praia, vales, cidade baixa e alta”, resume Pinho. Destacam-se os perfis femininos, com Teresa Batista, Dona Flor, Gabriela e Lívia.

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“O personagem negro também é tema vigoroso e nos leva, como leitores e sociedade, a patamares mais evoluídos. Antonio Balduíno, Teresa Batista e Pedro Arcanjo são seres fortes, sábios, justos, guerreiros e importantes para as relações sociais e étnicas ainda prejudicadas pela desigualdade e preconceito”, diz Pinho.

Como grande humanista, Jorge Amado também retratou de forma positiva e madura as religiões católica e afrobrasileiras. A religiosidade está presente em livros como “Tenda dos milagres” (1969), “Jubiabá” (1935), “O Compadre de Ogum” (1964) e “O sumiço da santa” (1988), assim como em “Capitães da areia” (1937), com Dona Aninha e Padre José Pedro.

“Pelos livros, é possível estudar rituais, cultos e oferendas. Há, ainda, episódios de intolerância religiosa, como em Tenda dos milagres”, destaca Hart. Como deputado federal, Amado foi responsável pela emenda que liberou os cultos afro-brasileiros em 1946, até então, perseguidos pelo estado. “É interessante apresentar a obra dele contextualizada com a emenda que criou”, sugere Hart.

Temas sociais

Ao apresentar o autor aos alunos, Pinho aconselha destacar que a obra dele é marcada por aventura, heróis, linguagem compreensível e personagens parecidos com pessoas vistas cotidianamente. “É uma literatura de muita diversão”, destaca ele. Para crianças dos anos iniciais do ensino fundamental 1, Pinho indica “O gato malhado e a andorinha Sinhá” (1948) – que Amado escreveu para o filho João Jorge — e “A bola e o goleiro” (1984). Títulos como “Capitães da areia”, “Jubiabá”, “Tenda dos milagres”, “A morte e a morte de Quincas Berro d’água” (1959) e “Mar morto” (1936) podem ser trabalhados no ensino médio.

“Escolha os títulos de acordo com a faixa etária dos alunos”, assinala Hart. As obras ou trechos podem ser associados a temas atuais, como empoderamento feminino, preconceito racial e de gênero e crianças socialmente abandonadas. Esse último, abordado por meio de “Capitães da areia”.

Hart utiliza com seus alunos sete textos desse livro: uma reportagem sensacionalista que narra os furtos cometidos pelas crianças de rua, seguida de cartas à redação do jornal assinadas pelo secretário de polícia, juiz de menores, mães costureiras, padre José Pedro e o diretor do reformatório. “Conteúdo que rende boas discussões acerca das adjetivações recebidas pelas crianças nos textos e de quem é a responsabilidade por elas”, relata.

Veja mais:

Plano de aula – Livro Capitães de Areia

Plano de aula – Filme Capitães de Areia

Livros de Zélia Gattai ajudam a entender imigração italiana e Estado Novo

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