Populares entre os jovens, as séries japonesas de mangá e anime Naruto e sua continuação Naruto Shippuden narram a jornada de Naruto Uzumaki, um jovem ninja que sonha se tornar líder de sua vila. Os conceitos centrais da narrativa, como chakra (energia vital) e jutsus (técnicas ninjas), podem ser conectados a conteúdos de ciências da natureza, como energia, anatomia, ecologia e transformações da matéria. É o que explica a doutora em educação em ciências e matemática e professora da Universidade do Estado do Amapá (UEAP) Gerlany de Fátima dos Santos Pereira.
“Naruto traz metáforas e elementos narrativos que podem ser associados a conteúdos de biologia, química, física e ecologia. Técnicas ninjas e poderes podem ser comparados a processos científicos reais. Tal relação entre ficção, cultura pop e ciência real ajuda os alunos a compreender conceitos complexos e abstratos, tornando-os mais concretos”, diz ela.
Antes de trazer o anime para sala de aula, porém, Pereira indica ao professor assistir atentamente à narrativa para garantir que o recurso seja pedagógico e não apenas recreativo.
“Os docentes devem estar atentos ao contexto cultural e simbólico do anime, que mistura tradições japonesas, filosofia oriental e valores como amizade, perseverança e superação. É relevante conhecer os personagens principais e suas habilidades, já que muitos deles podem servir como analogias para processos biológicos ou físicos. Para completar, vale diferenciar claramente ficção e ciência para conduzir os alunos à compreensão científica correta”, aponta a graduanda da licenciatura em ciências naturais com habilitação em biologia da UEAP Adenilza dos Santos Piris.
A seguir, elas listam pontos que podem ser trabalhados com os alunos a partir do anime.
1) Energia vital em Naruto para ensinar ATP
No universo de Naruto e Naruto Shipuden, o chakra é descrito como a energia vital que os ninjas utilizam para executar suas técnicas, resultado da combinação entre energia física (do corpo) e energia espiritual (da mente). Segundo Pereira, esse conceito pode ser comparado ao ATP (adenosina trifosfato), que é a “moeda energética” das células.
“Assim como os ninjas precisam de chakra para realizar seus ‘jutsus’ (manipulação do chakra para defesa), os organismos precisam de ATP para realizar suas funções vitais”, afirma.
Ela explica que a produção de ATP nas mitocôndrias pode ser associada ao treinamento e fortalecimento do chakra, mostrando como as células convertem nutrientes em energia disponível. “Além disso, o controle e o equilíbrio do chakra nos personagens pode ser relacionado à regulação homeostática, que mantém o corpo em equilíbrio interno, ajustando temperatura, pH e níveis de glicose, garantindo que o organismo funcione adequadamente”, acrescenta Pereira.
2) Ninjutsu auxilia no ensino de homeostase
No universo Naruto, o ninjutsu é o conjunto de técnicas que os ninjas realizam ao manipular o chakra para produzir efeitos diversos, como ataques elementares, curas, invocações ou transformações. “Também é possível relacionar o ninjutsu à homeostase, já que o controle adequado do chakra lembra os mecanismos de regulação interna do corpo”, compara Pereira. Na química, o ninjutsu elemental (fogo, água, vento, terra e raio) pode ser trabalhado como analogia às reações químicas e às transformações da matéria.
“O fogo remete à combustão; a água, às mudanças de estado físico; o raio, às reações de oxirredução e condução elétrica; e o vento, à dinâmica dos gases”, aponta Piris.
“Na física, o ninjutsu permite discutir propriedades físicas como energia, calor, eletricidade, pressão e movimento. Por exemplo, técnicas de fogo podem ilustrar transferência de energia térmica, enquanto as de raio podem introduzir conceitos de eletricidade e magnetismo”, diz a docente.
3) Manipulação de energia pelos personagens e relações químicas
No universo Naruto, a manipulação dos elementos é um dos pilares das técnicas ninjas, em que os personagens utilizam o chakra para controlar forças da natureza como fogo, água, vento, terra e raio. Isso pode ser relacionado às reações químicas.
“O jutsu de fogo pode ser comparado à combustão; o de água, às mudanças de estado físico e às reações de dissolução; o de raio, à condução elétrica e às reações de oxirredução”, indica Pereira.
“Já o jutsu de terra pode ser associado à formação de compostos minerais e processos de cristalização, enquanto o de vento pode ilustrar fenômenos de pressão e movimento de gases”, acrescenta.
Na física, esses elementos permitem discutir propriedades físicas da matéria, como temperatura, calor, eletricidade, densidade e pressão. “Por exemplo, o controle do vento pode ser usado para explicar a dinâmica dos fluidos e a pressão atmosférica; o raio pode introduzir conceitos de eletricidade e magnetismo; e o fogo pode servir para abordar transferência de energia térmica”, recomenda Pereira.
4) ‘Genjutsu’ pode ser relacionado ao sistema nervoso
O genjutsu no universo Naruto é um tipo de técnica ninja que manipula o chakra para afetar diretamente os sentidos e a mente do adversário, criando ilusões que podem enganar a visão, audição, tato e a percepção da realidade.
Tal conceito pode ser relacionado ao funcionamento do sistema nervoso e dos órgãos dos sentidos, como indica Pereira.
“Do ponto de vista da biologia, o genjutsu pode ser associado ao estudo da neurociência e da percepção sensorial, mostrando como o cérebro interpreta estímulos externos e como pode ser enganado por ilusões. Isso abre espaço para discutir temas como sinapses, neurotransmissores, funcionamento dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e até fenômenos como ilusões ópticas e distorções cognitivas”, lista.
Piris destaca que, no âmbito da psicologia e fisiologia, o genjutsu pode ser relacionado ao estudo da consciência, memória e atenção. “Permite explicar como estímulos externos podem alterar a percepção da realidade e como o corpo reage a situações de estresse ou engano sensorial”.
Para completar, podem-se estabelecer conexões do conceito com a homeostase e a regulação neural. “Isso porque o corpo precisa constantemente ajustar suas respostas para manter o equilíbrio interno, mesmo diante de estímulos ilusórios”, finaliza Pereira.
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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images