Vencedor do Global Teacher Prize 2025, Mansour Al Mansour é um educador saudita, humanitário, que alia a defesa de metodologias ativas e inteligência artificial na educação junto a pautas de responsabilidade social. Iniciou ensinando em uma escola alugada, com poucos recursos, em busca de um ambiente educacional inclusivo, conectando o ensino a problemas reais como mudanças climáticas, cidadania e sustentabilidade.

“Quando trabalham em projetos reais — seja desenvolvendo ideias inovadoras, pequenos negócios ou iniciativas comunitárias — os estudantes aprendem a planejar, colaborar, tomar decisões e refletir sobre os resultados. Entendem que aprender não é algo que acontece com eles, mas que constroem ativamente”, aponta.

“Além disso, é necessário formar ‘cidadãos globais’, ou seja, jovens que entendam que fazem parte de uma humanidade compartilhada. Isso envolve cultivar empatia e respeito pela diversidade”, pontua.

Professor da “Prince Saud bin Jalawi School”, em Al-Ahsa, ele atua tanto na educação básica quanto com populações vulneráveis, incluindo pessoas privadas de liberdade e órfãos — para os quais planeja construir uma escola com parte do prêmio.

“Na educação básica, o foco é nutrir o potencial desde cedo. Na educação prisional, o foco muitas vezes é a reconstrução de confiança, de imaginar novos futuros. Porém, a educação, em qualquer contexto, é sobre abrir portas e oferecer segundas chances”.

Mansour Al Mansour, vencedor do Global Teacher Prize 2025, sorrindo e segurando uma caneta em sua mesa de trabalho.
Educador saudita Mansour Al Mansour alia inteligência artificial e responsabilidade social no ensino (Foto: Varkey Foundation/divulgação)

Instituto Claro: Como aplicar a educação centrada no aluno na prática?

Mansour Al Mansour: Inicia enxergando cada estudante como uma pessoa inteira, não apenas como uma nota. Isso significa ouvir suas histórias, compreender seus desafios e construir caminhos de aprendizagem que respondam aos seus talentos e realidades. Eu busco criar experiências de aprendizagem que conectam o conteúdo acadêmico à vida real, que dão aos estudantes escolhas, que criam oportunidades de mentoria. Quando os alunos se sentem respeitados e apoiados, tornam-se mais motivados e confiantes para moldar sua própria jornada de aprendizagem.

Como a aprendizagem baseada em projetos ajuda os estudantes a se tornarem mais autônomos?

Mansour: A aprendizagem baseada em projetos coloca os estudantes no papel de solucionadores de problemas e de criadores, em vez de meros receptores de informação. Quando trabalham em projetos reais — seja desenvolvendo ideias inovadoras, pequenos negócios ou iniciativas comunitárias — eles aprendem a planejar, colaborar, tomar decisões e refletir sobre os resultados. Esse processo desenvolve autonomia porque os alunos veem o impacto direto de seus esforços. Eles passam a entender que aprender não é algo que acontece com eles, mas algo que constroem ativamente.

Quais experiências você considera mais eficazes para desenvolver o pensamento crítico em sala de aula?

Mansour: Aquelas que conectam a aprendizagem a desafios autênticos. Isso inclui projetos investigativos, debates sobre questões sociais reais, trabalhos interdisciplinares e oportunidades de testar ideias por meio da experimentação e da inovação. Quando os estudantes são incentivados a questionar pressupostos, analisar problemas a partir de múltiplas perspectivas e propor soluções que possam melhorar suas comunidades, o pensamento crítico se torna um hábito, e não apenas um exercício de sala de aula.

A inteligência artificial é uma de suas apostas na educação. Como ela pode ser usada de forma ética e inclusiva nas escolas?

Mansour: A inteligência artificial pode apoiar uma aprendizagem mais personalizada e inclusiva quando usada com responsabilidade. Ela pode ajudar os professores a compreender melhor as necessidades de aprendizagem dos alunos, oferecer feedback adaptativo e fornecer apoio adicional àqueles que estão ficando para trás. Inclusão é garantir que o acesso a essas ferramentas não aprofunde desigualdades e que os alunos aprendam como a IA funciona, para usá-las com criticidade.

Quais cuidados os educadores devem tomar ao introduzir ferramentas de inteligência artificial no ambiente escolar?

Mansour: Priorizar a privacidade dos dados dos estudantes, a transparência e o bem-estar digital. As escolas devem usar ferramentas que protejam informações pessoais, expliquem claramente como os sistemas de IA funcionam e evitem depender delas como única fonte de avaliação ou tomada de decisão. Os professores também precisam de formação para usar a IA de forma consciente e para orientar os alunos a compreender suas limitações, vieses e implicações éticas.

Na sua visão, o que significa educar “cidadãos globais”?

Mansour: Significa ajudar os jovens a entender que fazem parte de uma humanidade compartilhada. Envolve cultivar empatia, respeito pela diversidade, responsabilidade social e um senso de propósito que vai além do sucesso pessoal. É se importar com justiça, sustentabilidade e o bem-estar dos outros, e estar preparados para contribuir positivamente com suas comunidades — local e globalmente.

Você atua tanto na educação básica quanto na educação de pessoas privadas de liberdade. O que muda — e o que permanece igual — ao ensinar em contextos tão diferentes?

Mansour: O contexto muda, mas a necessidade humana de dignidade, esperança e oportunidade permanece a mesma. Na educação básica, o foco é nutrir o potencial desde cedo. Na educação prisional, o foco muitas vezes é a reconstrução de confiança, de imaginar novos futuros. Porém, a educação, em qualquer contexto, é sobre abrir portas e oferecer segundas chances.

Que conselho você daria a professores do Brasil que trabalham em contextos desafiadores?

Mansour: Nunca subestimem o impacto que vocês têm na vida de um estudante. Construam relações fortes, busquem parcerias na comunidade e apoiem uns aos outros como educadores. A inovação nem sempre exige recursos.

Conheça os outros ganhadores do Global Teacher Prize:

Global Teacher Prize: vencedora criou escola segura para meninas (Sister Zeph – Paquistão/2024)

Vencedora do Global Teacher Prize ajudou alunos a verem faculdade como projeto de vida (Keishia Thorpe – Estados Unidos/2021)

“Escutar e não impor ideias aproxima professor da comunidade”, recomenda ganhador do Global Teacher Prize 2020 (Ranjitsinh Disal – Índia/2020)

Ganhador de Global Teacher Prize, professor do Quênia usou criatividade contra escassez tecnológica (Peter Tabichi – Quênia/2019)

Ganhadora do Global Teacher Prize 2018 usou arte para melhorar confiança dos alunos (Andria Zafirakou – Reino Unido/2018)

“Ao entender sua comunidade, professor torna a aprendizagem relevante”, diz vencedora do Global Teacher Prize (Maggie MacDonnell – Canadá/2017)

O que você pode aprender com a melhor professora do mundo? (Hanan Al Hroub – Palestina/2016)

Crédito da imagem: Varkey Foundation/divulgação

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