A manipulação de imagens para difundir padrões de beleza não é algo novo – vide o uso de softwares como o Photoshop no tratamento dos corpos em capas de revista ou mesmo os filtros usados no cinema e na televisão. A utilização de filtros de beleza disponibilizados nas redes sociais, porém, trouxe o problema para um novo patamar: o cotidiano.

“O sujeito que lê uma revista ou entra no ritual da sala de cinema consome um produto com um olhar distanciado para seus ídolos e ideias de beleza. Em termos de subjetividade, é diferente de quando ele socializa em uma rede social”, diferencia a psicóloga e coordenadora do Núcleo de Doenças da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Joana de Vilhena Novaes

“Com o filtro na palma da mão, todos são protagonistas. Essa mudança de perspectiva transforma a minha relação com o espelho e como eu passo a enxergar o outro também”, completa a doutoranda em psicologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), pesquisadora e mulher gorda Vanessa Branco.

Por que mudar a imagem nas redes?

Se todos ao redor postam fotos com filtro que alteram a aparência, cria-se um segundo diferencial em relação ao passado: a massificação. Porém, há motivos para um contingente de pessoas escolherem postar fotos manipuladas.

Novaes explica que o reconhecimento nas redes sociais é importante porque os limites entre o real e o virtual não são mais demarcados. “As redes sociais são a nova polis (termo grego para ‘cidade’ e que representava a vida pública). É nela que acontecem as interações, as relações amorosas etc.”, explica. “Além disso, na subjetividade contemporânea, não há mais essa distinção entre real e virtual. Eu não me penso disfarçada por meio do filtro: eu sou aquilo”, diferencia Novaes.

Nesse contexto, ao postar uma foto manipulada, o que desejamos é reconhecimento público – o famoso ‘biscoito’. “É o aplauso e a chancela de quem nós somos”, complementa. O estimulo pelo uso dos filtros de beleza também ocorre porque eles são apresentados como diversão. “Porém, o que vem disfarçado de entretenimento é o dever do corpo magro e da juventude eterna. O filtro é um dispositivo de controle apresentado de forma lúdica”, acrescenta Novaes.

Outro fator que colabora com a massificação de imagens alteradas e de corpos padronizados são os algoritmos, os códigos responsáveis por indicar conteúdos que supostamente um usuário irá gostar baseado no seu perfil. “Os algoritmos não são neutros e podem reproduzir vieses, como quando você pesquisa por uma determinada imagem e só aparecem pessoas brancas”, ilustra a psicóloga e diretora de projetos especiais da Safernet Juliana Cunha.

Um universo branco, jovem e magro

Com usuários postando e recebendo imagens de corpos dentro de uma mesma estética, cria-se a ilusão de um mundo sem ‘imperfeições’. “É um mundo infantilizado que não suporta falhas, ou seja, não suporta o princípio da realidade”, analisa Novaes. Tudo isso traz consequências sociais.

Dois problemas que não foram inaugurados pelos filtros, mas são potencializados por eles, são etarismo e racismo, como explica Cunha: “Os filtros refletem nossos preconceitos e estigmas raciais. Isso faz com que sejam criados filtros para eliminar sinais da idade, clarear o tom da pele e modificar traços de nariz e boca. Com isso, reproduz e valoriza um padrão de beleza associado a pessoas jovens e brancas”.

“Muitos filtros deixam a pele de pessoas negras acinzentadas ao tentar embranquecê-las e encaixá-las em um padrão eurocêntrico”, lembra Branco. Segundo Novaes, outras consequências sociais são desacostumar o olhar para a diversidade e validar socialmente a exclusão de pessoas consideradas ‘feias’. “Essa estetização do cotidiano coloca o feio como um problema de caráter e da ordem moral. Vem junto com um discurso de que só é fora do padrão quem quer, basta ter dinheiro e vontade para mudar”, analisa.

Interioridade aniquilada

“Pensar a beleza como único marcador moral, qualificar alguém em função de atributos estéticos, dizer que todo o valor do sujeito reside na beleza trarão problemáticas”, indica Novaes. No âmbito individual, estar envolto de imagens padronizadas traz sentimento de inadequação e muito sofrimento psíquico. “Quando você impõe que desvios estéticos não são justificáveis ou tolerados, isso tem impacto gigantesco em como nos vemos. A interioridade é aniquilada: o que eu sei sobre mim passa a ser representado pela minha exterioridade”, acrescenta Novaes.

Uma pesquisa da Girlguiding, de 2020, revelou que um terço das jovens inglesas não publica fotos nas redes sociais sem filtros que modificam a aparência e 39% se viam infelizes por não se parecerem com as imagens virtuais. Foram entrevistadas 1.473 adolescentes e jovens entre 11 e 21 anos

Para completar, as imagens alteradas produzem insatisfação. “Podem influenciar nossa percepção de beleza, fazer com que persigamos um ideal estético irreal e fiquemos vulneráveis a frustrações quando não o alcançamos. Paulatinamente, fazem crer que nossa aparência natural, sem intervenção, é algo a ser evitado e desvalorizado”, diz Cunha.

Branco lembra que tal insatisfação é um prato cheio para o capitalismo. “São milhares de pessoas presas em uma roda de hamster buscando soluções para mudar o corpo ou parar o envelhecimento. Spoiler: elas não vão conseguir. É um sofrimento retroalimentado dentro do sistema capitalista”, explica.

“Para a indústria do emagrecimento, do rejuvenescimento, da cirurgia plástica, o filtro é benéfico. Para o sujeito comum que adoece, não”, destaca Novaes. “Ocupadas com a aparência, as pessoas deixam de pensar em outros problemas estruturais, em outras possibilidades de existência e resistência, em outras formas de vida”, lamenta Branco.

A pressão estética não atinge todos da mesma forma, sendo maior entre meninas, mulheres e LGBTQIA+, como explica Cunha: “Também deixa essas pessoas mais vulneráveis com propensão para transtornos como dismorfia, condição que afeta a percepção corporal”.

Educar para corpos diversos

Para uma rede social saudável, é preciso que grandes empresas de tecnologia estejam atentas a quais filtros são criados e a como os algoritmos atuam. “É fundamental equipes de programadores e desenvolvedores com diversidade e que sejam endereçadas ética e direitos humanos desde a concepção de um produto. Não é possível separar tecnologias de suas implicações sociais”, destaca Cunha.

Os filtros criados por usuários também devem seguir as regras. “Em 2019, o Spark AR (software de realidade aumentada do Facebook) anunciou rever suas políticas para banir filtros associados a cirurgia plástica”, lembra Cunha.

Vale ainda aprender a identificar imagens alteradas por filtros e, com isso, não se comparar com corpos irreais. Outra alternativa é exercitar um olhar de mais diversidade para a beleza e curtir perfis com corpos diversos, o que permite “educar” o algoritmo. “Muito do meu processo de aceitação foi ver outras mulheres gordas para entender que existem outras formas de existir e que essas também são amáveis”, compartilha Branco.

Pais devem tomar cuidado para não usar filtros de beleza em crianças. “Responsáveis projetando ideias de beleza em crianças impactam a autoestima delas”, aponta Branco. Por fim, vale fazer o exercício de usar menos filtros que alteram a aparência. É possível seguir e utilizar hashtags que valorizam imagens reais, como: #nofilter, #semfiltro, #bodyneutrality, #bodypositive, #corpolivre, #bereal e #filterdrop – esta última criada pela maquiadora inglesa Sasha Pallari visando mais “peles de verdade” nas redes sociais. “Ações afirmativas passam pela diversidade e por reivindicar o direito a outras formas de existir”, finaliza Novaes.

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