O estudante de medicina veterinária Igor Pamplona, de 29 anos, já se relacionou afetivamente com homens e mulheres cisgêneros e transgêneros, assim como pessoas não-binárias. Ele é um exemplo de pansexual – orientação sexual representada pela letra P da sigla LGPTQIAP+. Na pansexualidade, é possível se atrair romanticamente e sexualmente independente da identidade de gênero do outro.

“Entendi-me primeiro como gay, achava a possibilidade real e não refletia sobre. Mas sabia que não era 100% gay porque sentia atração pelo gênero feminino e tinha, inclusive, uma filha de um relacionamento anterior. Foi quando comecei a me relacionar com um garoto transgênero e percebi que gostava de pessoas diversas, que tinha uma sexualidade fluída e podia ser livre e sincero com meus desejos”, compartilha. “Foi tranquilo externalizar isso porque já me questionava há tempos, apenas senti que me encontrei”, destaca.

Uma das diferenças da pansexualidade para a bissexualidade é que, na segunda, a atração costuma se dar na binaridade de gêneros: homens e mulheres — ainda que não seja uma regra (veja abaixo). “O gênero binário é uma construção social imposta, vide que sociedades primitivas e povos tradicionais indígenas reconheciam mais de dois gêneros. O pansexual quebra com isso”, opina Pamplona.

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A freelancer de audiovisual Luna Poteca, de 26 anos, sabia que se apaixonava por meninos e meninas desde pequena. “Crescendo, saindo do binarismo e sabendo das outras possibilidades de gênero que existem, percebi que poderia me sentir atraída por todas essas variações”, relata a jovem.

“Confusão”

Além de ser confundido com o bissexual, o pansexual também tem que lidar com informações falsas que o associam a distúrbios e crimes sexuais, como zoofilia e ninfomania. Também sofre preconceito dentro e fora da comunidade LGBTQIAP+. “Entendi-me pan quando percebi que pessoas são pessoas, independente de seus corpos e de como se entendem. E que posso amar independente disso tudo”, revela o atendente e homem transgênero Talles Garcia, de 20 anos.

Talles Garcia
Talles Garcia se entende como pansexual (crédito: acervo pessoal)

“Porém, tendem a invalidar a gente por não compreenderem a amplitude do que sentimos e podemos sentir”, ressalta Garcia. “Muitas pessoas LGBTQIAP+ deixaram de se relacionar comigo dizendo que pansexuais não são confiáveis. Ou afirmavam que eu tinha que me decidir, que estava confusa”, lembra Poteca.

Pamplona relata preconceito por parte de outros homens gays. “Muitos acham que é invenção, que ‘as pessoas não sabem mais o que fazer da vida’. Em aplicativos de relacionamento, houve situações de ser xingado e bloqueado por preconceito”, lamenta.

Fora da comunidade, Poteca passou pela situação de discriminação com um parente quando namorava um homem trans.“Meu relacionamento começou antes de ele se entender como trans. Como casal de mulheres, já erámos excluídas”, lembra. “Esse familiar acreditava que eu estava forçando meu namorado da época a passar pela transição e ‘deixar de ser aquela menina tão bonita’ para me satisfazer e que isso era doentio. Isso foi um choque pra mim”, relata.

“É fundamental ressaltar o respeito à forma como cada um se identifica e se posiciona. Não se deve questionar a orientação sexual ou identidade de gênero do outro baseado no que eu acho correto ou gostaria que fosse”, enfatiza Pamplona.

6 dúvidas sobre a letra P

O que é a pansexualidade?

É uma orientação afetiva e sexual na qual uma pessoa se atrai por outras independentemente da identidade de gênero e suas variações. “Não me privo de ficar com alguém por a pessoa ser cisgênero, transgênero ou não-binário. Para mim, a atração é mais pautada em conexão, energia, interesses comuns e trocas”, esclarece Igor Pamplona. “Somos pessoas que se interessam por pessoas e não por genitálias”, resume Poteca.

Qual a diferença entre pansexuais e bissexuais?

A principal seria o binarismo de gênero: o bissexual, geralmente, considera duas possiblidades: o masculino e o feminino. Além disso, nem todos se relacionam com homens e mulheres transgênero. “A pansexualidade engloba tudo, até os que não se encaixam em lugar nenhum”, resume Talles Garcia. Ainda assim, o que pauta uma orientação sexual é como o indivíduo se sente e se posiciona. “Tem pessoas que ficam com gêneros fluidos, neutros, transgêneros, mas preferem se posicionar como bissexual. É algo individual, dependendo da forma como você se enxerga e se relaciona com o mundo”, destaca Pamplona.

Como saber se sou bissexual ou pansexual?

“Se você não se importa com o gênero de quem se relaciona, se não faz diferença para você, com certeza você é pansexual”, opina Garcia. “Tive essa dúvida, pesquisei bastante e cheguei à conclusão de que saber se é bi ou pan exige somente sentir. Sentir onde você pertence e recebe mais acolhimento. Ou seja, a diferença que existe, na minha concepção, é de identificação somente”, sugere Poteca.

Luna Poteca
Luna Poteca (crédito: acervo pessoal)

Uma fake news que circula é que o pansexual se relaciona com objetos, plantas e animais. O que dizer sobre isso?

“Há uma tentativa de relacionar uma sexualidade sadia com distúrbios sexuais”, opina Pamplona. “Acho que é mais uma desculpa pra invalidar a gente”, assinala Garcia. “O que digo quando recebo perguntas assim é: não nos relacionamos e nem sentimos atração por objetos, plantas ou animais. Temos interesse por pessoas. E acrescento: pessoas maiores de idade em plenas capacidades emocionais e mentais, onde há consentimento”, enfatiza Poteca.

Pansexuais se atraem por todas as pessoas?

Assim como um homem heterossexual, na teoria, poderia se atrair por qualquer mulher; na prática, há sempre gostos e preferências. “Para mim, além da atração física, é necessário haver trocas no campo mental”, exemplifica Pamplona.

Igor Pamplona
Igor Pamplona (crédito: acervo pessoal)

Uma pessoa precisa ter ficado com parceiros de todas as identidades de gênero para se entender como pansexual?

“A resposta é um categórico ‘não’. Pessoas que se identificam como lésbicas ou gays, por exemplo, sabem de sua sexualidade independente de como anda sua vida sexual”, compara Poteca. “Ser pan é mais sobre se permitir viver novas possibilidades. Conhecer-se e explorar formas de se relacionar com o seu corpo e outros corpos diversos”, conclui Pamplona.

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