Para a maioria da população, sentir atração sexual é algo natural — comportamento que recebe o nome de allosexualidade. Porém, há pessoas que não sentem atração sexual ou sentem com outra intensidade e de forma condicionada, por exemplo, apenas quando há vínculo emocional. Estes são os assexuais, uma das orientações da sigla LGBTQIAP+.
“É como um jarro com líquido. A pessoa que não sente atração sexual seria o jarro vazio e, aqueles que sentem, ele cheio. Qualquer pontuação nesse caminho representa níveis diferentes de atração sexual”, ensina o advogado e militante da causa assexual Walter Mastelaro Neto, de 35 anos.

A assexualidade, porém, é bastante incompreendida. “O preconceito se mostra na invalidação: ela não existe, é frescura, estão inventando moda, criando uma orientação sexual, é falta de experiência ou você não encontrou a pessoa certa”, lista coisas que já ouviu a estudante Rute Alves, de 24 anos.

Rute
Rute Alves (crédito: acervo pessoal)

Há ainda a patologização, isto é, a ideia de que a assexualidade seria causada por traumas, disfunção hormonal ou por decepção amorosa.“Quando aparece em conversas, a patologização é mais uma acusação do que uma pergunta. O interlocutor pensa: se todas as pessoas saudáveis sentem atração sexual, você é doente”, compartilha Neto. Assexuais também são vítimas de violência sexual e estupro corretivo, ou seja, a tentativa de “corrigir” uma pessoa via sexo forçado.

“Em 2015 foi feita uma pesquisa publicada na BuzzFeed News, apontando que, entre 8 mil assexuais, 43,5% haviam sofrido violência sexual”, compartilha a escritora demissexual — pessoas que só sentem atração sexual com vínculo emocional — Dayane Borges, de 24 anos. “Como moderadora de comunidades assexuais, eu li mais casos de estupro corretivo na vida do que gostaria”, lamenta a designer e produtora de eventos Jeanine Adler, de 27 anos.

Jeanine Adler,
Jeanine Adler (crédito: acervo pessoal)

Descoberta e aceitação

Adler conta que passou a adolescência e o começo da juventude achando que seu desinteresse físico pelas pessoas era um processo que passaria. “Fazer sexo é muito individual. Tem assexuais que não sentem atração sexual mas podem praticar o sexo porque este às vezes é bom. Outros sentem um pouco de atração sexual, mas não enxergam graça no sexo e evitam praticá-lo”, destaca a designer. “Além disso, mesmo sem sentir atração sexual, as pessoas podem gostar das outras e terem relacionamentos. Até porque relacionamentos não se resumem ao sexo”, esclarece Adler.

Borges conta que se entendeu assexual antes de conhecer o termo. “Na adolescência, não entendia a atração que as pessoas sentiam umas pelas outras ou a vontade louca de sair beijando alguém nas festas. Foi doloroso porque pensava que o problema era eu”, compartilha. História semelhante à de Alves: “A descoberta foi libertadora, não me sentia mais a estranha”.

Ainda para Borges, entender-se como assexual passou por rever questões raciais. “Quando se é uma mulher preta, a sexualização dos nossos corpos atravessa vivências e relacionamentos. Para mim, ficou um grande ‘e agora?’. Se não consigo ter uma relação sexual, as pessoas vão me ver como? Uma situação que também passa pela solidão da mulher negra”, associa.

Dayane Borges
Dayane Borges (crédito: acervo pessoal)

Para conhecer mais sobre o assunto, a escritora indica os livros e séries adaptadas da obra de Alice Oseman, autora assexual que tem personagens dessa mesma orientação em suas histórias. “Também idealizei a coletânea de contos Espectros de Roxo e Cinza, com protagonistas assexuais. São necessários espaço e desmistificação para que mais pessoas saibam que existem diferentes atrações e maneiras diversas de sentir”, conclui Borges.

15 perguntas para esclarecer a assexualidade

O que é o assexual?

“É a pessoa que não sente atração sexual, sente ocasionalmente ou de forma condicional, por exemplo, se houver o estabelecimento de algum vínculo”, resume Rute Alves

Existem vários tipos de pessoa assexual?

O espectro da assexualidade é grande, com pessoas que podem sentir ou não atração sexual ou atração romântica, sentir em diferentes níveis de intensidade e condicionalidade. Perfis mais conhecidos são os demissexuais, que necessitam de vínculo emocional para a atração se desenvolver, e os gray (cinzas). “Eles sentiram poucas vezes ao longo da vida e pode ter sido de forma fraca e rápida”, apresenta Walter Mastelaro Neto.

Walter Mastelaro Neto (crédito: acervo pessoal)

Posso usar o termo assexuado?

Ele é incorreto. “Assexuado são seres que se reproduzem sem troca de gametas, o que não tem relação com ser assexual. Às vezes, é utilizado de forma pejorativa”, alerta Dayane Borges. Essa palavra chegou a ser utilizada no passado pela própria comunidade por se tratar de uma tradução direta da língua inglesa. “Foi abandonado porque seu sufixo era diferente de outras orientações sexuais, como homossexual, bissexual e heterossexual”, pontua Neto.

A pessoa assexual não faz sexo?

Há diferentes níveis de interesse nesse campo. “A pessoa pode sentir atração eventualmente, em situações específicas ou não sentir nada”, esclarece Alves. “Há pessoas que consideram o sexo agradável (sex positive), neutro (sex neutral) ou sentem incomodo e repulsa (sex repulsed). Quem é assexual pode ter qualquer uma dessas visões”, afirma Borges. “Além disso, você pode ser assexual, não gostar de ter relação sexual, mas em um determinado relacionamento estar de acordo em ter. As possibilidades são muitas, depende da pessoa e dos seus relacionamentos”, complementa.

Qual a diferença entre ser assexual e arromântico?

O assexual pode ser romântico ou arromântico, ou seja, sentir pouca, condicional ou nenhuma atração romântica. “Esta está associada a com quem você tem vontade de ter um relacionamento romântico”, indica Borges. Em outras palavras, pessoas assexuais podem ou não se apaixonar. “Os assexuais arromânticos sofrem invalidação e desumanização, não raro sendo vistos como pessoas sem sentimentos ou predadores sexuais”, lamenta Neto.

O que é ser demissexual?

Integra o espectro assexual. “O demissexual não sente atração sexual até conseguir estabelecer uma forte conexão emocional com a outra pessoa. É diferente daqueles que sentem atração sexual e decidem esperar a conexão emocional para ter uma relação sexual. Neste caso, é uma escolha. No caso dos demissexuais, não ”, diferencia Borges.

A pessoa assexual é fria?

O estereótipo tem origem no termo frigidez. “Há uma analogia do sexo ao calor, logo, quem não tem interesse na prática seria frio”, relata Adler. “A orientação sexual não determina a personalidade. Uma pessoa assexual pode ou não ser fria. Isso não depende da atração que sente e sim de quem ela é”, desmistifica Borges. “A falta de representação nas grandes mídias ou a representação estereotipada de assexuais contribui para esse imaginário”, acrescenta.

A assexualidade é uma forma de celibato?

A abstinência sexual ou celibato são decisões feitas conscientemente por pessoas que sentem atração sexual (allosexuais), mas optam por não praticar o sexo. Muitas vezes, essas estão relacionadas a questões religiosas. “É importante enfatizar que assexualidade não é uma escolha”, informa Borges.

A assexualidade é causada por trauma ou travas psicológicas?

Não. “Uma pessoa pode ter um trauma e mesmo assim sentir atração sexual e não querer ou conseguir consumar o ato sexual. A literatura científica aponta que pessoas que se identificam como assexuais não têm tais questões”, conta Borges. “É como pensar que uma mulher ‘virou’ lésbica porque teve traumas relacionados ao homem”, compara Jeanine Adler.

A assexualidade é causada por deficiência hormonal?

Existem deficiências hormonais que interferem na libido, mas isso não determina se uma pessoa é ou não assexual. “Hormônios não interferem na atração sexual e na orientação sexual. Posso ser um homem gay com hormônios que me deixam com muita vontade sexual, mas não significa que me sentirei atraído por uma pessoa do gênero oposto que estiver no mesmo ambiente”, ilustra Adler.

Assexuais falam de sexo?

“Tem pessoas que sentem atração sexual (allosexuais) mas ficam constrangidas ao falar de sexo, e outras que nunca fazem e são tranquilas em abordar o assunto. Sua orientação não define isso”, reforça Adler.

A assexualidade é uma orientação sexual?

Ela é vista como uma orientação sexual por sua comunidade. A diferença é que o assexual pode também se identificar com outras orientações sexuais (homossexual, bissexual ou pansexual) de acordo com os gêneros pelos quais se sentem atraído. “Por exemplo, você pode ser um homem assexual e heterossexual sem sentir nenhuma atração sexual, mas sim outras formas de interesse por mulheres, como a atração romântica”, descreve Adler, que se identifica como assexual e birromântica (interesse romântico pelos gêneros masculino e feminino). “Uma forma seria ver a assexualidade como um conjunto de orientações sexuais”, complementa Neto.

A assexualidade foi uma orientação sexual ‘criada’ recentemente?

“Como comunidade, ela é datada entre os anos de 1990 e 2000, mas há documentos e informações que a registram desde o século XIX, principalmente em movimentos sociais”, revela Borges.

A assexualidade existe?

“Invisibilizar é uma forma como o preconceito contra assexuais se manifesta. Dizer que não existe é se recusar a olhar algo que está fora da sua realidade”, relata Adler.

Como devo tratar uma pessoa assexual?

Respeitando seus limites e vontades. “Quando está em um relacionamento com uma pessoa assexual, é importante conversar para saber até onde ela pode ou quer ir. Compreender que sentimos níveis de atração sexual e vemos o sexo de maneiras diferentes”, relata Borges. “Não é apenas ‘ela não vai querer fazer nada’. Converse, descubra, deixe espaço para a pessoa se sentir confortável e apenas respeite”, enfatiza.

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