Quanto mais competição e menos cooperação, maiores sãos as chances de um ambiente de trabalho apresentar casos de assédio moral e sexual. Quem alerta para essa relação é a auditora fiscal do trabalho do Ministério do Trabalho e Previdência Social Luciana Veloso Baruki. “Esse ambiente provoca quebra na solidariedade entre as pessoas, que é fator de proteção. Quanto mais sozinho e isolado, mais vulnerável fica o trabalhador”, revela a especialista. Em entrevista, ela ainda explica as diferentes maneiras como o problema pode atingir homens e mulheres, que também tendem a reagir de modo diverso.

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Instituto Claro: Quais os tipos de assédio que podem acontecer no trabalho?

Luciana Veloso Baruki: Primeiro, o assédio organizacional ou institucional, que é a cobrança abusiva e irreal de metas, assim como a desmoralização do trabalhador que não as cumpre frente aos colegas. Segundo, o assédio moral interpessoal, não vinculado à cultura da empresa e que não atinge o coletivo, mas um trabalhador específico. Pode ser da chefia contra subordinado ou de baixo para cima. E o sexual, configurado por palavras e comportamentos contra a vontade da pessoa e gerador de constrangimento.

Como o assédio sexual se manifesta?

Baruki: De forma variada, incluindo comentários em redes sociais, mensagens de texto, envio de presentes e outros. Mas, basicamente, há duas subdivisões: por chantagem, ao exigir conduta sexual em troca de benefício ou de não ter prejuízo na carreira e por intimidação no próprio ambiente de trabalho, de forma hostil e permanente. Nesse caso, aparece como “piadinhas” e pode ser praticada também contra um grupo, não apenas individualmente.

Há um perfil de gênero e social sobre quem sofre mais assédio hoje?

Baruki: Mulheres são quase 80% das vítimas, adoecem mais e sofrem maior violência psicológica. Homens sofrem algo prático e menos verbal: uma promoção que não chega, deslocamento para trabalho pior e distante, ainda que não seja uma regra. O assédio é maior com pessoas negras, LGBTI+ e pessoas com deficiência que retornam ao trabalho após sequelas, incluindo doenças mentais.

Em quais circunstâncias as mulheres se tornam mais vulneráveis ao assédio?

Baruki: Quando acumulam fatores de discriminação, como ser negra e LGBTI+. Também ao trabalhar em setores considerados masculinos, nos quais são vistas como ocupando o lugar de um homem. Esse mesmo pensamento atinge mulheres em cargos de chefia. Mulheres que professam sua religião são mais atingidas que homens na mesma situação. E destaco a grande frequência do assédio contra gestantes, mulheres que voltam da licença maternidade e com filhos pequenos. Tudo isso tem a ver com misoginia, o ódio à condição feminina.

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Quais as características do assédio relacionado ao homem?

Baruki: Pode ocorrer quando ele está em grupo formado por mulheres, mas não é regra. Quando é vítima de assédio sexual, principalmente de superior homem, cala-se e finge que nada aconteceu. Isso é reflexo da masculinidade tóxica da sociedade e receio de ser tido como fraco. Historicamente, mulheres são mais conscientizadas, desabafam com colegas e sabem identificar porque foram alvos. O homem tende a eximir a responsabilidade do agressor: acha que se tornou vítima por ser legal, bonito, tratar os outros bem.

Quais ambientes são mais propensos a assédios?

Baruki: É comum na cultura de bancos, telemarketing e varejo, setores de metas altas, vigilância do trabalho, comparação entre funcionários e competição. Quanto maior competição e menor cooperação, mais assédio. Ocorre quebra na solidariedade entre as pessoas, que é fator de proteção. Quanto mais sozinho e isolado, mais vulnerável fico. Destaco ambientes com problemas de comunicação, com processos pouco transparentes, com conflitos de papéis entre funcionários e objetivos de trabalho pouco claros. Ainda é comum o assédio moral interpessoal por questão econômica: força-se a demissão de um funcionário para não precisar demiti-lo e pagar direitos.

Quais as consequências para a saúde mental do trabalhador?

Baruki: Existe uma reação individual ao estresse, por isso, diversas patologias físicas e psíquicas são relacionadas ao assédio. No segundo caso, cito estresse pós-traumático, depressão e todas as variações de transtornos de ansiedade, como obsessivo compulsivo (TOC), pânico e agorafobia. Há insônia e somatizações diversas.

Como a vítima de assédio deve agir?

Baruki: Buscar informações para entender se está vivendo realmente uma situação de assédio dá segurança para romper o silêncio. É importante procurar aliados no trabalho, ajuda psicológica contra adoecimento e denunciar em canais da empresa, se houver. Esses canais são responsabilidade do empregador e mais comuns em multinacionais do que em empresas menores e serviço público. Casos coletivos podem ser denunciados ao Ministério Público do Trabalho, que costuma priorizar essa configuração. Se o assédio é individual, é necessário contratar um advogado. Lembrando que assédio moral é reconhecido como acidente de trabalho.

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