O que é lixo para você, pode ser útil para alguém. Foi a partir dessa concepção que nasceu o movimento online Free Your Stuff (ou “Liberte suas coisas”, em tradução livre). A primeira página de Facebook foi criada em 2011, por um estudante romeno, em Luxemburgo. O objetivo era que pessoas doassem aquilo que não lhe servia mais.

A ideia se popularizou na Alemanha nos anos seguintes até chegar às cidades brasileiras. Atualmente, São Paulo (SP), Curitiba (PR), Brasília (DF) e Porto Alegre (RS) são alguns dos municípios que contam com suas próprias comunidades virtuais.

Para participar, basta o usuário postar uma foto dos itens que deseja desapegar e o local onde eles se encontram. O usuário que primeiro responder a postagem e se comprometer a retirá-los, fica com os objetos. Tudo isso sem uso de dinheiro ou trocas.

Outra curiosidade é que qualquer coisa pode ser doada: móveis, revistas, livros, potes, mudas de plantas, eletrodomésticos quebrados – cujas peças podem ser reaproveitadas – e até maquiagens vencidas, que não podem mais ser usadas como cosméticos, mas ganham novo uso na produção de artesanatos.

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Criadora de um dos grupos de Brasília, a fisioterapeuta Aline Alencastro ficou sabendo da iniciativa alemã por uma reportagem, em 2014. Uma paciente criou a comunidade e ela e sua irmã passaram a administrá-la. A iniciativa, que iniciou com 60 pessoas, hoje conta com mais de nove mil membros.

“A ideia principal do grupo é circular a energia, não deixar parado um objeto sem uso que pode ser útil para outra pessoa. Às vezes, quem recebe estava precisando ou ia comprar exatamente aquilo que você tem. No Liberte suas Coisas você apenas doa e não espera nada em troca”, esclarece.

Solidariedade e sustentabilidade são os pilares da iniciativa Free Your Stuff (crédito: arquivo pessoal/Beth Rodrigues)

“Objetos de decoração, por exemplo, costumam se manter novos ao longo do tempo, mas é fácil enjoar deles”, exemplifica ela.

Em algumas cidades, é permitido que os usuários também façam pedidos de coisas que precisam. “No nosso caso, uma membra criou outro grupo chamado Você precisa de quê? para que as pessoas que estejam precisando de doações peçam por lá, e o Liberte suas Coisas flua com a energia do desapego”, justifica Alencastro.

Segundo ela, solidariedade e sustentabilidade são os pilares da iniciativa. “O simples ato de doar pode influenciar tanto na quantidade de compras quanto na de lixo produzido”, destaca. “Assim, a ideia é passar por esse mundo sem causar tanto dano. Quanto menos comprarmos, menor será a quantidade de matéria prima utilizada e, consequentemente, menor será a quantidade de lixo acumulado em aterros e lixões, o que reflete no meio ambiente”, conclui.

Espírito de comunidade

O cantor e leitor de aura Rael Godoy utilizou o Free Your Stuff em dois momentos: quando estava montando seu apartamento em São Paulo e, cinco anos depois, quando partiu para a Bahia.

“Na primeira vez, foi muito útil porque estava tendo custos altos com a mudança e não tinha dinheiro para móveis. Montei um quarto, por exemplo, com coisas que outras pessoas doaram e não tinham mais uso para elas”, relembra.

Na sua mudança de estado, foi a vez dele de doar. “Quando se está indo embora, aquelas coisas que você não consegue vender ou dar um destino adequado podem se tornar um impedimento. Muita gente pode usar o grupo nesse tipo de situação”, sugere.

“Sempre vejo pessoas de prontidão, esperando uma oportunidade para algo que precisam. Tentando serem os primeiros a responder um anúncio. Se não tivesse o grupo, várias coisas úteis iriam para o lixo. Há um sentido ecológico e social no movimento”, reflete.

Beth Rodrigues descobriu o grupo de São Paulo, porque buscava ajudar pessoas diretamente, não mais via instituições. Sua primeira doação, em 2017, foi para uma mãe desempregada que pedia qualquer brinquedo para os filhos. “As crianças ainda acreditavam em Papai Noel e seria o primeiro ano delas sem brinquedos. Doei itens que eram do meu neto e escrevemos uma cartinha”, relembra.

Grupo é alternativa para doação de itens parados e que podem ser úteis para outra pessoa (crédito: arquivo pessoal/Beth Rodrigues)

Outros itens que vê anunciados e consegue adquirir, ela direciona para pessoas que precisam. “Por exemplo, mandei um aparelho de DVD para uma família com crianças que não possuíam celular ou internet. Já livros, também costumo direcionar para um orfanato”, explica.

A fotógrafa Danielly Gomes Pinheiro recebeu ajuda quando decidiu abrir um espaço próprio de trabalho. “Doaram câmeras antigas para decoração, livros de fotografia e mesa de escritório. Sou muito grata a cada um que me ajudou no projeto”, afirma.

Para saber se sua cidade possui um ou mais grupos do movimento, basta pesquisar no Facebook pelos termos “Free your Stuff” ou “Liberte suas coisas” com o nome do município. Caso não haja, Alencastro incentiva que você mesmo crie a iniciativa.

“Seria ótimo se tivessem grupos assim em todas as cidades. O consumismo desnecessário iria diminuir”, opina. “Em cidades grandes, por exemplo, eles podem ser por bairros, para facilitar as doações”, orienta.

Crédito da imagem principal: arquivo pessoal/Beth Rodrigues

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