O movimento “Diretas Já” surgiu como uma iniciativa popular para buscar a restauração das eleições diretas para a presidência do Brasil durante o período da ditadura militar. Sua origem remonta a 1983 em Pernambuco, mas ganhou destaque com a participação de 300 mil pessoas em um comício no aniversário de São Paulo (SP), em 25 de janeiro de 1984, e, posteriormente, em 16 de abril de 1984, com uma marcha que reuniu 1,5 milhão de pessoas entre a Praça da Sé e o Vale do Anhangabaú.

“Foi uma espécie de coroamento de um processo de resistência à ditadura por parte da oposição legal, aquela que não defendia a luta armada. Foi um processo construído aos poucos, pelo voto no Movimento Democrático Brasileiro (MDB, partido político brasileiro que abrigou os opositores da ditadura militar) e pelas primeiras eleições diretas para governadores, senadores, deputados, prefeitos e vereadores”, explica o jornalista, ex-militante e autor da série “Diretas Já” (2023), Paulo Markun.

Naquele período, a perspectiva de eleições diretas para o cargo de presidente da República estava vinculada à votação da proposta de emenda constitucional apresentada por um jovem deputado, Dante de Oliveira, no Congresso. A proposta foi rejeitada, mas houve uma vitória parcial em janeiro do ano seguinte, quando Tancredo Neves foi eleito presidente pelo colégio eleitoral.

“Foi uma sacada inesperada de um jovem deputado sem entendimento do processo, sem chance de dar certo que deu certo. Esse processo de construção de uma frente ampla em prol da democracia teve [o então deputado federal] Ulysses Guimarães como principal articulador, além do então líder sindical Luís Inácio ‘Lula’ da Silva e dos governadores de oposição. Estes últimos financiaram as manifestações, algo que hoje seria impossível”, contextualiza Markun.

“Esse processo de transição da ditadura para democracia iniciou, na minha opinião, em 1974 quando a oposição concedida, o MDB, teve votação esplêndida no legislativo. Aí a sociedade começou a acordar e a perder o medo de se manifestar, algo que ganhou força com a campanha pela anistia em 1979”, opina o historiador de Universidade de Brasília (UnB) Antônio Barbosa.

“Nesse momento, lideranças políticas de oposição se esqueceram das divergências e se uniram diante de uma causa comum, a volta do voto direto”, acrescenta.

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Manifestação das Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo (SP) (crédito: Sindicato dos Metalúrgicos de SP)

Contexto político

Markun aponta quatro eventos importantes que marcaram o contexto político que levou às Diretas Já: uma abertura de liberdade de imprensa para poucos veículos de comunicação durante o governo do presidente Ernesto Geisel (1974-1979); surgimento do novo movimento sindical liderado por Lula, que foi às ruas por demandas trabalhistas; retomada de um movimento estudantil desvinculado da guerrilha; apoio de atores de novela e artistas como os cantores Fafá de Belém, Belchior e Chico Buarque nas manifestações.

Para Barbosa, a crise econômica do final dos anos 1970 também contribuiu para o descontamento da população com o regime militar.

Markun lembra que as manifestações reuniram uma frente ampla de apoiadores no palanque e pessoas de diferentes idades e classes sociais nas ruas. “Houve tentativas de bagunçar as manifestações, de impor palavras de ordem não alinhadas às principais demandas, e o governo tentou bloquear a circulação de informações nas manifestações em Brasília [DF]”, lembra o jornalista.

Houve ainda autocensura por parte das emissoras, sendo o caso mais emblemático o da Rede Globo, que noticiou a manifestação das Diretas Já de 25 de janeiro de 1984 como uma comemoração do aniversário da cidade.

“O clima era tenso porque havia dentro da ditadura pessoas que não aceitavam nenhuma abertura democrática, [e compactuava com] tentativas de terrorismos, como uma carta-bomba enviada à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, e a tentativa de colocar outra bomba, por parte de militares, em um evento do 1º de maio no Rio de Janeiro [RJ]”, acrescenta Barbosa.

Legado atual

Barbosa vê como legado do Movimento Diretas Já a participação de diferentes setores da sociedade na construção da Constituição Cidadã de 1988 e as manifestações de 2013.

“A constituição de 1988 deu força para o legislativo e foi pensada para que o país se tornasse parlamentarista, o que foi rechaçado pelo plebiscito de 1993. Porém, surgiu algo paradoxal: o regime é presidencialista, com o presidente tolhido [e] com poder legislativo”, opina

Para a criação da série “Diretas Já” (2023), Markun reuniu mais de 140 depoimentos sobre o ato. “Um desafio durante as filmagens foi que muitos dos locais que foram importantes mudaram completamente”, compartilha.

Ele próprio guarda memórias dos protestos, que cobriu como jornalista ou frequentou como manifestante. “Lembro do narrador Osmar Santos, que era a voz oficial das manifestações, e de um baile da Diretas Já em uma danceteria em que era sócio, onde todo mundo podia tirar uma foto com a faixa de presidente da República”, finaliza.

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