Todos os domingos, um grupo de camiseta rosa finca a bandeira da comunidade LGBTI+ no Largo do Arouche, em São Paulo (SP), para distribuir macarrão ao sugo aos moradores de rua. “Quentinhas do Arouche” é o nome da iniciativa, que foi idealizada por Carlos Henrique Almeida e comemorou um ano em maio de 2021. Com a pandemia e o aumento da fome e das populações de rua, projetos de cozinhas solidários têm se tornado cada vez mais comuns.

“Um dia, voltava para casa com um pacote de bolacha quando um morador de rua ficou desesperado pelo alimento. A situação me deixou mal e com vontade fazer algo a respeito”, confessa Almeida. Foi em uma conversa virtual com amigos que ele decidiu operacionalizar a ideia de preparar alimentos da sua casa para distribuição. Os colegas doaram dinheiro e mantimentos, enquanto novos voluntários, majoritariamente LGBTI+, foram se juntando ao projeto.

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A escolha do Largo do Arouche se deu pela sua importância histórica no acolhimento dessa população. “É importante contribuirmos dentro da nossa comunidade”, analisa Almeida. “Como coletivo LGBTI+, penso que conseguimos ter um olhar especial para a vulnerabilidade das moradoras de rua trans. Já houve transfobia na fila de distribuição de comida e intervimos de forma educativa”, exemplifica.

cozinhas solidárias para combater a fome na pandemia
Voluntários do Quentinhas do Arouche (crédito: divulgação)

Em outra situação, Carlos pôde conversar com um morador de rua homofóbico: “Ao final, senti que ele teve gratidão por um grupo que acreditava odiar”. Entre os aprendizados do primeiro ano do projeto, ele cita optar por alimentos industrializados e não perecíveis no preparo de alimentos, para reduzir riscos de contaminação, e não distribuir facas e potes individuais de álcool gel. “A primeira pode se transformar em arma e, o segundo, acabar sendo consumido por alcóolicos”, lamenta.

Unindo pontas

Foi a miséria ao redor que também estimulou a chef de cozinha Katia Lyra, de São Paulo, a reunir mulheres no projeto “Sopão das Manas”. “Sou autônoma e estava fazendo marmitas para sobreviver. Pensei: ‘porque não preparar semanalmente uma sopa para quem passa fome?”, conta. Em 2021, o projeto ganhou novos contornos. Passou a comprar alimentos orgânicos de uma rede de pequenas produtoras agrícolas e doar essas cestas às famílias indígenas da aldeia do Jaraguá. “Assim, estamos em duas pontas e fortalecendo causas importantes”, observa Lyra.

cozinhas solidárias combatem fome na pandemia
Pessoas recebem comida no Sopão das Manas durante a pandemia (crédito: Mayra Azzi/ divulgação)

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Para quem quer criar projetos similares, ela indica pesquisar primeiro se a região já possui iniciativa do tipo. “Distribuição de comida exige organização e logística. Assim, pode ser interessante fortalecer um projeto já em atividade”, aconselha. Vale também distribuir comida em áreas não centrais da cidade. “No começo da pandemia, as iniciativas se acumulavam no centro e havia até desperdício de comida. Foi quando os líderes de cada projeto criaram o grupo Marmiteiros Solidários, para se organizarem entre si e abrangerem mais pontos da cidade”, conta.

Prato de esperança

Além da sociedade civil, movimentos sociais também se mobilizaram contra a fome. Foi o caso do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que criou o projeto de alcance nacional Cozinhas Solidárias. Em junho, já haviam iniciativas em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Alagoas, Roraima e Pernambuco. “O objetivo é chegar em 12 estados no segundo semestre”, adianta a coordenadora da iniciativa Ana Paula Teles Ribeiro.

Além das quentinhas, há distribuição de fraldas e leite, assim como palestras sobre plantação em contexto urbano, profissionalização e solidariedade entre diferentes comunidades.
Apesar de defender o envolvimento de todos no combate à fome, Ribeiro reforça o papel central do Estado. “Cabe ao executivo um orçamento específico para combater a fome. E não basta distribuir alimento, é preciso ter políticas de geração de renda e emprego associadas”, reflete.

Cozinha solidária do MTST
Cozinha solidária do MTST (crédito: divulgação)

Após programas bem-sucedidos como Bolsa Família e Fome Zero, ela vê hoje sinais de negligência e retrocesso. “Na pandemia, ao invés de abrirem mais restaurantes populares municipais, houve fechamentos. Por sua vez, cozinhas das escolas públicas poderiam ser abertas para alimentar as comunidades escolares ou do entorno”, opina.

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