Casos de preconceito e xenofobia contra argentinos que vivem no Brasil aumentaram durante a Copa do Mundo masculina de futebol. A onda de ódio teria sido alimentada pela viralização de imagens de torcedores cometendo atos racistas durante o torneio, assim como casos recentes envolvendo turistas no Brasil.

“Esses episódios contribuíram para generalizações sobre toda a população argentina. Houve uma onda perigosa ou campanha difamatória contra os cerca de 46 milhões de argentinos que vivem na Argentina e 100 mil que têm residência fixa no Brasil”, explica o coordenador do Laboratório de Estudos do Discurso, História e Estraneidades da Universidade Federal de Sergipe (@imagineUFS), Jocenilson Ribeiro. Ele é autor do livro “Xenofobia e intolerância linguística: discursos sobre estrangeiridade e hostilidade brasileira”.

O profissional de tecnologia da informação Rodrigo*, 39 anos, vive há seis anos no Brasil e viu comentários e brincadeiras ofensivas relacionadas à sua nacionalidade se intensificarem até alcançarem a violência.

“Picharam ofensas na porta do meu apartamento, incluindo ‘argentino lixo’, e a danificaram com um martelo após um jogo. Além disso, pessoas que não conheço escreveram ofensas nas redes sociais: me chamavam de ‘argentino racista’, mandavam eu ‘voltar para o meu país’. Tudo muito assustador”, relata,

Andrea Herrera, 38 anos, é missionaria de uma igreja e vive no Brasil há três anos, onde deu à luz uma filha brasileira. Ela viveu pelo menos três situações de preconceito. Primeiro, um vídeo da sua filha optando pela camisa da seleção brasileira, em vez da argentina, recebeu comentários ofensivos. “Escreviam ‘temos aqui uma mini racista’ em um vídeo de uma criança de dois anos”, diz.

Na sua igreja, um pastor subiu no púlpito para dizer que “Deus amava a todos, incluindo os argentinos”. “Eu me retirei e me disseram que eu estava vitimizando, que era ‘brincadeira’”.

Mas a situação mais radical foram ataques e ameaças de morte que a família sofreu em um grupo de mensagens do condomínio de um programa de habitação popular para onde aguardam se mudar.

Andrea expôs os comentários nas redes sociais e foi banida do grupo. “Eram ataques diários. Realizamos boletim de ocorrência e a policia orientou que, quando mudarmos, teremos medida protetiva. Mas é ruim saber que vivermos onde pessoas nos querem mal”, lamenta.

Estereótipo ‘justificou’ violências

Segundo Ribeiro, como pano de fundo das violências estavam estereótipos sobre o povo argentino, sendo os mais comuns os de que seriam ‘racistas’ ou ‘arrogantes’.

Ele explica que o estereotipo é, geralmente, tomar a parte pelo todo. Suas principais características são a generalização exagerada – aplica-se algo a todos os membros de um grupo, ignorando as diferenças individuais – e uma ideia cristalizada que resiste a mudanças.

“É uma metonímia distorcida: o estereótipo opera pela falácia de tomar a parte, um grupo de torcedores, pelo todo, a nação argentina e um país inteiro. O cérebro, ‘preguiçoso’ e influenciado pela repetição midiática e por postagens nas redes sociais, cristaliza isso na seguinte premissa: ‘os argentinos são racistas’ ou ‘a Argentina é um país racista.”

Entre os resultados provocados pelos estereótipos vinculados ao argentino estão:

  • Apagamento da individualidade do argentino. “O indivíduo vira símbolo, advogado ou representante de um povo”, aponta Ribeiro.
  • Culpa por associação: o argentino comum não é julgado por seus atos, mas por uma suposta “essência” nacional que seria imutável e homogênea. “É o mesmo mecanismo que faz alguém dizer que ‘todo muçulmano é terrorista’”, aponta o especialista.
  • Impossibilidade de defesa. “A pessoa comum não tem como se defender de um crime que não cometeu”, lembra Ribeiro.
  • Apagamento da diversidade interna do país: “A Argentina tem uma população de cerca de 46 milhões de pessoas, com uma diversidade étnica, social e política imensa, incluindo estrangeiros, povos originários e seus descendentes (como os marrones ou a ‘identidad marrón’)”, explica Ribeiro. “A complexidade de uma sociedade é reduzida, eliminando-se a diversidade interna do grupo. Um país com milhões de habitantes, de diferentes classes sociais, origens étnicas, opiniões políticas e regiões, passa a ser julgado a partir da suposta conduta ou traços de um grupo limitado”, acrescenta a doutora em Direito, pós-doutora em Psicologia Social e coordenadora do Migraidh/Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Giuliana Redin.
  • Apagamento da história do ativismo antirracista argentino: caso do movimento de organizações afro-argentinas que lutam por visibilidade e reparação histórica, a exemplo do coletivo e movimento “Argentina no es blanca”.
  • Munição para a xenofobia (aversão ao estrangeiro): “Esse estereótipo, quando repetido e aceito socialmente, deixa de ser apenas uma ‘imagem pré-fabricada’, o que já é perigoso, e se transforma em preconceito e discriminação”, diz Ribeiro. “Penso que a xenofobia contra o argentino sempre esteve aqui no Brasil, mas o estereótipo de que todo o argentino é racista deu carta branca para as pessoas praticarem violências”, opina Herrera.
  • Apagamento do racismo brasileiro. “O protagonismo do Brasil contra o racismo no plano internacional não significa que essa é uma luta superada aqui. Reputar à Argentina o racismo diminui ou nega o racismo do plano doméstico”, analisa Redin.

O que não fazer?

Redin lista atitudes cotidianas que podem mascarar preconceitos e xenofobias, como:

  • Atribuir a qualquer cidadão argentino a responsabilidade por atos individuais cometidos por outros. “Como episódios de racismo praticados por torcedores ou declarações polêmicas de políticos”, aponta.
  • “Exigir retratação ou hostilizar um indivíduo por ações de seus compatriotas é uma forma de constrangimento cotidianamente aceita no senso comum”, orienta.
  • Muitas vezes, quando o indivíduo afetado expressa incômodo, sua reação é rotulada como “falta de humor” ou “vitimização”. “Isso transfere a responsabilidade do constrangimento para quem o sofreu”.

“Para argentino, nem água”: mídia atualizou estereótipos

Redin lembra que as origens dos estereótipos contra argentinos são coloniais.

“No final do século XIX e início do século XX, a Argentina vivenciou um período de prosperidade econômica, urbanização, sofisticação cultural e elevadas taxas de alfabetização, colocando-se à frente do Brasil em termos de indicadores econômicos e sociais. Essa assimetria histórica gerou no imaginário brasileiro a percepção de que o argentino nutria um sentimento de ‘superioridade civilizatória’ ou ‘arrogância’”, compartilha Redin.

“Ainda, a política argentina de atração ostensiva de imigrantes europeus no final do século XIX serviu para consolidar a autoimagem de um país ‘europeu’, fortalecendo a imagem do argentino como alguém que se recusa a se enxergar como parte da América Latina”.

“Assim, os episódios de torcedores racistas encontram ressonância e ‘confirmam’ no imaginário popular brasileiro a narrativa pré-construídas sobre a Argentina como um país eurocêntrico que promoveu o branqueamento e a invisibilização de suas populações negras e indígenas. Um ato individual valida um preconceito histórico generalizado”, aponta Redin.

Ribeiro aponta a atualização de tais estereótipos pelos discursos de jornalistas esportivos. Durante a Copa, viralizaram expressões também reproduzidas por comentaristas como “para argentino, nem água”.

Para Fernando Nadai, 36 anos, produtor cultural que vive no Brasil desde os 12 anos, falta conhecimento sobre a história da Argentina.

“Comparada ao Brasil, a Argentina teve menos escravidão, e essa foi abolida antes (a primeira lei de ventre livre é de 1813). Os sobreviventes espanhóis mandaram para linha de frente de todas as guerras indígenas e pessoas negras pobres”.

Para ele, esse desconhecimento gerou situações contraditórias, como brasileiros afirmando torcer para a Espanha no final da Copa do Mundo contra a Argentina, vendo tal posicionamento como uma atitude “antirracista”. “Se o critério era supostamente histórico, eles estavam defendendo colonizadores que mataram povos originários e negros”.

Além disso, até 2023, jogador negro brasileiro Vini Jr. acumulava ao menos dez casos de racismo praticados justamente pela torcida espanhola.

Após o final da Copa, os argentinos que vivem no Brasil evitam cair em generalizações de que todo brasileiro é xenófobo. “Tenho carinho pelo Brasil e sei que a minha experiência com algumas pessoas preconceituosas não representa todos os brasileiros”, aponta Rodrigo.

“Acredito que precisamos discutir a xenofobia e entender até que ponto uma rivalidade esportiva pode ultrapassar os limites e se transformar em violência e discriminação. Ninguém deveria ser atacado, humilhado ou ter sua residência vandalizada por causa de sua nacionalidade”, finaliza ele.

Argentinos que sofreram preconceito: como agir?

Segundo a Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), a discriminação baseada na origem do indivíduo configura o crime de xenofobia, uma conduta inafiançável e imprescritível no ordenamento jurídico brasileiro.

“Para que o Estado possa agir, a vítima deve procurar imediatamente os canais oficiais de segurança, como qualquer delegacia de polícia (Civil ou Federal) para o registro do boletim de ocorrência, ou acionar o Disque 100 (Disque Direitos Humanos), canal telefônico gratuito do Governo Federal que formaliza e direciona as denúncias de violações de direitos”, orienta Redin.

Caso o argentino necessite de orientação jurídica e defesa legal gratuita para acompanhar o andamento do processo ou demandar reparações, o canal institucional correto a ser acionado é a Defensoria Pública da União (DPU) ou a Defensoria Pública do Estado (DPE).

*O nome foi alterado a pedido do entrevistado

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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