Desde 2020, homens de diferentes ascendências asiáticas se reúnem em encontros online para discutir questões relacionadas a gênero e raça. Trata-se do projeto Masculinidades Amarelas (MAAM), que se deriva de outro grupo reflexivo masculino, o Memoh, este voltado a um público mais amplo e em atividade desde 2017.

“Havia questões específicas dentro do recorte amarelo e processos de opressão comuns a asiáticos que precisavam ser discutidos”, explica o produtor audiovisual e facilitador do grupo, Cauê Ueda, de 47 anos.

No MAAM, são abordados como o racismo impacta o homem amarelo e como este também pode ser agente de opressão na forma como as relações de gênero estão estruturadas. “É acolher uma dor do racismo geralmente deslegitimada, mas lembrar que esse homem amarelo também tem responsabilidades e é parte do problema”.

Os grupos do MAAM são voltados para homens cis, trans e pessoas não binárias, de diferentes orientações sexuais, que se reúnem em nove encontros quinzenais online ao longo do primeiro semestre do ano. As atividades são gratuitas – apenas os custos da plataforma usada nos encontros são compartilhados entre os membros.

Para o tradutor Gustavo Shintate, de 32 anos, haver um espaço de fala e de escuta voltado para homens amarelos é algo, por si só, transformador.

“Dos nossos tataravôs aos nossos pais, fomos educados a silêncios e omissões, ou seja, a ver a contenção emocional como única resposta social possível. Isso gera uma raiva contida que pode ser descarregada em outras violências”.

“Logo nas primeiras semanas notei que me identificava com as questões trazidas pelos outros participantes. Foi quando percebi que precisava saber mais sobre racialização amarela”, descreve o diretor de fotografia Nelson Kao.

Hugo Katsuo, Cauê Ueda e Gustavo Shintate (Foto: arquivo pessoal/Carla Arakaki/arquivo pessoal)

“Menos homem”

Os homens de origem asiática no Brasil enfrentam estereótipos e percepções sociais que contribuem para moldar sua identidade. Mestre em cinema e pesquisador da representação do corpo amarelo no audiovisual, Hugo Katsuo aponta, por exemplo, a ideia do asiático como desprovido de masculinidade (emasculação), sendo passivo, frágil e submisso quando comparado ao padrão de masculinidade branca.

“Há no cotidiano o racismo recreativo, que se dá por meio da piada do ‘asiático de pênis pequeno’, que reitera a lógica na qual o tamanho do pênis é termômetro de masculinidade”, explica Katsuo.

“A nível individual, provoca problemas de autoestima, situações vexatórias no trabalho e rejeição na vida romântica. A nível coletivo, muitos homens tentam reiterar o status de ‘homem de verdade’ negado sendo machista e LGBTfóbico”, acrescenta.

Katsuo explica a origem do estereótipo. “A partir do parâmetro da ‘masculinidade ideal’ – que é a do branco –, temos em um extremo o estereótipo dos homens amarelos como desprovidos de masculinidade e, no outro, negros sendo atravessados pelo estereótipo do pênis agigantado e de uma masculinidade que excede. Assim, enquanto asiáticos são colocados no lugar da submissão e passividade, negros são vistos como violentos e perigosos. Ambos são desumanizados”.

“Como efeito, não somos vistos como um parceiro possível na vida romântica’”, exemplifica Kao.

Eterno estrangeiro

Nas redes sociais, comentários como “pastel de flango” e “japa” são comuns ao se referirem ao homem amarelo, ainda que sua ascendência não seja japonesa. Kao explica que é comum o homem de traço asiático seja visto como alguém de fora e não incluído na identidade nacional.

“Basicamente, é o racismo recreativo, que se manifesta disfarçado de piadas”.

Nascido em Taiwan e vindo ao Brasil aos três anos, ele sofreu racismo desde pequeno. “Tiravam muito sarro de mim. Lembro que ficava feliz de aprender português e, em casa, ensinava meus pais. Mas o racismo era tão intenso que logo entendi que precisava ficar calado para não sofrer bullying. A única coisa que queria era passar despercebido, e me tornar invisível para ser aceito”, compartilha.

Outra consequência é a sensação constante de não pertencimento. “Aqui não sou visto como brasileiro e, em Taiwan, tampouco sou tido como alguém de lá: não falo o idioma local e tenho hábitos latinos considerados grosseiros.”

Minoria modelo

O mito da “minoria modelo” é um estereótipo racial que coloca indivíduos amarelos como sendo trabalhadores e esforçados.

“É usado pela branquitude quando convém, ou seja, para afirmar a população de ascendência asiática como quem ascendeu por ‘esforço’ em contraposição a outras populações socialmente racializadas, como negros e a indígenas’”, explica Katsuo.

“É usado por muitas empresas para demonstrar diversidade. O asiático é visto como esforçado, e os problemas são direcionados para ele resolver. Profissionalmente, podemos chegar à gerência, mas dificilmente à presidência, geralmente reservada a brancos’”, analisa Kao.

Katsuo explica que o mito da minoria modelo reforça ainda mais o vínculo da submissão na masculinidade do homem asiático. Além disso, também atinge pessoas LGBTQIAPN+, conforme explica Shintate. “O modelo de homem asiático passa a ser aquele que trabalha muito e não traz problemas para a casa. Isso é complicado para pessoas LGBTQIAPN+ na hora de se assumirem, momento de geralmente quebrar normas e enfrentar a família.”

Hugo Katsuo explica que a ideia de “minoria modelo” dialoga com outro mito:  o do perigo amarelo, segundo o qual asiáticos “corrompem” e “ameaçam” a civilização ocidental.

“Quando amarelos começam a ocupar massivamente espaços até então exclusivamente brancos, isso se torna um problema. Não à toa existe a famosa frase: ‘Mate um japonês para entrar na Universidade de São Paulo (USP)’”, descreve.

“A percepção é ambivalente: se, por um lado, é possível enaltecer o grupo por ser uma minoria modelo, por outro, é justamente essa característica que o torna perigoso”, adiciona Katsuo.

Desafios do presente

Os entrevistados notam uma recente mudança na percepção social do homem amarelo após a popularização das bandas de K-pop e dos filmes de K-drama.

“Se antes podíamos perceber certa rejeição no âmbito romântico e sexual, há hoje dinâmicas de desejo. Porém, isso não se deu pela subversão do estereótipo da emasculação, ao contrário, o imaginário permanece. O que demarca um corpo de homem amarelo desejável no K-pop é o corpo jovem, magro, sem pelos, de pele clara – corpo, muitas vezes, infantilizado e emasculado. Tais masculinidades não correspondem à realidade”, reforça Katsuo.

Kao vê como desafio atual a legitimação de que o asiático sofre racismo. “A resposta costuma ser: ‘Quem sofre é apenas o negro’. Mas, se não falarmos das nossas dores, quem falará por nós?”

Nos grupos do MAAM, Ueda conta que há o desafio de alcançar mais homens das comunidades chinesa, coreana, taiwanesa, entre outros. Atualmente, a maioria dos participantes é de ascendência japonesa.

“Da mesma forma que não tratamos a heterossexualidade como padrão nos encontros, estes não são nipocentrados. Também lembramos que, dentro da comunidade asiática, pessoas japonesas podem ser opressoras contra as de outras ascendências”, finaliza Ueda.

*Homens de ascendência asiáticas interessados em participar do MAAM pode entrar em contato via redes sociais

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