O machismo é um sistema de crenças e práticas sociais que coloca os homens em posição de superioridade em relação às mulheres. Ele não se manifesta apenas em ações, mas também por meio da linguagem cotidiana.
São expressões que geralmente carregam visões de mundo que desqualificam a opinião das mulheres (“ela é mal-amada”), as culpabilizam por violências sofridas (“não se deu ao respeito”), controlam ou julgam a sexualidade feminina (“mulher rodada”) ou colocam o homem como referência de superioridade e boas práticas (“jogou como homem”).
“O problema não é o uso da palavra em si, da expressão, da frase, mas os efeitos de sentido que esses usos produzem e as práticas sociais que essas produções estimulam”, comenta a doutora em linguística Jorcemara Cardoso.
“Basta imaginar uma sociedade que, historicamente, ao falar da mulher, adjetiva todo esse segmento social majoritariamente como sensível, frágil, delicado, sem capacidade de liderança, autonomia… Ou, quando fala que é forte, associa essa força ao trabalho doméstico e à procriação. Ou, ainda, associa o próprio nome desse segmento social, mulher, a uma forma de desumanizar ou rebaixar o outro, como em ‘chorou como mulherzinha’”, explica.
“O impacto dessas produções linguageiras e práticas que objetificam e desumanizam as mulheres é devastador”, conclui.
Homem como referência universal
Professora do curso de Serviço Social e da pós-graduação em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA), Márcia Tavares lembra que a língua tem capacidade de difundir e reproduzir o que seria próprio para homens e mulheres. “Assim, é preciso ter cuidado com o vocabulário para não reproduzir esses estereótipos, o que faz com que tenhamos que nos enquadrar em determinados padrões.”
Professora do curso de História e coordenadora do Núcleo de Educação para as Relações de Gênero e Sexualidade da Universidade Estadual do Paraná (Unespar-campus Paranavaí), Isabela Campoi lembra que a língua portuguesa também adota o masculino como referência. Um exemplo é o relacionado ao plural: em uma sala em que houver 99 professoras e um professor, o grupo será chamado no masculino (“professores”).
“Historicamente, criou-se a ideia de um ‘homem universal’ — entendido como masculino, branco, heterossexual e burguês. Isso estabeleceu o gênero masculino como medida da humanidade ao longo do tempo, relegando as mulheres a uma segunda ordem. Assim, as línguas, em geral, adotam o masculino como padrão; e, sendo a língua um reflexo da cultura, seu uso acaba reproduzindo inevitavelmente esse machismo”, reflete.
A seguir, listamos 13 expressões machistas a serem revistas – e abolidas – do vocabulário cotidiano!
Você pode conferir ainda mais opções no “Dicionário de frases e expressões machistas”, produzido pela Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Piracicaba (SP), e no “Guia prático: expressões preconceituosas para eliminar do seu vocabulário”, da Associação Mulheres Pela Paz.
“Coisa de mulherzinha”: associa o feminino à fragilidade ou inferioridade. “A expressão reforça estereótipos de gênero, associando ao homem características como agressividade e destemor, vistas como positivas; e, à mulher, traços como timidez e medo. Assim, quando um homem demonstra insegurança, ele é cobrado ou acusado de agir “como uma mulher, o que evidencia como a linguagem sustenta essas oposições”, descreve Tavares.
“Mulher no volante, perigo constante: “Em geral, atividades exercidas por mulheres fora da esfera doméstica são consideradas inadequadas. Dirigir promove abertura para o espaço público, para fora da dimensão doméstica, por isso, é entendido como ‘coisa de homem’”, pontua Campoi
“Ela é histérica/louca”: as emoções são usadas para desqualificar a opinião de uma mulher. “Porém, é como se os homens também não agissem dessa forma”, explica Campoi. Tavares lembra que o uso dessas expressões remete ao final do século XIX. “Naquele período, mulheres que se recusavam a adotar comportamento dócil, submisso ou de negação de seus desejos, que era socialmente esperado, eram internadas sob o diagnóstico de histeria”, explica. “Ainda hoje, o fato de a mulher reagir diante de determinadas situações, ou de não aceitar ser intimidada, é imediatamente associado à ‘loucura’”, complementa.
“Ela é mal-amada”: reduz comportamentos e opiniões de mulheres à suposta falta de um homem. É machista porque reforça a ideia de que a mulher só se realiza afetivamente em relação a alguém, anulando sua autonomia.
“Se sabe cozinhar, já pode casar”: limita o papel feminino ao casamento e ao serviço doméstico. Além disso, naturaliza a divisão desigual do trabalho e coloca o valor da mulher na capacidade de servir.
“Mulher tem que se dar ao respeito”: condiciona o respeito a um determinado comportamento por parte da mulher, como se ele precisasse ser “merecido”. Respeito não depende de aparência ou conduta: é um direito comum a todas as pessoas. Além disso, transfere para a vítima a responsabilidade por possíveis violências.
“Mulher fácil” / “mulher rodada”: julga e controla a sexualidade feminina com critérios morais que raramente são aplicados aos homens. É machista porque impõe padrões diferentes de conduta sexual para cada gênero.
“Mulher para casar”: classifica mulheres segundo padrões de comportamento e utilidade doméstica. Além disso, trata as mulheres como se fossem produtos a serem avaliados.
“Jogar/Trabalhar que nem homem”: associa habilidade, força ou competência ao masculino. É machista porque pressupõe que o padrão de excelência é masculino, invisibilizando capacidades femininas.
“Por trás de um grande homem há uma grande mulher”: coloca a mulher em posição secundária, de apoio invisível. Reconhece sua importância apenas subordinada ao protagonismo masculino.
“Lugar de mulher é na cozinha”: reduz a mulher ao trabalho doméstico e exclui sua presença em outros espaços sociais e profissionais.
“Deve estar de TPM”: usada para deslegitimar a opinião de uma mulher, ainda que características como nervosismo ou falta de paciência sejam observadas em pessoas de todos os gêneros. Tavares explica que o princípio é o mesmo aplicado à antiga justificativa da histeria. “No imaginário social, ainda permanece a ideia da mulher frágil e dócil. Quando um comportamento oposto a isso acontece, como na hora de reivindicar direitos, a saída é taxá-la.”
“Isso é coisa de homem”: reforça a ideia de que certas habilidades, profissões ou comportamentos pertencem apenas aos homens.
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