As tirinhas do Recruta Zero foram criadas em 1950 pelo cartunista norte-americano Mort Walker e foram as primeiras a serem publicadas internacionalmente. No Brasil, a tradução do título prejudicou o entendimento do contexto histórico em que o personagem estava inserido. Isso porque ele teve duas fases: uma como universitário e outra, posterior, como recruta. “O nome original é Beetle Bailey, algo como João Baratinha. Este era um rapaz universitário espertalhão, em um momento de abundância após a Segunda Guerra Mundial, com muitos jovens dos Estados Unidos ingressando nas universidades”, explica o professor de História na Universidade Anhembi Morumbi Iberê Moreno Rosário e Barros.

Com o início da Guerra da Coreia (1950-1953), o personagem se alistou nas forças armadas. O conflito teve a União da República Socialista Soviética (URSS) apoiando indiretamente a Coreia do Norte e o envolvimento direto dos Estados Unidos com a Coreia do Sul. “Foi nesse segundo momento que a tirinha chegou ao Brasil, o que influenciou na sua tradução”, aponta Barros.

A Guerra da Coreia, que foi o primeiro conflito da Guerra Fria, faz com que as tirinhas tenham potencial pedagógico nas aulas de história e geografia. “Essa guerra mudou a política externa dos Estados Unidos e culminou na valorização do militarismo para fazer frente ao socialismo”, explica o docente. Em uma entrevista para o The Comics Journal (2009), Walker relatou a pressão de um editor para o alistamento do personagem: “(Ele disse) Você precisa alistá-lo. Eles estão recrutando caras como o Beetle. Eu disse okay”.

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Em sua monografia “Beetle Bailey, Kennan e Nitze: Os reflexos da política externa americana nos quadrinhos” (2012), Barros narra o processo de transição do personagem, relacionando-o com fatos históricos do período. “Nas aulas de geografia, o Recruta Zero pode ajudar a ilustrar a geopolítica desse momento. Já nas de língua portuguesa, contribui para a alfabetização no gênero quadrinhos ”, acrescenta.

Machismo em pauta

Recruta Zero se passa no Quartel Swampy e tem como antagonista o Sargento Tainha, superior militar do personagem. O embate entre ambos e as tentativas de Zero de fugir da labuta satirizam o modo como o exército operava. Motivo que fez as tirinhas serem banidas da Stars and Stripes, revista oficial das Forças Armadas norte-americanas. “Após o fim da Guerra da Coreia, novas histórias do personagem continuaram a circular durante a Guerra do Vietnã e durante a corrida espacial”, destaca Barros.

No campo da sociologia, as relações travadas podem pautar discussões sobre comportamentos sociais e estereótipos. “Um ponto fraco é que a tirinha reflete o machismo do período, retratando a secretária do quartel, Dona Tetê (Miss Buxley), como uma mulher bonita e burra. Um comportamento que não condiz com os dias de hoje, mas cujo conteúdo também pode ser utilizado em discussões com os estudantes”, destaca Barros.

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