Músicas podem ser uma ferramenta importante no ensino de história, como explica o professor da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “História & Música”, Marcos Napolitano.

“A canção, em termos pedagógicos, pode ser uma experiência estética; provocar reflexões e debates sobre um determinado tema e ser uma fonte histórica. Assim, seu uso em sala de aula deve ir além de apenas ‘ilustrar’ um tema”, destaca.

Ele explica que a canção pode ser entendida como uma fonte histórica primária, ou seja, que foi criada ou produzida durante o tempo em que os eventos narrados ocorreram.

“Mas a canção possui especificidades que exigem atenção. Por combinar linguagem musical e escrita (poética), ela necessita de uma abordagem que respeite estas características”, acrescenta.

Napolitano e a professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora do livro “Canção Popular Brasileira e Ensino de História – Palavras, sons e tantos sentidos”,  Miriam Hermeto, listam sete orientações para o uso pedagógico de canções no ensino da disciplina.

1) Investigar e apresentar a origem e autores da canção

Napolitano indica buscar informações básicas sobre a canção, como autores (compositores e letristas), intérpretes, ano da primeira gravação e qual a importância da canção escolhida dentro da história da música popular.

Hermeto traz como exemplo “Disparada”, vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1966. Ela foi escrita por Geraldo Vandré e Théo de Barros e interpretada por Jair Rodrigues, acompanhado do Trio Maraiá e do Trio Novo. Em vez de somente mencionar quem compôs, apresentar quem eram eles”, indica.

2) Olhar a relação entre letra e melodia

“É importante combinar a análise da letra com a dos aspectos sonoros específicos da linguagem musical básica, como gênero da canção, timbres instrumentais presentes no arranjo e efeitos vocais”, defende Napolitano.

“O que nunca se deve fazer é utilizar apenas a letra de uma canção, sem propiciar uma experiência de escuta musical compartilhada entre os alunos”, adverte o professor.

No caso do exemplo de “Disparada”, Hermeto sugere explicar que se trata de uma moda de viola, timbre regional usado naquele momento para compor uma ideia de nacionalidade em antagonismo ao que era internacional.

“Em estudo de Marcos Napolitano sobre os festivais da canção, priorizavam-se os timbres nacionais aos estrangeiros, como guitarras”, explica.

“O objetivo é ajudar os estudantes a lerem essas categorias, não apenas as nomeando, mas entendendo historicamente o que significava essa moda de viola nos anos 60”, exemplifica Hermeto.

3) Pensar a canção dentro do contexto de seu tempo

“A sonoridade como um todo, além da letra, nos informa coisas sobre a época. Assim, não adianta utilizar qualquer regravação de outro tempo, a análise será prejudicada”, orienta Napolitano.

“Por exemplo, se o professor quer discutir o Estado Novo a partir da canção “Aquarela do Brasil” ele deve utilizar a gravação de Francisco Alves, de 1939”, sugere.

No caso de regravações, Napolitano recomenda investigar seu significado atual.

“Às vezes, em uma mesma época histórica, duas gravações diferentes da mesma canção revelam significados ideológicos e culturais diferenciados, demonstrando projetos diferentes na sociedade”, afirma Napolitano.

“É compreender cada uma dessas fontes como produções do seu tempo que circularam em outros tempos e que nos permitem compreender, portanto, experiências humanas em diferentes temporalidades”, acrescenta Hermeto.

4) Analisar a canção por várias dimensões

Miriam Hermeto propõe investigar a canção escolhida a partir de cinco dimensões: a material, que é o suporte no qual ela foi produzida e o tipo de linguagem; descritiva, que diz respeito ao tema e ao objeto; explicativa, que é abordar o tema em uma narrativa; dialógica, que são as referências com as quais o texto dialoga; e sensível, que são os sentimentos mobilizados ao escutá-la.

“Não é preciso nomear essas dimensões com os alunos, apenas ter clareza e ajudá-los a aprenderem a ler esse documento a partir delas”, completa.

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               Jair Rodrigues cantando “Disparada” (crédito: Arquivo / Estadão Conteúdo)

5) Investigar o formato no qual a canção foi gravada

Um exemplo de análise da dimensão material proposta por Hermeto é, em “Disparada”, o fato de a canção ter sido originalmente gravada em vídeo para o Festival de Música Popular Brasileira televisionado pela então Rede Record, hoje Record TV.

“Apesar de estar em diferentes mídias digitais hoje, ela foi produzida em vídeo de câmera de rolo, ao vivo, em rede nacional, circulando quando a TV era bem menos acessível do que é hoje, mas já um veículo de comunicação de massa”, ilustra Hermeto.

“A música precisa ser pensada a partir do vídeo. Jair Rodrigues começa circunspecto, pouco encarando a plateia e cantando com seriedade. Porém, no momento em que o sujeito da letra se descobre com consciência, o intérprete se transforma em outro: vira para fora, puxa o povo para cantar”, exemplifica.

6) Investigar as imagens com as quais a canção se relaciona

Segundo Hermeto, a dimensão dialógica tem a ver com as referências cruzadas que a música tem. “Ou seja, com o que ela dialoga e que estava presente naquele seu tempo, no momento da produção”, esclarece.

No caso de “Disparada”, a historiadora explica que há a ideia de um “homem novo”. “Ele ganha consciência de uma luta necessária e passa a seguir por aí cantando para poder convencer as pessoas e trazer a consciência para elas. Além disso, a ideia de um povo manipulado e que precisa ganhar consciência também está presente”, exemplifica.

Outro exemplo é a canção “Soy Louco Por Ti, América”, de Gilberto Gil e José Carlos Capinan, gravada por Caetano Veloso, e que faz alusão a Che Guevara.

“A letra, em espanhol, fala que ‘o nome do homem morto já não pode ser dito’. Se não se compreende essa referência a Che Guevara, não se compreende a canção”, completa.

7) Descrever e explicar

Segundo Hermeto, as dimensões descritiva e explicativa, respectivamente, apresentam o tema e o objetivo da canção para depois contextualizá-los. No exemplo de “Disparada”, a historiadora lembra que os compositores eram ligados a uma cultura política comunista, que viam na música uma forma de transformação social e, no concurso televisionado, um meio de mobilizar as pessoas.

“A música trata de um cantador que tinha sido boi, boiadeiro e se tornou cavaleiro. É a perspectiva de um sujeito que saiu da condição de ser manipulado e que compreendeu que era necessário ter uma vida autônoma e para ajudar os outros a também serem assim”, conta.

Outro elemento explicativo mencionado por Hermeto é a música ser interpretada por Jair Rodrigues, artista de sucesso e do casting da Record TV na época. Ele era tido como alegre, o que motivou um pedido dos compositores para ele fazer uma “interpretação séria”.

“Vale destacar que as dimensões descritiva e explicativa, muitas vezes, precisam de outros documentos da literatura para serem construídas”, finaliza Hermeto.

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Crédito da imagem: Arquivo – Estadão Conteúdo

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