Usar os relatos dos sobreviventes do Holocausto em primeira pessoa é um recurso pedagógico potente no ensino sobre a Segunda Guerra Mundial.

“Eles ajudam os alunos a conhecerem melhor o Holocausto para além dos livros de história. Por meio deles, vemos as nuances do dia a dia de quem foi perseguido pelos nazistas, assim como os traumas individuais e coletivos provocados”, afirma a diretora educacional do Memorial às Vítimas do Holocausto – Rio de Janeiro, Sofia Débora Levy.

O Holocausto foi o genocídio sistemático pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial, de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, dissidentes políticos, pessoas com deficiência e outros grupos étnicos e sociais.

Aproximadamente 6 milhões de judeus foram assassinados durante o Holocausto. Quando somadas as demais vítimas, há um número aproximado entre 11 milhões e 17 milhões de mortos.

Segundo Levy, o uso pedagógico dos relatos pessoais aproxima, de maneira empática, as novas gerações deste momento trágico da história mundial.

“Até o Holocausto, nunca havia se pensado na sociedade moderna um genocídio daquela amplitude legitimado como política de estado”, lembra Levy. Com o fim da Segunda Guerra, o Holocausto motivou a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Os relatos pessoais de sobreviventes do Holocausto podem ser encontrados em vídeos, podcasts e também serem colhidos de forma presencial, convidando os últimos sobreviventes vivos para conversarem com os alunos na escola.

“Somos a última geração que terá contato com sobreviventes presencialmente. Quem escuta um testemunho de quem passou por aquilo se torna uma testemunha também, ajudando na missão de contar e lembrar para que algo similar nunca mais aconteça”, defende a coordenadora educacional do Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto – São Paulo, Ilana Rabinovici Iglicky.

“No caso dos relatos presenciais, a maioria dos sobreviventes vivos eram crianças ou adolescentes no momento da ascensão do nazismo (1933-1945). Eles tinham exatamente a mesma faixa etária dos alunos e isso ajuda a aproximá-los do entendimento do que foi o Holocausto”, assinala Levy.

Entre os benefícios, o uso pedagógico dos relatos ajuda a educar crianças e jovens sobre direitos humanos, a prevenir negacionismo e revisionismo histórico.

“O primeiro [negacionismo] defende que o Holocausto não existiu e o segundo [revisionismo histórico], que pode ter acontecido algo, mas não na dimensão relatada pelas vítimas”, diferencia.

“Os relatos ajudam a dar o entendimento da importância de preservar as democracias e não dar margem para preconceito”, enfatiza.

“Relembrar para que não aconteça de novo com nenhum povo ou grupo. Um compromisso futuro da memória na luta contra discurso de ódio, pela tolerância e empatia com o próximo”, reforça Iglicky.

Como usar os depoimentos?

Os relatos são fontes primárias de conhecimento e, assim, fidedignas. Porém, Levy lembra que eles devem vir acompanhados de contextualizações e dados da história formal, como datas, locais, processos instituídos pela política nazista, entre outros.

Como sugestão de atividades, após a exibição dos relatos ou da conversa presencial com um sobrevivente, pode-se fazer uma roda de discussões com os alunos ou pedir alguma intervenção artística, como teatro, maquetes e cartazes.

“Se o relato for associado a filmes, é importante lembrar que mesmo produções baseadas em fatos reais possuem recortes e são fictícias. Caso contrário, corremos o risco não intencional de também estimular o revisionismo histórico”, alerta Levy.

Como opções de filmes associados aos relatos, ela indica o documentário “Arquitetura da Destruição” e a biografia de Anne Frank.

Os relatos também podem ajudar os alunos a pensarem sobre outras violações de direitos humanos que acontecem atualmente contra outros grupos.

“Podemos ver estratégias similares aplicadas em contextos diferentes. Contudo, o professor deve tomar cuidado para manter as diferenças de contexto social e histórico, e do pano de fundo geopolítico de cada caso. Focar não apenas nas similitudes, mas nas diferenças”, acrescenta Levy.

Em experiências com o uso de relatos, Iglicky narra a surpresa dos alunos. “Ninguém poderia imaginar naquele momento, nem mesmo a comunidade judaica, que as restrições e os guetos caminhariam para os campos de concentração e assassinatos em massa”, conta.

“Eles perguntam o motivo de tanto ódio, como foi sobreviver em condições desumanas, como foi ficar sozinho após perder a família e como continuar depois do trauma”, revela.

Onde encontrar os relatos?

O site do Memorial do Holocausto de São Paulo disponibiliza quatro depoimentos em vídeo.

O projeto Vozes do Holocausto, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, da Universidade de São Paulo (LEER/USP), registrou 90 testemunhos e produziu dez vídeos de depoimentos de sobreviventes da perseguição nazista aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns dos vídeos estão compilados no canal do Youtube Arqshoah .

Os testemunhos também foram reunidos em coleção de dez volumes de livros paradidáticos intitulada “Vozes do Holocausto – Histórias de vida: Refugiados do nazifascismo e sobreviventes da Shoah” (Brasil – 1933/2017), publicado pelas pesquisadoras Maria Luiza Tucci Carneiro e Rachel Mizrah. Já Levy é autora de dois livros que compila relatos de sobreviventes que imigraram ao Brasil: “Sobre Viver 1” e “Sobre Viver 2” (Editora Letra Capital).

Veja mais:

90 anos de Anne Frank: “Diário” aborda temas contemporâneos e atrai adolescentes

8 livros para entender a Segunda Guerra Mundial

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