História pública se refere à atuação dos historiadores e do método histórico fora da universidade, como em arquivos, bibliotecas, escolas, empresas, museus, memoriais, exposições, na internet, na produção de filmes e fotografias.

Uma forma de utilizá-la em sala de aula é trazer os relatos produzidos pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) sobre os crimes ocorridos na ditadura militar do país (1964-1984).  A CNV foi um colegiado instituído pelo governo federal para investigar violações de direitos humanos ocorridas no período. Após sua finalização, a iniciativa disponibilizou, na internet, os depoimentos de pessoas que foram vítimas de violência em órgãos do estado e de agentes de repressão.

“Ela é fundamental para se colocar em jogo memórias divergentes, contribuindo para que um público possa conhecer, reconhecer e se posicionar diante do passado”, explica a professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Marta Gouveia de Oliveira Rovai.

“Os relatos são essenciais para que os alunos compreendam o processo de usos do passado e de disputas por memórias a partir de interesses políticos e sociais de diferentes sujeitos no presente”, acrescenta. Atualmente, o Brasil vive manifestações públicas de negação dos crimes ocorridos na ditadura.

Testemunhos

Além dos relatos das vítimas, Rovai sugere o uso, com a classe, dos depoimentos dos torturadores, como o agente do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), Marco Pollo Giordani; o coronel Carlos Alberto Ustra; o coronel do Centro de Informações do Exército (CIE), Paulo Malhães; e o delegado Cláudio Guerra.

“Ouvir a versão dos torturadores e seus mandantes não significa afirmar que seus discursos sejam mais verdadeiros e mais passíveis de credibilidade do que os de quem sofreu, nem acatar seu ponto de vista. Significa compreender de que lugar eles falam e com que intenções, da mesma forma que se deve fazer com as vítimas, sem igualá-los”, orienta.

Nos arquivos, podem ser encontrados desde depoimentos que negam qualquer tipo de violência, que assumem a tortura como “necessária para combater inimigos” até aqueles que demonstram arrependimento e colaboram para o esclarecimento de crimes cometidos pelo Estado.

“Ao debater os testemunhos, o professor deve ser cuidadoso para não igualar nem justificar violências de qualquer tipo, mas contribuir para que os alunos compreendam as memórias a partir da luta política do presente, reconhecendo os sujeitos em seus lugares, no passado e na atualidade, além dos diferentes poderes exercidos no período da ditadura”, recomenda a pesquisadora.

Vale também lembrar que o Brasil é signatário de documento que considera a tortura como crime contra a humanidade, que não é passível de anistia e prescrição.

“Quando os perpetradores decidem falar e admitir o que fizeram, permitem confirmar as revelações daqueles que sobreviveram, colaborando para superar dúvidas e descréditos que pesam sobre as vítimas, para nomear responsáveis e para construir uma consciência histórica pela qual a sociedade possa encarar o passado traumático e violento”, assinala.

De acordo com Rovai, pode-se questionar, com os estudantes, temas como a gravidade da tortura; a violência física e emocional das ditaduras e a importância de conhecer o que se passou.

“As aulas podem contribuir para que os discentes compreendam que, mesmo pertencendo a gerações que não viveram o período, a história os atinge como responsáveis pelo compartilhamento de memórias traumáticas, como defensores da verdade, da reparação, da justiça”, enfatiza.

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Crédito da imagem: Deposição do Governo João Goulart – Golpe de 1964/Arquivo Nacional

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