Estudantes com deficiência múltipla (DM) são aqueles com mais de uma deficiência, sejam estas intelectuais ou físicas. “Além das limitações, a DM pode levar à saúde frágil e obstáculos na comunicação. Isso resulta em menor autonomia, dificuldade de interação pela fala e necessidade de suportes para aprender”, resume a vice-coordenadora do grupo de pesquisa “Observatório de educação especial e inclusão educacional” (OBEE), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Maíra Gomes de Souza da Rocha.

A matrícula do estudante com deficiência múltipla pode ser realizada em escola regular ou especial. “Deve-se garantir que haja os recursos necessários à sua escolarização no espaço escolhido”, destaca. Contudo, a pesquisadora defende que mesmo casos severos devem ser incluídos nas classes regulares. “A convivência com estudantes que não apresentam deficiências estimula o desenvolvimento”, acredita. Em sua tese de doutorado, Rocha verificou que alunos DM em classes especiais perdiam os benefícios dessa interação e nem sempre recebiam o ensino especializado que essa modalidade deveria ofertar.

Resistência generalizada

Para a pesquisadora, a escola pública regular conta hoje com mais profissionais preparados para atender essa população do que no passado. De forma que os pais relatam melhores experiências nesta rede do que nas escolas particulares. “Porém, o sucateamento das escolas públicas é o que prejudica todos os alunos, com ou sem deficiência. No caso específico daqueles com DM, são necessários recursos humanos, materiais e suportes adaptados, como transporte, mobiliário e afins”, lista.

A auxiliar de classe na rede estadual de São Paulo (SP), Gisele Roberta Coelho relata levar jogos e artefatos eletrônicos de casa para trabalhar com essa população na escola. “O estado não disponibiliza materiais como folha sulfite ou impressora para adaptações”, revela. Para ela, o preconceito dos demais profissionais da escola é um segundo desafio “Após o laudo de DM, muitos não se importam em ofertar uma educação de qualidade e deixam esse aluno de lado”, lamenta.

A professora de sala de recursos multifuncionais (SRM) das redes estadual e municipal em Areia Branca (SE), Edilma Silva Santos lembra, por exemplo, quando a própria escola dispensava o aluno DM em atividades de socialização com a comunidade, como eventos do Dia da Bandeira. “Houve uma situação em que insisti para levar um desses estudantes em uma visita a um museu de tecnologia e, ao final, foi justamente ele o que mais aproveitou. Isso abriu um precedente importante”, reflete.
Os pais dos colegas também costumam resistir à presença do aluno com DM em salas regulares. “Quando há um grau severo e comportamento agressivo e hiperativo, os colegas de turma ficam com medo de se aproximar e os pais passam a pressionar pela retirada do aluno”, relata Santos.

Planejar e articular

Assim como todo estudante com deficiência em escola pública regular, aquele com DM deve contar com a professora da turma, uma auxiliar de classe – geralmente conquistada via processo judicial – e acompanhamento na sala de recursos multifuncionais durante o contraturno. Nesse espaço, são trabalhadas especificidades pedagógicas necessárias para que o aluno aprenda. “Ou seja, estratégias que desenvolvem aspectos importantes à aprendizagem, como comunicação, autonomia, memória, concentração, linguagem e raciocínio”, explica Rocha.

Isso exige planejamento e articulação entre as três educadoras, iniciados já nas reuniões pedagógicas do início do ano. Santos, por exemplo, reserva as sextas-feiras para visitar professores e ir às residências dos alunos com DM na rede estadual em que atua. “Os professores de classe já conseguem adaptar as atividades. Assim, meu foco é desarmar dificuldades que atrapalhem a aprendizagem de algum conteúdo específico”, acrescenta.

Os avanços são registrados em relatório mensal de cada aluno, obrigatório na rede sergipana. “A evolução é sutil e passa despercebida quando não registrada. Ao comparar relatórios, porém, percebe-se que o aluno não é o mesmo do início do ano”, garante. Gestão, demais professores, funcionários e parcerias multidisciplinares também podem ser envolvidos no processo, caso de psicólogos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos.

Em sua experiência como auxiliar, Coelho vivenciou maior dificuldade com professores especialistas do ensino fundamental II. “O planejamento também deve focar a sensibilização de familiares e colegas de turma para mitigar preconceitos. Os pais estão acostumados a ouvir que seus filhos com DM são incapazes, logo desconhecem suas potencialidades e a importância deles não viverem em uma bolha”, completa.

Comunicação alternativa

Um currículo acessível é necessário ao aluno com deficiência múltipla. “Não significa facilitar ou empobrecer conteúdos, mas adaptá-los às especificidades do desenvolvimento daquele aprendiz. Isso inclui avaliações”, pontua Rocha.

Doutora em educação e professora Itinerante de Educação Especial em Nova Iguaçu (RJ), Carla de Paiva explica que a culpa de uma dificuldade de aprendizagem não deve ser imputada no aluno com deficiências sevaras, mas em um sistema educacional que não garante suportes. “Quando há estratégias adequadas, vemos as potencialidades deles”, enfatiza.

Ela lembra, por exemplo, a importância de trabalhar a sensorialidade e comunicação com suportes alternativos ao adaptar estratégias. “Por meio de vídeo, música, slides e outros instrumentos do audiovisual, alunos não-oralizados conseguem avançar na aprendizagem e estruturar conceitos. O mesmo vale para a comunicação alternativa, como apontar com a cabeça ou o olhar ao responder perguntas”, compartilha.

Segundo ela, o professor não precisa elaborar estratégias de aprendizagem muito diferentes das previstas para a turma regular. “Construa propostas dentro do mesmo assunto, mas que ele consiga realizar. Apoie-se em artefatos de comunicação alternativa ou tecnologias”, recomenda.

Quando reprovar?

A decisão de reprovar o estudante com deficiência múltipla deve ser tomada com critérios. “A leitura, por exemplo, não pode ser fator de reprovação”, opina Santos. Ela relembra o caso de um aluno com paralisia cerebral e intelectual que aprendeu a ler no oitavo ano. “O contato com os colegas ao longo dos anos o ajudou a desenvolver outras habilidades, como ir ao mercado sozinho e lidar com o troco. Se retido, nos primeiros anos do fundamental, isso seria impossível”, opina.

Assim, dependendo da severidade, conteúdos complexos não serão trabalhados. “O ganho é justamente que ele conquiste autonomia, ainda que aos poucos”, pondera Santos. Para Paiva, um erro comum é comparar essa população com seus colegas sem deficiência. “A comparação é com eles mesmos, buscando avanços dentro de suas capacidades”, conclui.

Veja mais:

Ebook gratuito traz casos reais de alunos com deficiência em escolas públicas regulares

Educação inclusiva: série de vídeos discute recursos e possibilidades pedagógicas

Curso EAD gratuito explica aspectos da inclusão escolar para educadores

Acolhimento de alunos com deficiência deve ser pensado caso a caso, avalia especialista

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