Uanne Freire Bezerra é professora de biologia da Escola de Referência em Ensino Médio Aura Sampaio Parente Muniz, na cidade de Salgueiro (PE). Um dos seus objetivos na docência sempre foi mostrar aos alunos a íntima relação entre a teoria que eles aprendiam em sala de aula e a prática. “Desejava apresentar como a ciência pode ser utilizada para resolver problemas cotidianos, da comunidade. Assim, começamos a descobrir temas a serem trabalhados na iniciação científica a partir de um desafio lançado: como ajudar a combater e prevenir as doenças que mais afetavam o estado”, lembra.

A dengue, doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, era uma realidade na região. Assim como a presença de um produto bastante popular: a castanha de caju. Foi quando uma aluna resolveu aliar os dois e testar se o líquido extraído da casca da castanha (LCC) possuía efeito contra a larva dos mosquitos.

“Procuramos na internet e não encontramos nenhuma pesquisa sobre o assunto. Contudo, alguns familiares dos alunos já haviam se queimado com o LLC, então surgiu um problema: era necessário diluí-lo até um ponto que ele não agredisse a pele de quem o manuseasse”, conta.

Professora e alunos procuraram a ajuda de um bioquímico da cidade, que sugeriu a diluição do produto em álcool. Mas para provar que era justamente o LCC o responsável por matar as larvas do mosquito, e não o álcool, o grupo também resolveu testar a substância diluída em água. “Aplicamos em baldes com a larva e o produto funcionou”, assinala a docente.

Botânica na prática

Já em sala de aula, a turma passou a estudar, na prática, diversos conceitos de biologia, como a reprodução de plantas e a replicação dos vírus. Contudo, quanto mais as pesquisas avançavam, mais a educadora sentia a necessidade de envolver outras áreas de conhecimento no processo.

“Os alunos passaram a trazer perguntas que não eram respondidas pela disciplina. Assim, foi necessário recorrer ao conhecimento da comunidade – na figura do bioquímico que nos ajudou – e de professores de outras matérias, como geografia”, descreve.

Para a aluna Isadora Alves, de 16 anos, o mais interessante do projeto foi justamente o processo de pesquisa constante. “Precisamos entender sobre o mosquito, depois sobre o líquido, e tudo isso nos incentivava a querer saber mais, a ir mais fundo”, revela.

Por meio da iniciação científica, alunos descobriram uma forma de usar a biologia para melhorar a qualidade de vida da comunidade

 

Também foi necessário implantar uma cultura de iniciação científica na escola. Para isso, Bezerra orientou os estudantes a participarem de um curso online gratuito, de 30 horas, sobre metodologia científica no site da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace). Ao final, o projeto foi inscrito e acabou vencendo a etapa nacional da 5ª edição do prêmio Respostas Para o Amanhã, voltado para atividades desenvolvidas no ensino médio de escolas públicas.

“Vencer o prêmio trouxe muito ânimo para a escola. Hoje vejo alunos do terceiro ano, que se sentiam perdidos sobre como identificar temas para estudar na iniciação científica, auxiliando os alunos que chegam no primeiro”, conta. “Além disso, vejo como benéfica essa experiência de ter contato com a ciência antes da faculdade, ainda que de uma forma mais simples”, acrescenta.

Para o estudante Igor Carvalho, os aprendizados científicos extrapolaram a aula de biologia. “Mudou a perspectiva sobre como pesquisar. Levaremos isso para a vida”, garante.

Veja mais:
Escola pública pode desenvolver inovações científicas?
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“Estudar mulheres que realizaram expedições científicas aproxima alunas da ciência”, diz pesquisadora

Crédito das imagens: Uanne Freire Bezerra/arquivo pessoal

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