Projeto “Política na Escola” reúne universitários da UnB e estudantes da Escola Classe 03, Núcleo Bandeirante (Crédito: acervo pessoal)

Durante um exercício que pedia aos estudantes da EMEF 19 de Novembro, em São Paulo (SP), criarem frases com quatro palavras, a professora de língua portuguesa Juliana Regina Marques se assustou com o impacto da polarização política vivida no Brasil refletido nas sentenças. A partir de frases como “todo vermelho é marginal”, “Dilma tem que morrer” e “todo petista é burro”, escrita pelos estudantes, ela decidiu discutir sobre ódio e generalizações.

“Para os 9° anos, eu organizei textos que falavam sobre discurso de ódio e porque é preciso ser crítico. Eles escreveram uma redação sobre a importância da busca por informação real e da contextualização”, relata. “Já para os 6°anos, preparei uma aula baseada no livro “Quem manda aqui? – Um livro de política para crianças”, que é infantil e aborda de um jeito lúdico as esferas de poder”, descreve.

Veja também:
Livro apresenta e discute política com crianças de forma lúdica

Quem também viu a crise política bater na porta da sala de aula, trazida pelos próprios estudantes, foi o professor de história André Avancini, da Escola Estadual Cândido de Moura, de Itapira (SP). “Antes do afastamento da presidenta, era comum os alunos chegarem reproduzindo ofensas. Nesses momentos, foi importante trabalhar como funciona o sistema político, esclarecendo questões básicas como as funções dos três poderes e as diferenciações entre governos estaduais e federal”, destaca.
“Outra situação que tem se tornado comum são os posicionamentos conservadores exacerbados. Esses momentos são oportunidades para se discutir fascismo, homofobia, xenofobia, machismo, feminismo, pena de morte, estatuto do desarmamento, racismo, preconceito, entre outros”, lista o professor.
“Escola sem Partido”
Iniciativas como as de André e Juliana podem estar com os dias contados se depender do movimento “Escola Sem Partido” – que visa proibir uma suposta “ideologização de esquerda” em sala de aula e que defende a “neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado”, segundo o movimento. Projetos de lei com essa temática já estão em pauta no Congresso Nacional (PL 867/2015), no estado de Alagoas e nas cidades do Rio de Janeiro e Campo Grande.
Os professores criticam. “Um bom professor sabe expor política sem defender X ou Y. O papel dele tem que ser contribuir para que os alunos se tornem críticos, aprendam a interpretar textos, inclusive os jornalísticos, e busquem conhecer os dois lados de uma história, antes de decidir de qual lado ficar. Com uma lei que proibisse esse tipo de conversa em sala de aula, voltaríamos a um ensino conteudista, não-crítico, mecânico e que forma pessoas para a repetição de padrões”, justifica Juliana.
Política aplicada
Criador do projeto de extensão “Política na Escola”, da Universidade de Brasília (UnB), o professor Terrie Groth identificou duas questões centrais em suas pesquisas no Brasil: a percepção de que a política só ocorre no âmbito eleitoral e a imagem negativa da prática, vinculada à corrupção. Seu projeto, então, buscou trazer à realidade infantil os conceitos relativos ao exercício da cidadania, para estimular a percepção de que a participação política ocorre em outros canais que não o eleitoral.
“A vida em comunidade exige, a todo o momento, tomada de decisões em que são necessários acordos entre os atores sociais. Isso está presente no convívio familiar e na vida escolar, bem como no âmbito governamental”, lembra o professor. Na “Política na Escola”, 30 alunos do Instituto de Ciências Políticas, da UnB, desenvolvem durante um ano, em uma escola da região de Brasília (DF), atividades lúdicas que trabalham os conceitos de política, participação, representação, comunidade e democracia. O público-alvo são as crianças do 4º e do 5º ano do ensino fundamental.
Para Groth, é impossível “descolar” a política da realidade de qualquer adulto ou criança. “Estudo da década de 60 já mostrava que crianças com cinco anos têm imagens e percepções da política, como bandeira, partido de seus pais e etc. É um processo de socialização que ocorre desde cedo”, explica.
O professor Avancini concorda. “A escola não é uma instituição alienada da sociedade – ela existe dentro da sociedade. Vejo a política como um conhecimento importante para o relacionamento dos seres humanos e suas tomadas de decisão”, reforça.

Veja mais:
– Programa NET Educação – Grêmio estudantil e a formação dos jovens
– “Escola do século 21 deve ensinar os alunos a serem críticos”, diz especialista

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