História e literatura se misturam na obra do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (3/3/40 – 13/4/2015), o que faz de sua produção um bom conteúdo didático para professores das duas disciplinas. Sua obra mais conhecida, “As Veias Abertas da América Latina” (1971), analisa a trajetória da região, do período colonial até o século 20. No campo pessoal, o golpe militar no Uruguai (1973) levou o autor a se exilar na Argentina e, após os militares tomarem o poder nesse país também, a ir para a Espanha.

“Mesmo não sendo exatamente um historiador, ele mobilizava o conhecimento histórico e a experiência coletiva do passado para produzir sentidos”, descreve o mestre e professor de história na rede municipal do Rio de Janeiro (RJ), André Francisco Berenger de Araújo.

As características de sua obra incluem atenção aos paradoxos e contradições na relação entre passado e presente. “Em ‘O livro dos abraços’, ele diz: ‘escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América’”, exemplifica.

Galeano também buscava em personagens comuns, do dia a dia, pistas para reconstruir a história. “Ao contrário do historiador, que parte da perspectiva mais macro para traçar a relação entre contexto e fato histórico, ele fazia diferente. Para cada temática, encontrava um sujeito e investigava sua vida”, analisa a doutora em estudo de linguagem e professora do Instituto Federal de Educação, Ciências e Tecnologias de Rondônia (IFRO), Heloisa Helena Ribeiro de Miranda.

“Essa pessoa, que seria esquecida, reaparece historicamente a partir da literatura”, acrescenta ela.

Passado explicando o presente

Em “As veias abertas da América Latina”, Galeano interpreta o continente a partir da sua exploração iniciada na colonização. “Ele tenta compreender a região como um problema histórico, e a transformar isso em um projeto de mudança”, resume Araújo.

O escritor apresentava as relações sociais, econômicas e culturais encontradas em suas pesquisas históricas de forma literária. “Ele disse, em entrevista, que queria transformar essas ideias ‘numa história de aventuras, num romance, numa história de pirataria, de amor, de traição, de tudo’”, lembra o professor.

Além da colonização da América Latina, é possível abordar outros temas nas aulas de história a partir de sua obra, como cultura indígena, escravidão e ditaduras na América do Sul. A primeira temática está presente no livro “Memória do Fogo: Nascimentos”, que narra a origem da humanidade, segundo os indígenas maias-quichés. Na mesma obra, um texto relata a primeira expedição contra o quilombo dos Palmares.

Já com relação às ditaduras, Miranda recomenda o conto “Pássaros Proibidos”, sobre os filhos dos presos políticos no Uruguai. Em “Memória do fogo: o século do vento’, ele também analisa a censura contra as músicas de Chico Buarque, no Brasil.

Araújo recomenda o uso dos textos como uma conversa inicial para o conteúdo que será abordado pelo professor com as turmas de educação básica. “Os alunos podem analisar o material e apontar os sujeitos sociais em cena, o desenvolvimento da situação histórica relatada, o conflito social, as relações entre o passado e o presente e suas contradições”, orienta.

Narrador e discursos

No campo da literatura, Galeano pode ser usado para estudar diferentes gêneros, principalmente romances, crônicas e contos. “Os textos narrativos ajudam a trabalhar discurso direto, narrador, tempo cronológico e psicológico”, elenca Miranda.

Já quando usa discurso indireto, uma característica do autor é inserir a fala de pessoas reais, retiradas de entrevistas. “É o próprio agente histórico trazido para dentro do texto“, informa ela, que recomenda o uso do livro “Os Filhos do Dia”. No conto “15 de junho”, Galeano relembra Silvina Parodi, militante grávida, assassinada pela ditadura argentina. “No tribunal, há o relato de sua melhor amiga, Cecília, que o escritor incorpora à narrativa”, conta.

A obra ajuda a exemplificar o que é o gênero narrativo durante as aulas de língua portuguesa no ensino fundamental II. Já no ensino médio, pode ser utilizada para aprofundar análise e interpretação de texto. “Principalmente, a relação entre forma – como construiu o texto – com o conteúdo, ou seja, temas que ele aborda”, pontua a professora.

Mas antes de trabalhar os textos, ela recomenda apresentar a biografia do autor aos estudantes. “Ajuda a criar uma imagem, uma conexão, desperta a curiosidade e eles tendem a se envolver mais com a atividade”, ensina.

Veja mais:
Plano de aula – Colonização Espanhola
Música “Índios”, da Legião Urbana, sensibiliza alunos sobre colonização das Américas
Opinião – O que sabemos sobre a cultura latino-americana?
Obra de Henfil ajuda a entender ditadura militar e geografia do Nordeste

Crédito da imagem: Wikimedia Commons

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