Getúlio Vargas foi um político importante para o Brasil, do governo provisório de 1930 até sua morte em 1954. Nesse mesmo período, as marchinhas de carnaval, com suas melodias simples e letras ambíguas, eram um sucesso absoluto, sendo que algumas delas retratavam justamente a situação sociopolítica do país.

Em sua pesquisa, a biblioteconomista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Cleonice Della Pasqua, analisou quatro marchinhas que usaram Getúlio como protagonista e que podem ser encontradas no YouTube: “Comendo Bola” (1929), “Gê, Gê” (1931), “A menina presidência” (1936) e “Bota o retrato do velho” (1951). Segundo a autora, o professor de história pode utilizá-las para explicar as três fases da Era Vargas: Governo Provisório (1930-34), Governo Constitucional (1934-37) e Estado Novo (1937-1945).

“Por meio do lúdico, o que torna o estudo prazeroso, podemos formar uma ideia das características do presidente e da sua forma de governar. Dentre elas a centralização do poder, a política trabalhista, a ênfase na propaganda política, a tentativa de ser um líder carismático, mas também o fascismo, a ditadura e o populismo”, lista.

Ascensão do líder

A primeira marchinha que pode ser apresentada aos estudantes é “Comendo Bola”, lançada em dezembro de 1929 e interpretada por Jaime Redondo. “A música representa a imagem de um Brasil verdadeiro, de Júlio Prestes, contra um desqualificado, de Vargas”, resume Pasqua.

Para isso, faz referência à brasilidade como uma forma de sensibilizar o eleitorado a votar em Júlio Prestes, argumentando que ele é um autêntico brasileiro – “É um caboclo brasileiro / Brasileiro como quê”.

“Ao fazer isso, o compositor apela para a identidade do povo brasileiro, mexendo com o seu orgulho e a própria compreensão que possui sobre si mesmo”, analisa.

Ainda sobre o impacto da ascensão de Vargas, em 1931, Lamartine Babo compôs “Ge Gê”, apelido carinhoso usado pelos partidários do político. Era interpretada por Henrique Foréis Domingues, o Almirante.

“A marchinha se refere à Revolução de 1930, que começou com problemas nas eleições. Em maio, Vargas lançou um manifesto denunciando as fraudes eleitorais. A data da revolta foi marcada para 3 de outubro, que iniciou como programado, com Vargas incitando os gaúchos a marcharem para o Rio de Janeiro”, destaca a pesquisadora.

A música, em formato de jingle, descreve a determinação do povo em fazer a revolução, pela ânsia de mudanças em suas vidas. “A letra exalta o país citando suas cores simbólicas, o verde e o amarelo e também enaltece a figura do candidato à presidência.”

Estado Novo

Na sequência, em 1936, Sílvio Caldas grava a marchinha “A menina presidência” – uma paródia da canção de roda chamada “Teresinha de Jesus”, de autoria desconhecida e já em domínio público.

“Durante o chamado ‘governo provisório’ getulista, fala-se na possibilidade de eleições para a escolha do sucessor de Getúlio na presidência, com dois fortes candidatos: o então governador de São Paulo Armando Salles de Oliveira (o seu Manduca), este com a candidatura já lançada, e o ministro Osvaldo Aranha (o seu Vavá), que na verdade nem sequer chegou a se candidatar”, contextualiza Pasqua.

As eleições não aconteceram. Em 10 de novembro de 1937, Getúlio implanta no país o Estado Novo, com maior centralização do poder, ficando na presidência até sua deposição, em 1945.

“Referido como ‘seu Gegê’, ele desejava essa vitória como a uma mulher”, explica a autora.

Durante seu governo no Estado Novo, Getúlio Vargas determinou que as repartições públicas tivessem o retrato do presidente da República pendurado na parede. “Porém, quando foi deposto em 1945, suas fotos foram, mais do que depressa, retiradas. Cinco anos mais tarde, os retratos voltaram com sua reeleição”, assinala Pasqua.

Pois esse é o tema de “Bota o retrato do velho” (1951), composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto, na interpretação de Francisco Alves.

“Além de inúmeros objetos de campanha que pregavam a volta de Getúlio, com o slogan ‘Ele voltará’, a marchinha ‘Retrato do Velho’, na voz de Francisco Alves, foi sucesso absoluto no carnaval de 1951. A marcha só não foi apreciada pelo próprio presidente, que detestava ser considerado velho”, garante a pesquisadora.

Uso em sala de aula

Para a professora de história, Júlia Bittencourt, as marchinhas podem ser usadas em sala de aula por serem uma fonte histórica diferenciada. “Garantem uma proposta pedagógica atraente, ao aproximar o estudo da realidade dos alunos, uma vez que muitos já tiveram contato com esse gênero musical”, argumenta.

Segundo ela, as músicas podem ser apresentadas aos estudantes logo após o docente explicar o conteúdo sobre a Era Vargas. “Os alunos podem analisar as letras baseados no que já aprenderam e fazerem seus próprios achados. É como se eles assumissem o papel de historiador”, orienta.

A importância do rádio no período e as censuras do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) instaurado no Estado Novo também podem ser destacados. “Além disso, os estudantes podem avaliar o que aconteceu antes e depois do lançamento de cada marchinha”, complementa a professora.

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Crédito da imagem: Arquivo Nacional

1 Comentário
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Luciana Rodrigues
Luciana Rodrigues
2 anos atrás

Muito legal a pesquisa!!!!
Só queria fazer uma ressalva no texto da reportagem que a profissão da pesquisadora é bibliotecária.

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