O Brasil é um país violento com a população LGBTI+, como aponta o monitoramento anual realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB). Em 2018, foram registradas 420 mortes por homicídio ou suicídio decorrentes da discriminação. Os números se somam aos do Disque 100, do governo federal, que apontou 26.938 violações contra essa população entre 2011 e 2018, incluindo agressões físicas e verbais.

A escola, contudo, pode ajudar a transformar essa realidade. “O preconceito contra a pessoa LGBTI+ é trazido e reproduzido pelos alunos e funcionários. Se não conseguir educar contra isso, a escola acaba rejeitando o estudante que faz parte desse grupo, que tende a abandonar os estudos”, explica o mestre em ensinos e processos formativos e professor de língua portuguesa da rede municipal de Cardoso (SP), José Francisco Bertolo.

“Discutir a homofobia assegura a toda criança o direito à educação em um ambiente seguro, independentemente de sua sexualidade. Ainda evita que alunos levem estereótipos para a vida adulta”, justifica.

Para abordar o assunto com estudantes do ensino fundamental II, Bertolo indica aos professores de língua portuguesa uma sequência didática com filmes, debates e produção de crônicas sobre preconceitos de sexualidade e gênero. O primeiro passo é dialogar com a classe visando mapear os conhecimentos prévios, e até preconceitos, do grupo.

“O cinema tem a capacidade de aproximá-los de outras realidades e mobilizar sentimentos, como a empatia”, afirma ele.

São sugeridas cinco produções: a estadunidense “X-Men” (2000); a argentina “XXY” (2007); os curtas-metragens espanhol “Vestido Nuevo” (2007) e o brasileiro “Eu Não Quero Voltar Sozinho” (2010); e o filme australiano “Priscilla, a Rainha do Deserto” (1994).

“Todas são de linguagem acessível e trazem mensagens sobre pluralidade e aceitação do diferente”, destaca o professor.

Curta brasileiro “Eu Não Quero Voltar Sozinho” narra a história de um adolescente cego que se apaixona por um colega de classe (crédito: divulgação)

Narrativas para refletir

O filme “X-Men” aborda um grupo de humanos com poderes sobrenaturais em luta para serem aceitos pela sociedade. “São dilemas parecidos com os que surgem durante a descoberta da sexualidade e do gênero”, explica Bertolo.

“XXY” traz o adolescente intersexual Alex. “A produção se mostrou adequada para abordar que a construção do ‘ser homem’ e ‘ser mulher’ é mais social do que biológica.”

“Vestido Nuevo” retrata um garoto que usa roupa feminina no carnaval de uma escola conservadora. “Pretendia discutir se a roupa define os gêneros. Por se passar em uma escola, a classe pode refletir sobre as relações nesse espaço e formas de lidar com o preconceito”, conta.

O curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” narra a história de um adolescente com deficiência visual que se apaixona pelo colega de classe. “Promove empatia e ajuda a discutir sobre de onde vem o desejo afetivo e sexual, e se este pode ser racionalmente controlado sem sofrimento.”

Já “Priscilla” acompanha as aventuras de duas drag queens e uma transexual pelo deserto australiano, onde vivenciam situações de preconceito e aceitação. “Os alunos podem refletir sobre o que essa população enfrenta e a importância do respeito”, afirma Bertolo.

Após cada filme, recomenda-se uma roda de conversa para a turma expressar abertamente suas percepções. Na sequência, eles são convidados a escrever uma crônica.

“É um gênero híbrido que permite narrar a realidade e mesclá-la com a subjetividade e a fantasia. Também é de produção rápida e ajuda a captar as percepções dos jovens”, diz.

Antes da prática, o professor ainda indica apresentar aos jovens exemplos de crônicas, como “Um caso de burro”, de Machado de Assis, e “A última crônica”, de Fernando Sabino.

Diálogo contra preconceitos

Os textos dos alunos ajudam a avaliar se a sequência didática foi efetiva. “Ou seja, se mudou a forma como eles pensavam sobre diversidade sexual e de gênero”, informa.

Se manifestações de preconceito surgirem por parte dos estudantes ou de seus pais, Bertolo recomenda o diálogo franco sobre o assunto.

“Ressalte o poder transformador da educação para os casos conhecidos de violência contra a população LGBTI+. Lembre que o preconceito é gerado pelo medo e pela ignorância e que muitos pais deveriam abordar esse assunto com os filhos. Que eles podem realizar um bom trabalho, mas que nem todos os responsáveis são assim”, orienta.

Essa sequência didática também pode ser aplicada a distância, desde que todos os alunos tenham acesso à internet e aos filmes escolhidos.

“Nesse caso, as discussões sobre os filmes podem ser feitas por meio de fóruns ou videoconferência, e os textos encaminhados por e-mail”, complementa.

Veja mais:
Cinema e Educação – Eu não quero voltar sozinho
Como alunos e alunas transgêneros se sentem na escola?
Documentário ouve experiências de adolescentes LGBTs em sala de aula
Infográfico esclarece sigla LGBT e termos ligados à orientação sexual
Para estimular respeito entre alunos, escola realiza ações contra homofobia

Crédito da imagem: reprodução curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”.

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