Não há referência direta à educação nos seminários e livros do psiquiatra francês Jacques Lacan (1901-1981), que resgatou e atualizou estudos do criador da psicanálise, Sigmund Freud. Porém, sua obra contribui para pensar a relação do aluno com o saber, assim como a interferência das suas inibições na aprendizagem.

Exemplos são a forma como Lacan pensou a linguagem, o prazer e, principalmente, sua interpretação para o conceito freudiano de transferência.“Essa aborda a relação entre analista-analisado, mas pode ser transposta para a de professor-aluno”, explica a psicanalista do Laço Analítico Escola de Psicanálise e professora do curso de pedagogia do UNIS-Varginha (MG) Fátima Monerat.“A transferência diz sobre como o inconsciente influencia no estabelecimento de laços sociais. É o espaço que se cria entre professor e aluno e que permite que a aprendizagem aconteça”, observa.

O que é a transferência?

Fátima Monerat: Lacan atualiza esse conceito freudiano sobre a influência do inconsciente no estabelecimento de laços sociais. O que tem no meu inconsciente que faz eu me relacionar de uma determinada forma com as pessoas? A transferência é o espaço que se cria entre o analista e o analisando, podendo ser transposta para a relação professor-aluno. Espaço necessário para que a aprendizagem aconteça. Freud dizia: o que se aprende na transferência, não se esquece.

Este espaço é construído?

Monerat: Sim, de forma intencional pelo professor. Não é casual ou espontâneo. Mas estamos disponíveis para ouvir alunos e querer construir esse espaço? Penso que não, que há uma maior preocupação com conteúdos do que com as relações nas escolas.

O que mais ocorre no processo de transferência?

Monerat: O paciente transfere para o analista a forma como ele se relaciona com o mundo, que pode ser amorosa ou odiosa. Esta segunda é importante: afinal, precisa se manifestar para ser trabalhada. Com limites, claro, para evitar violência. O mesmo vale entre professor-aluno.

Leia também: Pedagogia profunda: descubra a contribuição de Jung para a educação

Por que é importante o professor saber disso?

Monerat: Porque o funcionamento intelectual não é dissociado do afeto. O que me afeta, impacta em como eu aprendo. O aluno tem maior desejo de aprender com o professor que gosta, quando se sente bem-vindo na escola. O inverso também ocorre: intelecto impacta afeto. Sentir-me incapaz de cumprir o esperado, “burro”, traz sofrimento psíquico, afeta a “baixa estima”. Isso pode inibir e paralisar o aluno na aprendizagem.

Como demonstrar afeto para que a relação se estabeleça?

Monerat: Não é afeto no sentido piegas. Ter regras pode ser amoroso e “deixar o barco solto” não, por exemplo. É a diferença entre ser rigoroso e rígido. Como professor, tenho comprometimento com o processo de aprendizagem. Mas sou flexível para ouvir os alunos e, com isso, criar laços e espaço para a transferência.

Quando a manifestação da transferência é raivosa, como o professor pode agir?

Monerat: A raiva é natural e o professor, sempre em formação, pode dar conta dessa dificuldade. Pergunto: tenho interesse em ouvir e dialogar não apenas quando alunos e pais são gratos, mas quando mal educados, quando a transferência se manifesta de forma odiosa? Como manejo e acolho isso? No conflito, a raiva é a resposta previsível. Como não sucumbo a ela e ofereço o imprevisível? Para isso, uso a linguagem, tomo a palavra.

O laço entre professor e aluno, se quebrado, pode ser retomado?

Monerat: Sim. Pode haver desencontro por parte de ambos na relação. A reconstrução é possível pela conversa, ou seja, linguagem.

O que é a linguagem para Lacan?

Monerat: Para a psicologia, linguagem era uma função. Para Lacan, um campo que diferencia o humano dos animais. Posso perguntar ao aluno ou seu responsável: “Por que você está com raiva de mim?”. Vale ainda entender que em todas as relações, incluindo a estudante-professor, haverá demanda. Eu não poderei atender todas, mas posso ouvir esse aluno, acolher e explicar minhas limitações. O psicanalista Luciano Elia diz: “a transferência é remédio eficaz para a aprendizagem”. Remédio vem de “re-mediar” ou seja, fazer uma nova mediação.

Como o prazer pode ser pensado na docência pelo viés lacaniano?

Monerat: Lacan resgatou o livro “Além do Princípio de Prazer”, de Freud. O psicanalista Luciano Elias diz sobre o tema: “depois da noite de festa, vamos ao prazer do dia de trabalho”. Ou seja, consigo encontrar o mesmo prazer da festa trabalhando dez horas, acordando cedo, lidando com os problemas e desafios do ambiente escolar? Ter prazer exige buscá-lo e suportar o desprazer. A importância disso para o professor é grande porque há inúmeros problemas na escola pública e, ao mesmo tempo, essa instituição é valiosa para as crianças vulneráveis que atende.

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