Os primeiros anos do ensino fundamental I representam uma mudança importante na vida emocional infantil.Entre seis e oito anos, há um processo de separação de coisas de apego familiar. Se, na pré-escola, os brinquedos trazidos de casa tinham importância, agora, são acontecimentos, jogos e viagens que encantam e ocupam o mundo da criança”, ilustra o professor do Departamento de Psicologia Clínica, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro-filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Walter José Martins Migliorini.

Segundo ele, alguns conceitos da psicanálise podem ajudar o professor a entender melhor fenômenos que podem acontecer com as crianças durante esse período, como casos de furto, mentira ou expressão da sexualidade.

O que é o desenvolvimento emocional?

Walter José Martins Migliorini: É um termo utilizado para descrever o processo em que ganhamos independência, capacidade de amar, criar e de humanizar os impulsos eróticos e agressivos em consonância com a própria idade. Também se refere a um aspecto fundamental da vida humana: momentos de separação.

Alguns desses são comuns a todos nós, como o desmame, o ingresso na vida escolar e o chamado complexo de Édipo (conceito de Sigmund Freud sobre o momento em que a criança já tem condições emocionais de renunciar à fantasia de ter os pais como objeto exclusivo de amor e de dirigir o seu interesse para o mundo). Já outras separações são experiências pessoais, como lutos, hospitalizações, mudanças de cidade e nascimento de irmãos e catástrofes.

Como se configura o desenvolvimento emocional dos alunos dos primeiros anos do ensino fundamental?

Migliorini: Entre seis e oito anos, há um processo de separação dos objetos de apego familiar. Se na pré-escola, os brinquedos trazidos de casa, paninhos e primeiros objetos do bebê (chamados de “transicionais”) tinham uma importância para a vida emocional, agora os itens da cultura como conceitos, acontecimentos, jogos e viagens encantam e ocupam o mundo da criança.

O que o professor ganha ao saber das contribuições da psicanálise sobre esse período da infância?

Migliorini: O professor não tem que dar conta das questões emocionais dos alunos. Mas esse conhecimento o ajuda a reconhecer algumas manifestações da sexualidade infantil, sem rotular e punir a criança, por exemplo. Isso pode facilitar o desenvolvimento emocional do estudante.

Também ajuda a conversar com os pais e a realizar encaminhamentos para psicólogos de modo mais assertivo, já que é o profissional que passa a maior parte do tempo com a criança. Em sala de aula, duas situações costumam ser recorrentes: o professor não entender ou não saber o que fazer diante da manifestação da sexualidade infantil, ou em casos de roubo e mentira.

O que o roubo e a mentira representam para a criança?

Migliorini: Isso pode ser a comunicação de uma separação que foi vivida como intolerável por ela. Por exemplo, durante a Segunda Guerra, a migração das crianças londrinas para lares provisórios provocou uma reação em massa nelas e nos jovens que passaram a mentir, furtar, destruir objetos e fugir.

Pela primeira vez, psicanalistas como Donald Woods Winnicott se deram contam da relação entre tais condutas e a separação traumática provocada por esta situação. Tais comportamentos são relativamente comuns e superáveis no cotidiano familiar. Entretanto, alguns podem perseverar. Claro que nem todos os casos de furto ou mentira são oriundos de afastamentos difíceis como estes, mas a compreensão de que a criança pode estar comunicando, esperançosamente, um sofrimento ao furtar pode ser uma das contribuições mais importantes da psicanálise para a educação.

E no caso do aluno que é pego se masturbando ou se exibindo?

Migliorini: As manifestações de vida sexual não são muito aparentes no período de latência [fase de desenvolvimento da sexualidade, que acontece dos 6 aos 11 anos aproximadamente]. Nesse caso, a masturbação excessiva pode representar a busca de um alívio imediato, mas ineficaz, para uma angústia intolerável para alguém que ainda não encontrou recursos pessoais para elaborá-la. Uma criança que incomoda sexualmente os colegas pode estar expressando desde uma descoberta tardia do corpo a uma erotização precoce ou até uma situação de violência sexual familiar.

Infelizmente, a psicanálise não tem uma resposta padronizada ou genérica para tais expressões da sexualidade infantil. Ela investiga o que é singular. Assim, o conhecimento psicanalítico pode servir como uma bússola e nunca como uma explicação universal.

Como o professor deve agir nessas situações?

Migliorini: Não rotular, diagnosticar, falar que é pecado, dizer que tem algo errado com a criança ou culpar os pais. No caso de alunos com algum tipo de comprometimento cognitivo, é necessário ajudá-los a discriminarem o momento e o local mais adequado para se masturbar, de modo que eles possam se apropriar da noção de intimidade física e afetiva.

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Atualizada em 27/07/2021, às 16h58

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