O folclore brasileiro pode ser utilizado no ensino de zoologia, conteúdo do 2º ano do ensino médio, mas que também se faz presente no ensino fundamental ao se trabalhar biodiversidade, ecologia e evolução.

“Como folclore, entende-se não somente lendas, mitos e contos folclóricos, mas outras manifestações tradicionais, como artesanatos, provérbios, cantigas e festejos populares. Em tudo isso, os animais são personagens de destaque”, destaca o professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) Elidiomar Ribeiro da Silva.

Relacionar zoologia e folclore brasileiro também estimula uma aprendizagem significativa. “Como tais saberes são geralmente transmitidos pela oralidade e relacionados à infância, resgatam boas sensações nos alunos quando aparecem em aula”, pontua.

A associação faz parte da Zoologia Cultural, que é o estudo da presença simbólica dos animais nas mais distintas manifestações da cultura humana.

A seguir, confira as indicações de como relacionar algumas lendas e contos do folclore brasileiro com assuntos da zoologia.

Lobisomem

Tema folclórico presente em diversas regiões do país, o lobisomem tem como animal inspirador o lobo.

O doutorando em Biologia Animal na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Oséias Martins Magalhães sugere partir da lenda para perguntar aos alunos quais as características dos mamíferos.

“Questione-os sobre quais elementos que aproximam o lobo dos seres humanos. Eles responderão pelos, dentes caninos, entre outros”.

Silva sugere apontar a ligação do ser humano com o lobo. “A distribuição original do animal no hemisfério norte coincide com a humana, o que causou choques e pode ter inspirado seu papel de vilão em históricas clássicas, como o lobo mau”, revela.

Vale ainda problematizar se existe lobo no Brasil. “Nesse ponto, pode-se trabalhar as noções de biogeografia e as respectivas áreas de distribuição natural das espécies”, sugere.

“Temos uma fauna legal de canídeos, a família do cão e do lobo, como lobo-guará, cachorro-do-mato-vinagre, cachorros-do-mato, raposas-do-campo.  Muitas dessas espécies em grande perigo de extinção, devido principalmente à destruição das áreas naturais. E aí podemos trabalhar a importância da preservação da biodiversidade e dos recursos naturais”, afirma.

Por fim, pode-se abordar também da origem do cachorro no país, que data de até mil anos antes da chegada dos portugueses.

Uiara

Ao abordar a lenda da sereia, pode-se destacar a diferença entre peixes e mamíferos. “Peixe não existe como grupo zoológico. Nos vertebrados, é dividido em três principais: ágnatos (agnatha), os ósseos (osteíctes) e os cartilaginosos (condrictes)”, explica Magalhães. “Assim, questione os alunos sobre características morfológicas da sereia, em qual grupo desses ela se enquadraria: será que aquela cauda lembra raia e turbarão, que são cartilaginosos, ou lembra mais uma sardinha e salmão? E as suas escamas?”, propõe.

Silva recomenda associar a lenda aos sirênios, grupo mamífero cujo nome é derivado das sereias. “Esses grandes mamíferos aquáticos são os peixes-boi, com duas espécies aqui no Brasil, uma marinha e a outra de água doce. Ambas em risco sério de extinção”.

Boto

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é um cetáceo, mesmo grupo de baleias e golfinhos.

Para Magalhaes, aqui vale também diferenciar com os alunos mamíferos de peixes, a partir das características morfológicas de ambos. “Os alunos pensam que o boto é um peixe, quando é um mamífero”.

Aves

Urutau

Também conhecida como “mãe da lua” ou “ave fantasma”. Variações afirmam que seria uma mulher que perdeu seu amor, outras que seu som carrega presságio e mal agouro.

“Questione suas características a partir dela. Que ave o urutau seria? Uma ave de rapina, um passarinho etc.”, diz Magalhães.

Saci Pererê e a Matinta Perera

As lendas tem seus nomes ligados a Tapera naevia, ave da família dos cucos. Ela é conhecida como saci no Sul do país e matinta-perera no Norte. “Pode-se trabalhar o conceito de taxonomia e nomenclatura zoológica, e o motivo de ser importante uma nomenclatura científica única e universal, como são os nomes científicos. Aí a gente sempre fica sabendo se estamos falando do bicho certo”, indica Silva.

Coruja

Ave noturna popularmente relacionada a mau agouro. “Pode-se trabalhar seu papel na natureza como predadora de pragas e a possibilidade dela sofrer perseguição e ser morta por causa da crendice popular”, explica Silva.

Bem-te-vi

Há um relato do catolicismo popular que diz que o bem-te-vi cantava para “dedurar” o posicionamento de Maria e José, que fugiam com o menino Jesus dos soldados do rei Herodes. “Na escola, dá para se trabalhar a noção de biogeografia e distribuição natural das espécies. Como pode um bicho brasileiro participar de uma narrativa que ocorreu muito longe daqui, lá pela Faixa de Gaza, norte da África, etc.?”, afirma Silva.

Insetos

Magalhães  e Luiz Gustavo Vargas usaram conteúdos dos livros didáticos de biologia sobre insetos para relacioná-los  com lendas e histórias brasileiras. O material pode ser visto no artigo  “O potencial didático do folclore como ferramenta no ensino de zoologia na educação básica: uma proposta estimuladora” (2016).

Na lenda “O Crucifixo de São Francisco Xavier”, é possível comparar as classes  do Filo Arthropoda. Na lenda “Inseto Beijador”, pode-se tratar a alimentação dos insetos. Já o desenvolvimento dos insetos pode ser associado à lenda “O Milagre de São Bernardo”.

Formigas

Negrinho do Pastoreio conta a triste história de uma criança abandonada para morrer em um formigueiro.

“Provavelmente trata-se das formigas-lava-pés, que são onívoras, muito agressivas e com ferroada dolorosa. Dá para se trabalhar a questão da ferroada, pois alguns insetos podem ter importância médica, como as próprias formigas, além de alguns besouros e lagartas”, diz Silva.

Joaninhas

Dentro do catolicismo popular, estão vinculadas à Nossa Senhora. “Como esses insetos são predadores de pragas das culturas, pode-se explicar o conceito de controle biológico”, explica Silva.

Vagalumes

No catolicismo popular, é dito que foi o próprio menino Jesus que deu a eles o brilho da luz. “Na verdade, o pisca-pisca dos vagalumes é a forma de comunicação entre os parceiros para o acasalamento”, lembra Silva.

Ao falar desse inseto, pode-se abordar sua extinção. “Devido à destruição das áreas naturais e às luzes da cidade, que mascaram o brilho dos vagalumes e atrapalham o acasalamento. Assim, o professor pode falar sobre a necessidade de conservação ambiental”, finaliza Silva.

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