O acompanhamento individualizado é importante para o desenvolvimento integral dos estudantes. Porém, esbarra na falta de tempo dentro da carga horária docente e na falta de investimento das redes públicas.

Contra o problema, Portugal desenvolveu o projeto professor diretor de turma (PDT). Em atividade desde a década de 1960, ele consiste em um professor que apadrinha uma classe e passa a acompanhar notas, faltas e dificuldades desse grupo de alunos. O tempo de dedicação, porém,  é previsto na sua carga horária de trabalho.

No Brasil, o PDT é adotado pelo estado do Ceará desde 2007 com o objetivo de aproximar a escola da família; incentivar o trabalho pedagógico cooperativo e também humanizar o processo de ensino.

“O professor diretor de turma tem quatro horas da sua carga horária destinada ao projeto. Uma hora é para ministrar uma aula de formação para a cidadania e as demais para acompanhamento dos alunos, planejamento de atividades e atendimento às famílias”, resume doutoranda em educação e coordenadora regional do PDT na Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc-CE) Suiane Costa Alves.

Professores efetivos e temporários de todas as áreas de conhecimentos podem participar, sendo escolhidos pela direção. Há o objetivo que o acompanhamento dure um ciclo (três anos) e os docentes recebem formação continuada.

“Até 2022, o projeto era por adesão das escolas. Porém, a pandemia mostrou sua importância contra e evasão e caminhamos para universalizá-lo em 2023”, destaca Alves.

A Seduc ainda disponibiliza um ambiente virtual no qual o PDT registra a ficha biográfica, as características socioeconômicas da família e desempenho de cada aluno. Além da evolução curricular, há um acompanhamento de habilidades socioemocionais.

“Esta é uma diferença do programa brasileiro para a versão portuguesa”, contextualiza a mestra em educação e professora da rede estadual cearense Alexsandra dos Santos Barbosa. Ela é autora da dissertação.

“Projeto Professor Diretor de Turma na escola pública: desafios e funcionalidade” (2021).   

 

Referência de adulto e acolhimento

Barbosa avalia como benefício do programa o fato dos alunos se sentirem amparados. “É impossível um único professor olhar de 400 a 1.200 alunos de uma única escola. Porém, quando você sistematiza um professor para cada 40 alunos, esse acompanhamento se torna viável”.

Hoje professora de sociologia da rede estadual, Ana Carolina Rodrigues vivenciou o programa PDT como aluna quando no ensino médio, em 2014.

“Lembro que foi novo para mim ter uma professora que olhava especificamente as minhas notas e conversava individualmente em cada fim de bimestre”.

“Quando há dificuldade do aluno em uma determinada disciplina, é possível identificar a razão, se é a falta de contato com o professor, a falta de coragem de chama-lo no corredor e tirar uma dúvida”, avalia Rodrigues.

“Além disso, nem todos os alunos possuem apoio familiar e o PDT é uma referência de adulto que se preocupa com ele e com seu projeto de vida, com o qual podem compartilharem problemas e conflitos sem receio de serem expostos. O mesmo vale para a família, que sabe que tem uma pessoa específica na escola para conversar”, lista.

Neste ano, Rodrigues conta sobre o caso de um aluno que relatou problemas de saúde mental. “Ele tinha receio da família achar frescura e achava que, aos 14 anos, devia resolver isso sem pedir ajuda. Conversamos com a família e ele conseguiu encaminhamento para um psicólogo. Foi importante não deixá-lo em sofrimento e sozinho”, compartilha.

Também é possível prevenir possíveis situações que levam a evasão. “Na minha classe, por exemplo, percebi um casal de alunos que estavam falando com frequência sobre pílula do dia seguinte. É uma oportunidade para buscar alguém da saúde ou o professor de biologia para falar que isto não é um método contraceptivo, que tem consequências para o corpo da mulher e, assim, evitar uma gestação na adolescência que pode levar ao abandono escolar, relata Barbosa.

Para os professores, Rodrigues aponta maior empatia dos professores. “Quando você conhece a realidade do seu aluno, você julga menos. Quando sabe que ele dormiu em aula porque trabalhou até as três da manhã, não achará que ele não quer estudar”.

O trabalho cooperativo ainda retira a sobrecarrega da gestão. “Quando você está em uma classe que não é a sua e percebe algo diferente, pode comunicar diretamente o professor diretor daquela turma e trocar informações”, exemplifica Barbosa.

Desafios e aperfeiçoamentos

Entre os desafios, Barbosa identificou em dissertação que nem todos os PDTs são escolhidos por ter um perfil similar ao programa, mas por preenchimento de carga horária.

“Entrevistei um professor diretor de duas turmas que dizia odiar o trabalho, o que compromete a funcionalidade do projeto. Precisa ser um professor com escuta ativa, que consiga se comunicar com os jovens e sem julgar a adolescência”, explica.

Ela ainda identificou resistência de alguns pais em abrirem informações familiares aos professores, falta de consenso sobre o que são as habilidades socioemocionais, necessidade de formação que atinjam todos os docentes participantes do projeto e uma formação vinculada à realidade em sala de aula.

“Bate na porta da escola questões sociais complexas, como violência, abuso sexual e conflitos familiares complexos”, explica.

“O professor não precisa trabalhar com os alunos de forma literal o que é autogestão de emoções e abertura para o novo. Mas a partir das demandas trazidas pelos alunos, incluir esses conceitos”, exemplifica.

Outro ponto seria a necessidade de expandir o tempo dentro da carga horária do professor. “Se eu tenho um conflito entre alunos e faço a mediação, não saberei exatamente quantas horas serão necessárias para resolvê-lo. Porém, ao final, os alunos terão a experiência de que conflitos podem ser resolvidos pelo diálogo”, exemplifica Barbosa.

“Geralmente eu ultrapasso as três horas para acompanhar os alunos, atender as famílias e também identificar as dificuldades vividas por aquela classe e pensar ações específicas, por exemplo, uma aula que aborde respeito dentro de um contexto de bullying”, afirma Rodrigues.

Para as professoras, ainda que escolas de outros estados se inspirem em práticas de apadrinhamento de classe, é fundamental que estas sejam uma política pública para não sobrecarregar o professor.

“Caso contrário, o docente usará tempo de planejamento ou de aula para isso, o que o obrigará a trabalhar fora do expediente e em fim de semana”, justifica Barbosa.

“É um investimento do executivo, pois você tira o professor de sala de aula para que ele acompanhe os alunos. Mas os resultados mostram que vale a pena”, finaliza Rodrigues.

 

Veja mais:

Projeto de apoio mútuo criado por alunos consegue reduzir evasão escolar em 73% no ensino médio

9 dicas para melhorar a gestão do tempo do professor no home office

Acompanhamento do aluno reprovado exige escuta e novas práticas

Quais os impactos do possível fim do regime de progressão continuada?

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