O mundo do trabalho formal exige cada vez mais funcionários individualistas e desconsidera suas habilidades de traçar análises críticas, segundo a socióloga francesa e professora da Universidade de Paris X – Nanterre, Danièle Linhart. Para a especialista, esse panorama empresarial influencia diretamente a educação.

“Há uma tendência de preparar, na escola, os jovens para estar em conformidade com esse novo requisito. A ideia de uma crítica construtiva e o interesse pela reflexão são proibidos. E você pode ver essa evolução nos currículos escolares”, analisa.

A socióloga esteve presente na mesa “As recentes transformações no mundo do trabalho e suas consequências para o campo da educação”, do IV Seminário de Educação Brasileira, promovido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O encontro aconteceu no dia 11 de dezembro de 2018.

Quais são as principais mudanças no mundo do trabalho em âmbito internacional?

Danièle Linhart: Eu estudo principalmente as mudanças relativas às empresas e seus subcontratados, e não o mercado informal, que é bastante importante na América Latina. Nas empresas do setor industrial e de serviços, é possível observar uma estratégia comum, que busca uma ruptura com a lógica taylorista (sistema de organização do trabalho concebido pelo norte-americano Frederick Winslow Taylor, no século XIX, que pretendia alcançar uma maior produção em menor tempo). Há agora uma vontade de apostar nas qualidades dos recursos humanos que são: autonomia, reatividade, capacidade de adaptação, intuição, criatividade e senso de responsabilidade. As gerências desenvolveram, nesse sentido, uma individualização sistemática e até personalização da maneira como os trabalhadores são organizados.

Como isso impacta os trabalhadores?

Linhart: Eles recebem metas individuais que devem atingir, são avaliados pelo seu desempenho pessoal, devem competir o tempo todo e são convidados a deixar sua zona de conforto para investir em novas formas de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, eles têm que seguir à risca os métodos, procedimentos, protocolos, melhores práticas e relatórios decididos unilateralmente por sua gestão, com base em especialistas do grupo de consultoria. É uma situação completamente contraditória. É por isso que muitos gerentes praticam uma política de mudanças recorrentes, para privar os trabalhadores do benefício de usufruir de conhecimentos acumulados e forçá-los, em uma situação de insegurança subjetiva, a adotar prescrições e formas de trabalho decididas por terceiros. Isso significa também que a administração não considera o trabalhador como um profissional que deve ser respeitado e ouvido, mas como um indivíduo com aspirações e fraquezas, que pode ser manejado com maior facilidade.

Como essas mudanças no mundo do trabalho afetam a educação?

Linhart: Elas têm um grande efeito na educação. O que é pedido hoje aos futuros trabalhadores está menos relacionado com as formas de lidar com o conhecimento e mais com as habilidades interpessoais. Há uma tendência de preparar, na escola, os jovens para estar em conformidade com esse novo requisito e integrar essa nova forma de gestão. Isso significa concordar com os objetivos dos gestores, agir de forma individualista e evitar traçar avaliações críticas. A ideia de uma crítica construtiva e o interesse pela reflexão são proibidos, e você pode ver essa evolução nos currículos escolares.

Que desafios você vê no Brasil em relação ao tema educação e trabalho?

Linhart: Alguns de meus colegas estão estudando a “uberização” dos professores, algo que está bem alinhado a este novo panorama internacional, e aos objetivos do ensino atual.

Quais soluções possíveis?

Linhart: As soluções devem ser pesquisadas no desenvolvimento da capacidade de análise e da capacidade de crítica, que são necessárias para criar e renovar modos de pensar e organizar o trabalho. Também no desenvolvimento de práticas coletivas, de cooperação e intercâmbio entre as pessoas.

No Brasil, a reforma do ensino médio reduziu a carga horária de disciplinas como filosofia e história. Isso pode afetar uma educação para o campo de trabalho?

Linhart: As disciplinas como filosofia e história são fundamentais nessa perspectiva de análise, crítica e desenvolvimento do pensamento coletivo.

Veja mais:
Estudo de filosofia no ensino médio é vital, defende Renato Janine Ribeiro
Sociologia ainda enfrenta dificuldades para consolidar-se na escola
Reforma do ensino médio também terá impactos negativos no ensino profissionalizante

Crédito da imagem: print do vídeo “Le management demande de faire un usage de soi rentable”

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