“Não vai cair no vestibular”. “Não serve para nada”. Dois comentários que o professor de sociologia da rede pública do estado de São Paulo Fábio Lyra, escutado pelo Instituto Claro, afirma ouvir com alta frequência de seus alunos. De onde viria esse olhar desvalorizador para a sociologia como disciplina escolar?
“Existe uma forte presença da visão tecnicista da educação, a tal ponto que os alunos podem não ver utilidade em refletir sobre a realidade social na qual estão inseridos. Como o foco é o mercado de trabalho, valorizam-se as habilidades ‘utilitaristas’ – aquelas que poderão trazer pontos no vestibular, basicamente. Nesse contexto não se busca aprender a aprender, mas aprender a fazer”, explica Cristiano Bodart, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Juntamente com o docente do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí (IFPI) Roniel Sampaio Silva, Bodart realizou pesquisa que analisou as dificuldades de 550 professores de sociologia em todo o país. Para a aferição de dados foram respondidos questionários e analisados os dados Censo Escolar MEC/INEP de 2016.
Algumas dessas dificuldades são observadas pelo educador Fábio Lyra, uma exceção em um cenário no qual, pela falta de professores licenciados, permite-se que educadores de outras áreas também lecionem a matéria. “A dificuldade principal acontece pela falta de formação na área e pela escassez de material didático para lecionar sociologia. A não formação específica dificulta o conhecimento sobre o que existe de produção e que poderia ser utilizado na escola”, analisa Cristiano Bodart.Segundo dados tabulados pelo movimento Todos Pela Educação a partir do Censo Escolar de 2015, apenas 12% dos professores de sociologia em atividade no ensino médio no país são especialistas. É a menor quantidade de professores especialistas dentre todas as disciplinas.
Ainda segundo o pesquisador, a  escassez de recursos didáticos específicos para o ensino de sociologia é também fruto da inclusão recente da disciplina como componente curricular obrigatório no Ensino Médio, ocorrida apenas em 2008. “Não havia, até então, uma demanda por produção que justificasse investimentos por parte de setores do mercado”, explica. Para completar, a ausência de um currículo nacional dificulta a definição do que será ensinado em cada série.
Sociologia em falta
A não especialização reverbera diretamente na sala de aula: a chance do professor não licenciado cair no senso comum ou abordar temas importantes sem o olhar sociológico acaba sendo considerável. “A sociologia tem os mesmos objetos de estudo que história e geografia, e discute temas presentes também na televisão ou na roda de amigos”, lembra o professor Cristiano. “O que a diferencia é a sua perspectiva analítica. O objeto pode ser o mesmo, mas a análise e o olhar não são. Se quem está dando aula não tem conhecimento das categorias teóricas, conceituais e metodológicas próprias dessa área de conhecimento, acaba dando aula de história, de geografia, de senso comum ou qualquer outra coisa, mas não de sociologia”, decreta.
O professor Fábio Lyra concorda: “Trabalhar os conceitos sociológicos não é tão fácil, pois a diferença entre curiosidade e opinião de um lado e conceitos e categorias de outro pode ser tênue. É preciso fisgar o aluno com temas atraentes, mas trazê-lo para uma realidade mais profunda, do tipo ‘olha, sociologia não é a sua mera opinião sobre esse assunto, ela está ancorada em reflexões históricas’. Fazê-lo se aprofundar nesse entendimento é mais difícil”, pontua o educador.
A fragmentação da disciplina – distribuída em uma ou duas aulas semanais, dependendo do estado –  também seria uma amostra da sua desvaloriização, assim como as tentativas de derrubar a sua obrigatoriedade na grade curricular, como recentemente ocorreu na Reforma do Ensino Médio. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio – ainda em discussão – define como obrigatórios os conteúdos de sociologia, filosofia e artes, mas estes poderão ser apenas temas transversais em outras disciplinas. “Parece que há algo simbólico aí. A disciplina é importante, faz pensar e forma pensamento crítico. Por que ela atrapalha?”, finaliza Fábio Lyra.

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