Apesar da expansão da rede federal de ensino desde 2008, com a criação dos Institutos Federais e a oferta obrigatória de 20% das suas vagas para cursos de licenciatura na área da matemática e ciências, ainda faltam professores na educação básica nesta primeira disciplina. Ainda que não haja um levantamento específico sobre o tema, a situação é sentida nas redes estaduais e municipais.

“A dificuldade em concluir um curso considerado complexo, associada à baixa valorização da profissão, contribuem para essa realidade que afeta diretamente o ensino da matemática”, explica a formadora de professores em educação matemática no Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia, Deise Nivia Reisdoefer.

Em 2020, ela defendeu sua tese de doutorado sobre o abandono da docência por aqueles que finalizaram a licenciatura na disciplina. Segundo ela, a desistência da carreira colabora com o “apagão” nacional.

“É preocupante que ótimos professores recém-formados não sigam na profissão. Estima-se que metade dos formados siga para outras profissões, que é um número expressivo. A situação agrava se pensarmos ainda naqueles que abandonam o curso antes de finalizá-lo ou depois de poucos anos de atuação”, complementa.

Incerteza e sobrecarga

O estudo de Reisdoefer, que resultou em sua tese, analisou 25 formados de uma turma de licenciatura em matemática de Santa Catarina, na qual 13 desistiram da docência. Destes, Reisdoefer realizou entrevistas abertas com seis. O perfil do licenciado ouvido era jovem, que ingressou na licenciatura por gostar de matemática e, geralmente, por admirar seu professor na educação básica. Todos já estavam inseridos no mercado de trabalho em outras diversas funções.

“Em maioria, são o primeiro da família a cursar ensino superior e almejam melhores condições de vida e financeira. Eles desistem de atuar na profissão por uma série de fatores de ordem político-financeira, prática formativa, pedagógica, afetiva e profissional”, lista.

No âmbito financeiro, a pesquisadora identificou a falta de estabilidade e de plano de carreira. “A carência de concurso público, baixos salários comparados a profissões com mesmo nível de formação e carga horária insuficiente para planejamento de aulas afastam da docência. A incerteza sobre ter ou não emprego no próximo ano letivo, por exemplo, foi algo destacado nas entrevistas”, revela.

Na dimensão pedagógica foram apontadas diferenças da linguagem matemática sobre a qual eram acostumados na educação básica e como essa é ensinada na licenciatura.

“As dificuldades para realizar exercícios e provas complexas criaram uma distância significativa entre o que é discursado e o praticado na licenciatura”, alerta.

Outro ponto foi um sentimento de sobrecarga “A sensação de que todos os problemas são responsabilidade do professor”, ressalta.

Apoio dos pares

As relações estabelecidas durante o curso de licenciatura porém, podem, influenciar na permanência do licenciado.

“Foi unânime a afirmativa de que a permanência somente foi possível pelas relações, especialmente com os colegas de turma. Por outro lado, dificuldades de relacionamento com docentes foram citados para abandono da profissão. Métodos de ensino, sistemas de avaliação e ética nas relações também contribuíram para desapontamentos”, apresenta Reisdoefer.

“Este é um aspecto relevante do ponto de vista de constituição docente, pois o professor formador, seja ele da licenciatura ou da educação básica que acompanha estágios e práticas, tem um papel importante sobre modo como o egresso observa a profissão”, pontua.

Para completar, todos os ouvidos confessaram dificuldades durante realização do estágio obrigatório.

“Houve experiências negativas diversas com a indisciplina dos alunos, planos de aulas, tecnologias e computadores das escolas, o descaso das equipes diretivas em alguns momentos e insegurança com a inclusão de alunos com deficiência”, compartilha.

Os egressos também desenvolveram atividades de prática como componente curricular do curso, que se caracteriza pela realização de projetos e oficinas nas escolas, em diversas disciplinas. Sobre essa experiência, suas falas demonstraram que as atividades pareciam ter apenas papel recreativo.

“Como se a utilização de metodologias alternativas ao modelo tradicional de ensino fosse passatempo, de que maneiras diferentes de ensinar não contribuíram para o aprendizado da matemática”, lamenta.

Ao final, ela acredita que não há como falar em manter talentos na docência sem passar pela valorização do trabalho do professor pelo poder público, incluindo plano de carreira, salário e jornada de trabalho digna. “São elementos indissociáveis para manter esses licenciados trabalhando nas escolas”, finaliza.

Veja mais:

Estamos realmente vivendo um “apagão de professores”?

Redes de ensino com destaque investem em formação continuada e infraestrutura, segundo levantamento

Progressão na carreira e titulação não são principal estímulo para formação continuada do educador

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