A maioria das professoras alfabetizadoras da rede pública do país utilizou o aplicativo de mensagens WhatsApp para se comunicar com alunos e familiares durante a pandemia (71,58%), assim como necessitou enviar materiais didáticos impressos aos alunos para completar o ensino remoto (55,89%). Esses são dados prévios da pesquisa “Alfabetização em rede: uma investigação sobre o ensino remoto da alfabetização na pandemia covid-19 e da recepção da Política Nacional de Alfabetização (PNA) pelos docentes da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental”.

A iniciativa, que ainda está em andamento, reúne 117 pesquisadores de 28 instituições de ensino superior, sob coordenação da docente da Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ) Maria do Socorro Alencar Nunes Macedo. O objetivo é entender como acontece o processo de alfabetização no formato de ensino remoto imposto pela pandemia de covid-19. A primeira fase do estudo contou com um questionário online respondido por 14.730 professores, sendo 93% destes do gênero feminino e atuando em redes municipais.

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“A iniciativa é importante para conhecer práticas, referências, recursos didáticos, participação das famílias e reais condições de aprendizagem no ensino remoto”, justifica a docente no Instituto de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Gabriela Medeiros Nogueira. “Vemos metade dos alunos sem acesso à internet e as desigualdades sociais que incidem sobre eles. Alunos incapacitados de aulas síncronas e de enviar materiais audiovisuais”, acrescenta Nogueira. Os dados preliminares do levantamento foram publicados em artigo científico.

Adaptar é desafio

Ainda sobre a comunicação com os alunos, somente 15% das professoras alfabetizadoras utilizaram plataformas de ensino online. “Por consumirem dados de celular, elas são inviáveis para diversas famílias”, explica Nogueira. Essa realidade também é vivida pela professora do ciclo de alfabetização da rede paulistana Sandra Oliveira. “De 25 alunos, consegui acionar 13 por WhatsApp. Quando utilizei o Google Meet, apenas quatro apareceram”, relembra.

Já a segunda fase do levantamento é qualitativa e composta por entrevistas. Os relatos trouxeram as dificuldades em transpor a alfabetização presencial para o ensino remoto, assim como as adequações pedagógicas e curriculares exigidas. “Muda tudo. E isso faz com que precisemos repensar os recursos disponíveis, tempos e espaços, questões metodológicas, o meio que será utilizado para chegar até as crianças, as estratégias para garantir a participação delas nas aulas e o envolvimento das famílias”, lista Nogueira

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Alguns municípios, por exemplo, priorizaram um currículo mínimo, como relatou uma das entrevistadas da pesquisa, que leciona no Rio Grande do Sul: “Priorizei a identificação das letras e dos algarismos, o desenvolvimento da consciência fonológica e o gosto pela literatura infantil”.

Engajamento

Segundo o levantamento, 57% das professoras classificaram como maior desafio fazer os estudantes realizarem as atividades propostas. Para 33%, conseguir retorno dos alunos sobre as propostas de ensino foi a maior barreira. “O desafio é a distância, a falta de sistematização, de intervenção, de mediação, a ausência do toque, o esvaziamento do trabalho coletivo e com os pares”, relatou uma professora gaúcha ouvida na pesquisa.

“No ensino remoto, eu não estou lá, para pegar na mão do aluno, ou atendê-lo de forma profissional, individual e in loco. Essa tarefa coube às famílias, que não são obrigadas a saberem de tudo”, aponta Rossi. Dessa forma, há uma quebra na figura de referência de ensino da criança. É como se cada pessoa “explicasse de um jeito”, reflete a professora de Ribeirão Preto.

Para as educadoras, é impossível comparar os ganhos da alfabetização presencial com a realizada remotamente. “Não se ensina e aprende a alfabetizar a partir de orientações e explicações sobre o que deve ser realizado”, diz Nogueira. “A professora tem papel importante de mediação, escolhendo atividades, estratégias e práticas a partir do momento em que os alunos se encontram no processo”, defende. “Esse é um período de ampliação de repertório de mundo para as crianças. Trancá-las em casa afeta seu desenvolvimento”, opina Rossi.

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