Os cursos de formação de professores não consideram alguns dados da realidade das escolas brasileiras. Essa é a opinião pedagoga e ex-professora da Universidade de São Paulo (USP), Bernadete Gatti quando o assunto é a falta de laboratórios de ciências e de acesso à internet nas instituições de ensino públicas.

Os dados do Censo Escolar 2018 revelaram que 63,4% das escolas públicas têm acesso à internet. Além disso, apenas 8% das escolas públicas de ensino fundamental e 38,8% de ensino médio têm laboratório de ciências.

“É possível incentivar o uso de práticas do próprio campo das ciências sem a necessidade de laboratórios, usando diferentes materiais. O ideal seria uma formação que permitisse ao professor identificar metodologias, usar repertórios e trabalhar a partir dos materiais e contextos locais”, explica.

“Defendo que a formação tenha uma boa base teórica, mas que também discuta práticas, que serão necessárias para o docente atuar na escola”, acrescenta.

Para Gatti, tais temas não são abordados devido ao caráter generalista da formação inicial, principalmente na maioria dos cursos de EaD. “Não há subsídios inovadores aos professores. Esses, por sua vez, não têm culpa: são vítimas da formação”, destaca.

Para a presidenta da Associação Nacional de Formação de Professores (Anfope), Helena de Freitas, a falta de internet nas instituições de ensino poderia ser driblada com uma formação que pense o uso crítico do celular. Segundo dados da pesquisa TIC Educação, de 2018, 98% dos educadores de escolas urbanas haviam usado a rede pelo seu aparelho nos últimos três meses.

“A maioria dos profissionais tem o aparelho, mas não sabe usar a função além do telefone. Com a carência de wi-fi e banda larga nas unidades escolares, pode-se pensar nesses outros instrumentos”, opina. “Isso também ajudaria a alinhar a tecnologia a uma educação de caráter transformador, que a usa para o bem coletivo”, acrescenta.

Pesquisadora sobre formação de professores e docente sênior da Faculdade de Educação da USP, Selma Garrido lembra que não basta a tecnologia nas escolas para garantir uma boa aprendizagem dos alunos da educação básica.

“Ela é importante por disseminar informação. Mas informação não é sinônimo de conhecimento. Nesse sentido, não substitui professor intelectual, crítico e reflexivo que, a partir de uma licenciatura bem feita, ajuda o aluno no processo de aprendizagem”, explica. “Ou seja: a tecnologia é apenas um instrumental que não garante a educação por si só. É necessária uma sólida formação teórica e metodológica”, esclarece.

Para Selma, a formação garantiria ao professor identificar quais conceitos da sua disciplina precisam ser trabalhados e como usar a realidade dos estudantes como ponto de partida para avançar no conhecimento.

“A maior parte da formação está nas mãos de universidades particulares que desejam somente o lucro, com um quadro docente com pouca especialização e mal remunerado”, contextualiza.

“Muitas são conglomerados que também têm ações em empresas que vendem produtos para as secretarias de educação. Então, formam professores que atuarão como técnicos, pouco críticos, voltados apenas para executar um material criado fora do contexto da sua escola”, pontua.

Assunto de gestão

De acordo com Gatti, há outros dados da realidade das escolas, vinculados à precarização do trabalho docente, que não estão no campo da formação. É o caso da atuação em classes superlotadas, da baixa remuneração e dos contratos temporários – todos com impactos no trabalho do docente em sala de aula.

“O foco da formação é preparar um profissional qualificado. O aluno não tem culpa que o estado não oferece o que ele necessita para exercer sua profissão”, explica. “Tais assuntos são questões da gestão, que erra ao não pensar sobre isso. Se há um professor que dará cinco aulas, ele deveria ser aproveitado na mesma escola para fazer planejamentos, atendimentos, entre outros. Não precisar completar sua carga horária em outras instituições”, acrescenta.

Mesma opinião possui Freitas. “É importante entender a realidade da precarização do trabalho, mas não cabe à formação pensar práticas. O que pode ser discutido é o tema, que ajuda na identidade da profissão e a preparar os alunos para dilemas do trabalho. Contudo, vale lembrar que muitos desses estudantes acabaram de sair do ensino médio. Ou seja, conhecem perfeitamente esse contexto”, reforça.

De acordo com Selma, discutir todos os contextos da precarização da escola pública na formação pode ajudar a criar professores que serão parceiros na transformação da realidade. “Mesmo com a clareza de que a situação não é simples, o educador pode ajudar a encontrar brechas no sistema colaborando na defesa de um ensino de qualidade. A própria história da educação brasileira mostra que avanços são possíveis”, finaliza.

Veja mais:
Formação inicial dos professores também pode aproveitar conhecimentos produzidos na escola
Obstáculos na formação de professores são analisados por pesquisadora Bernardete Gatti em vídeo
Apesar de modelo promissor, formação em EaD é precarizada

Crédito da imagem: fivepointsix – iStock

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