Em 23 de outubro, o escritor e poeta Fabrício Carpinejar comemora 50 anos e também 50 livros lançados. A data é marcada pela publicação da obra infantojuvenil “A menina alta” que, como outros dos seus livros para crianças, aborda situações vividas por quem está fora do padrão.

“Ele narra a história de Letícia, uma menina que ficou alta demais para sua idade e passou a ser excluída por isso: não pode mais sentar na fileira da frente da sala de aula; é direcionada a jogar basquete e vôlei; é sempre solicitada a pegar objetos que estão no alto. É a história de alguém que converteu sofrimento em conhecimento”, relata o escritor sobre a narrativa.

O próprio Carpinejar enfrentou problemas quando criança, por conta de dificuldades de aprendizagem que atrapalharam seu processo de alfabetização no mesmo rítmo que seus colegas de classe. Em entrevista exclusiva, ele relembra sua relação com a escola e conta mais do seu processo de escrita de livros infantojuvenis. “Escrevo para resgatar a criança que fui”, destaca.

Instituto Claro: quando criança, como foi a sua relação com a leitura e a escrita?

Fabrício Carpinejar: Complicadíssima, porque eu tenho dificuldade de aprendizagem e, no primeiro ano, não consegui ler e escrever no ritmo da turma. A professora detectou minha dificuldade e eu fui encaminhado a um exame de neurologia, no qual foi constatado um “retardo”. A minha mãe foi à escola e disse que tiraria licença do trabalho para me ensinar. E foi o que ela fez, me alfabetizou a partir de jogos educativos que criava, jogo da velha, amarelinha e etc. A lousa era a calçada na frente de casa e o giz era pedra, com o qual ela riscava. Era interessante porque o que é absorvido na pedra não tem como apagar. Dois meses depois retornei lendo e escrevendo melhor que os meus colegas.

Como esse processo lhe marcou?

Carpinejar: Penso que minha mãe não me alfabetizou apenas, ela o fez com poesia. A gente escreve para traduzir nosso mundo e eu tive isso desde cedo. Ou seja, a possibilidade de me defender pelas palavras. Desde pequeno eu sentia que eu era de poucos amigos, então, eu me fortalecia e me agarrava nas palavras.

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A parternidade influenciou o seu início na literatura infanto juvenil?

Carpinejar: Um erro é acreditar que você escreve para os seus filhos. É uma vaidade, porque você parte do princípio que a história que você conta para eles servem para todos. Você escreve para resgatar o menino e a criança que foi. Eu não usei os meus filhos como cobaias. As histórias que contei pra eles nunca foram publicadas. É importante ter segredos com os filhos. É um artesanato da exclusividade. Para a minha filha Mariana, eu criava uma série de personagens. Ela nunca vai esquecer o Professor Caramujo, que a ajudou a ler e a escrever. As histórias infantojuvenis que conto são fábulas contemporâneas e há ternura. Quando se é infectado pela ternura, tudo é possível.

O que muda quando você escreve para crianças?

Carpinejar: Primeiro, preocupo-me com a oralidade, porque são histórias para serem contadas em voz alta. Preciso que as palavras dancem, pois crianças gostam de canções. São canções para acordar as crianças, não para fazê-las dormir. A boa história é aquela que a criança pede que se conte mais.

Quais temas você gosta de abordar quando pensa em escrever para crianças?

Carpinejar: Acredito que quando escrevo para uma criança, desperto uma atmosfera e relação que é a dela com os avós. Porque o relacionamento com os avós é encantado. Minha avó sempre tinha algo para curar minhas cicatrizes, um chá para curar um desconforto. Eu tento perpetuar nas minhas histórias essa pureza da relação dos netos com avós, esse amor desobrigado que une quem começa a vida e quem está no auge dela. Além disso, gosto de trazer reflexos a partir de situações reais e cotidianas. O mais atraente das histórias infantis é quando existe um dilema moral, que a criança pode decidir o caminho a seguir.

Essa interatividade nas histórias infantojuvenis é importante?

Carpinejar: Sim, porque a criança deve ser a principal personagem, a protagonista da história. Todo bom livro é interativo no sentido que incentiva a criatividade, desacostuma o olhar e permite ao leitor enxergar desdobramentos e detalhes.

Como você vê a relação das crianças e jovens com a poesia hoje?

Carpinejar: Criança é poética por natureza. Ela tem um repertório limitado de palavras, mas o combina e explora como ninguém. Já quando crescem, acumulam sinônimos para não falar o que estão sentindo, para mentir. A criança tem uma sinceridade natural, de olhar arco íris e enxergar a chuva dentro dele.

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Como ajudar a criança a não perder essa poesia?

Carpinejar: A criança pode preservar seu tom poético desenhando. Quando aprendemos a ler e a escrever, paramos de desenhar na escola. O desenho não devia ficar restrito à educação infantil, mas acompanhar os alunos até o ensino médio. Isso porque ele traduz emoções mais do que a escrita. O desenho é a representação simbólica do que você tem no mundo. Com ele, você não perde seu afeto interior. Por isso, a importância das ilustrações nos livros infantojuvenis. A criança não busca conteúdo, mas uma ilustração que represente o que ela está sentindo.

É possível aproximar crianças e jovens dos textos poéticos?

Carpinejar: Sim, com a presença de contadores de histórias na família. Se você quer despertar o gosto pela leitura de uma criança, relate o seu dia, conte as coisas boas que aconteceram, não somente as ruins. O que você sentiu, o que você esperava e aconteceu e o que não aconteceu. Nós sentimos atração pelos livros, quando entendemos que eles guardam histórias.

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