A avaliação das competências socioemocionais da turma ajuda conhecer aptidões, interesses e habilidades dos alunos, sendo fundamental ao planejamento das atividades que o professor desenvolverá ao longo do ano letivo.

“Ela aponta caminhos e evita que o professor se concentre em uma área pouco necessária. Seria como percorrer uma estrada sem mapa”, explica a doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro “Aprendizagem socioemocional com metodologias ativas: um guia para educadores” (2022), Carolina Costa Cavalcanti.

Para a mestra em docência para a educação básica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Thais Janaina Castagnaro, faltam ferramentas e literatura sobre o tema. “Por conta disso, fica a critério do docente elaborar uma avaliação diagnóstica socioemocional e aplicá-la. Porém, o aluno deve participar, por exemplo, por meio da autoavaliação de atitudes, comportamentos, habilidades e aptidões”.

Para Cavalcanti, a avaliação das competências socioemocionais depende de sensibilidade e intuição do professor, assim como embasamento teórico. 

Devido à falta de literatura em português, ela sugere os materiais da Casel (The Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning) — organização internacional sem fins lucrativos formada por uma comunidade de pesquisadores do tema.

“Ela trabalha com cinco grandes competências socioemocionais: autoconhecimento, autorregulação, consciência social, tomada de decisões responsáveis e habilidades de relacionamento”, lista Cavalcanti. 

Antes de avaliar as habilidades socioemocionais da turma, as especialistas orientam sobre alguns cuidados. 

Exponha o aluno a situações diversas

“Analise como o estudante trabalha em diferentes contextos: em grupo, sozinho, na sala de aula, ao ar livre etc.”, indica Castagnaro.

Não use a avaliação para rotular alunos

A doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Danila Zambianco, acredita não ser obrigatória uma avaliação diagnóstica antes de intervenções por conta da estereotipagem. “Corre o risco de classificar o aluno baseados em critérios inespecíficos e fazendo com que ele saia rotulado”, pontua. 

“É difícil criar uma avaliação diagnóstica de abrangência total. Por isso, não se deve classificar o aluno como fraco, violento, calado, entre outros. Isso cria preconceitos e estigmas com a relação a comportamentos, quando cada aluno é único, com potencialidades e desafios”, explica Castagnaro.

“O objetivo da avaliação é permitir que o aluno desenvolva novas habilidades, seja incluído e possa participar do processo educativo de forma ativa e prazerosa”, enfatiza Castagnaro. 

Considere o contexto socioeconômico do aluno 

Cavalcanti ainda lembra que questões biológicas e o contexto socioeconômico influenciam em comportamentos. “Alunos em vulnerabilidade social e insegurança alimentar podem estar mais ansiosos, deprimidos, entre outros”. 

Invista em ludicidade 

Expor sentimentos e histórias de vida pode ser difícil em uma conversa. Assim, Castagnaro sugere trabalhar de forma lúdica com os alunos. “Crie personas, brinque de entrevista de telejornal, entre outros”. 

Respeite o desenvolvimento infantil

Há habilidades socioemocionais complexas para crianças menores. “Elas não estarão aptas física e psicologicamente para  entender e praticar a empatia antes dos oito anos. Avaliar isso nessa fase seria inadequado”, exemplifica Cavalcanti. 

Evite modelos prontos

“Cada escola tem uma realidade cultural e socioeconômica. Isso impede transpor modelos de avaliações sem considerar especificidades”, adverte Cavalcanti. 

Use os resultados para propor novas aprendizagens

Após levantar dados individuais, o professor terá que fazer escolhas sobre o que trabalhará de forma coletiva com a turma. “Posso ter na mesma turma alunos que não sabem lidar com conflito e outros que sabem expor desejos e vontades com facilidade. A personificação é feita até certo ponto”, reflete Cavalcanti. 

Castagnaro sugere trabalhar dificuldades e potencialidades trazidas. “Se a maioria afirmou gostar de trabalhar em grupo, não posso sugerir apenas atividades assim, mas trabalhar outras competências que eles não possuem”, exemplifica. 

“Se observo poucos líderes, posso pensar em atividades em grupos que altere a liderança entre aluno”, acrescenta. 

Resultados não são imediatos 

  Podem demorar anos para aparecerem. Mas quando você habilita alunos a se comunicarem melhor, a pedirem ajuda, a lidarem com questões de sofrimento, estará os preparando para desafios futuros”, diz Cavalcanti.

Segundo ela, evidências de sucesso são observar jovens que não conseguiam verbalizar sentimentos o fazendo, pedindo ajuda e criando novos vínculos de relacionamento. 

Envolva a família na avaliação diagnóstica

Os resultados podem ser discutidos com pais e responsáveis. “Isso ajuda a analisar se as conclusões são condizentes com a realidade”, recomenda Cavalcanti. 

Além de avaliar e intervir, é necessária vivência

É consenso entre as especialistas a necessidade das habilidades socioeconômicas apareçam na cultura e nas relações da escola de forma intencional e recorrente. “Desenvolvê-las exige vivê-las. Não pode ficar no verbalismo ou no estudo de uma apostila”, contrapõe Zambianco. 

Isso exige também observar as competências socioemocionais dos educadores. “Um professor em burnout não terá condições de ensinar empatia”, completa. 

“Assim, por mais que o professor tenha boa vontade e amplie seus conhecimentos sobre o tema, a responsabilidade para o desenvolvimento socioemocional também é das redes”, completa Cavalcanti. 

A seguir, conheça 5 atividades que podem funcionar como avaliação diagnóstica de habilidades socioemocionais. 

  • Trabalho com projetos

Autora da dissertação “Metodologias ativas e o desenvolvimento de Habilidades e competências: estratégias para um ensino contextualizado”, Castagnaro explica que o trabalho com projetos exige do aluno tomar atitudes, propor soluções, negociar com o grupo, distribuir responsabilidades, pedir ajuda, entre outros. 

“Isso serve como forma de avaliação diagnostica, uma vez que ele é o protagonista. Pode ser avaliado habilidades como liderança, criatividade, escuta e comunicação”. 

  • Autoavaliação

“A ficha pode conter questões sobre os interesses que o aluno tem; se ele sabe reconhecer e nomear emoções; habilidades de relacionamento que possui; as situações em que ele se sente confortável e desconfortável na escola”, diz Castagnaro.

  • Avaliação em pares

“Proponho atividade em grupo em que cada membro, além de se autoavaliar, pode avaliar os seus colegas, por exemplo, como foi o desempenho e contribuições de cada um. Isso ajuda o aluno a ter consciência das suas emoções e de como se relacionar com o outro”, compartilha Cavalcanti. 

  • Caixa de problemas

Castagnaro sugere deixar na sala de aula uma caixa na qual os alunos podem relatar, de forma anônima, problemas de relacionamento. “Para evitar que o aluno que escreveu seja identificado, crio uma história com personagens fictícios com os problemas trazido e discuto os desfechos com a classe”, conta. 

  • Situações-problema

Como as competências socioemocionais não podem ser ensinadas de forma teórica, mas vividas, as situações-problema ajuda os alunos a praticarem habilidades como empatia, autorregulação, entre outras. No e-book gratuito “Pensar, compartilhar, criar… O problema é nosso!”, Castagnaro propõe situações-problema no formato “você decide” a serem discutidas com a turma. Confira! 

– Você está jogando com seus colegas e o seu time está perdendo. Em um determinado momento, a partida fica empatada. Na última jogada, você percebe que um dos seus colegas de time puxou a camisa de um jogador adversário e marcou o gol da vitória do seu time. Todos os jogadores começam a discutir a dar opiniões. Na sua vez de opinar, você…

– Você foi escalado para um trabalho em grupo com três colegas de classe. Marcaram dia e horário para fazer o trabalho, mas você não conseguiu comparecer e também não se interessou em perguntar se você poderia contribuir de alguma outra forma. No dia seguinte, o professor solicitou que todos fizessem uma avaliação individual da participação e colaboração do trabalho em grupo. Na sua ficha você escreveu…

– Seu amigo Joel, depois de uma discussão com um colega de classe, começou a chorar. Os colegas começaram a dizer coisas desagradáveis como “chorar é para meninas”, “ficar triste é coisa de medrosos”, e muitas outras coisas. Ao observar tudo isso você…

– Você vai fazer uma festa de aniversário e decidiu levar os convites para entregar na sala de aula, porém algumas crianças não são tão suas amigas e você está em dúvida se deve convidá-las. Na hora de entregar os convites, você…

– Em uma brincadeira, você nota que as calças do seu colega rasgaram e ele não percebeu. Sua atitude nessa hora é…

– A professora anuncia que haverá uma prova de matemática no dia seguinte. Quando você verifica seu material para estudar, percebe que perdeu o livro. Após o final da aula, você se dirige ao local dos “achados e perdidos” da escola e pergunta sobre seu livro de matemática. A pessoa responsável lhe entrega um exemplar cujo nome na etiqueta é igual ao seu, mas o sobrenome não é. Ao receber o livro, você…

– Você está brincando com outras crianças quando um dos seus melhores amigos quebra, sem querer, uma vidraça ao chutar a bola. Um funcionário da escola vê de longe a situação, se confunde e acusa outra criança, que você conhece pouco. O seu amigo não se manifesta para dizer que é ele o culpado. Nessa hora você…

Veja mais:  

Como trabalhar habilidades socioemocionais usando metodologias ativas?

Socioemocionais: interesse comercial e visão reducionista são pontos de atenção

Qual é a importância do ensino das habilidades socioemocionais na escola?

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