Para tornar as aulas de ciências e biologia mais atrativas e conectar o conteúdo ao cotidiano dos estudantes, a pesquisadora Gláucia da Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), criou o “método Taylor Swift para ensino de botânica”. A prática utiliza videoclipes da cantora pop nos quais são exibidas plantas para trabalhar o tema com alunos do ensino fundamental e do médio.
A ideia surgiu em 2020, durante a pandemia, quando Taylor Swift lançou o álbum “Folklore”. O ponto de partida foi o videoclipe da música “Cardigan”, que mostra um piano repleto de musgos e outras plantas do grupo das samambaias ao redor da cantora.
“O método surgiu em um momento de vazio, pois a pandemia tirou muitas coisas da prática docente. Ele fornece ferramentas que podem estimular os alunos a compreender os porquês do conteúdo botânico. Assim, o estudante pode levar o que aprendeu para o dia a dia, perceber as plantas no ambiente, relacionar-se com elas e lembrar do conteúdo a longo prazo”, descreve a professora.
Banco de vídeos
Segundo Silva, os vídeos não são escolhidos ao acaso. “Por exemplo, se eu vou dar aula sobre plantas com flores, o vídeo precisa mostrar isso, haver coerência temática visual. Para escolher o vídeo, considero quantidade (quais tipos de flores e plantas aparecem e não aparecem); frequência (quantas vezes aparecem); visibilidade (se estão em destaque, no plano de fundo ou um pouco dos dois); se a artista interage com elas e em qual frequência; duração da aparição das plantas; coerência científica (o que é mostrado pela artista `casa` com a explicação científica botânica?); e se a planta também aparece na música”, destaca.
Silva montou um banco de dados com todos os álbuns, músicas e videoclipes de Taylor Swift que se relacionam com algum conteúdo botânico. O material pode ser consultado por professores e alunos.
A seguir, ela compartilha quatro videoclipes que podem ser utilizados nas aulas de botânica nos anos finais do ensino fundamental ou no ensino médio, visando introduzir discussões e conceitos. É possível ainda conferir imagens ilustrativas e outras referências sobre o assunto em um artigo científico (em inglês) escrito pela pesquisadora.
Aula 1: vídeo “Blank Space” (álbum: “1989”)
O objetivo da primeira aula é discutir a falta de visibilidade e atenção que as plantas recebem no dia a dia. Antes da aula, a professora solicitou que os alunos assistissem ao vídeo e, durante o encontro, comentassem pontos que chamaram a atenção deles.
“Eles perceberam tudo, menos as plantas. Até comentários sobre o cabelo e a roupa da Taylor surgiram. Quando eles terminaram de falar, mostrei toda a parte verde que eles não perceberam: jardins, flores, frutos, árvores, trepadeiras. O choque deles foi um momento de aprendizagem: conversamos sobre possíveis motivos que os levaram a não perceber as plantas no ambiente, a teoria de impercepção botânica, os sentimentos deles em relação às plantas e as consequências disso”, compartilha.
Aula 2: vídeo “Cardigan” (álbum: “Folklore”)
O objetivo da aula foi abordar com a turma briófitas e pteridófitas. Neste segundo vídeo, Taylor toca um piano completamente coberto por musgo e algumas espécies do grupo das samambaias, com água fluindo dele, em uma floresta úmida. A docente explicou sobre essas plantas terrestres simples que crescem nestes locais úmidos e se reproduzem liberando esporos. Durante a discussão, ela percebeu que os alunos começaram a prestar mais atenção às plantas.
Aula 3: vídeo “Out of the Wood” (álbum: “1989”)
É hora de abordar as gimnospermas (plantas com sementes). O terceiro vídeo começa com Taylor cantando em uma praia na qual uma floresta está crescendo muito rápido. A vegetação densa compreende árvores altas com troncos enormes, cenário ideal para discutir estratégias das plantas para a sobrevivência na floresta, como escalar caules e se esticar para vencer a competição pela captura de luz. Os alunos também notaram que algo estava faltando: neste vídeo, as plantas não apresentaram flores nem frutos.
“Faz parte do método os alunos me dizerem primeiro o que eles viram. Em “Out of the woods”, eles observaram as árvores, os troncos altos, as folhas no chão, a neve, as copas densas que resultam em pouca luminosidade, elementos que lembram cipós, trepadeiras e raízes. Sozinhos, citaram a ausência de flores e frutos e montaram, assim, o conceito das gimnospermas por meio das pistas visuais contidas no vídeo”, relembra Silva.
Aula 4: vídeo “Willow” (álbum: “Evermore”)
Por meio dessa produção audiovisual, cuja tradução do título para o português é “salgueiro”, Silva trabalhou com os alunos o conceito de angiospermas (plantas com flores)
No quarto vídeo, Taylor sai de um salgueiro-chorão cercado por um canteiro de flores perto de um rio. Este local serviu para introduzir plantas floridas, com sua complexa estratégia de reprodução sexual, seus diferentes hábitos de crescimento e comportamentos peculiares. Segundo ainda a docente, os alunos também mostraram estar aprendendo a descrever a natureza usando a terminologia botânica correta.
Trabalhamos a parte de morfologia das angiospermas, reprodução, evolução, um pouco de ecologia. Por exemplo, o fato de o salgueiro viver próximo a lagos, bem como o movimento das folhas com o vento. Eles já estavam mais habituados com os conceitos botânicos, falando termos naturalmente e reconhecendo as plantas com mais facilidade”, compartilha.
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Crédito da imagem: Nazar Rybak – Getty Images