Crenças populares, senso comum e conhecimentos da população são alguns dos termos usados para nominar saberes espontâneos que as pessoas adquirem ao longo da vida e que são transmitidos pela família e comunidade. Nem sempre valorizada pelo ambiente escolar, essa cultura local pode ser um estímulo para diferentes aprendizagens.

“Primeiro, pela questão pedagógica. É quase consensual entre os teóricos da educação que o ideal é iniciar os processos de ensino partindo daquilo que os alunos já conhecem”, justifica o professor licenciado em biologia, ciências e filosofia João Vicente Alfaya dos Santos.

“Além disso, o conhecimento popular ajuda a consolidar o cientifico e o segundo eleva o nível do primeiro. O conhecimento científico auxilia o aluno a entender que aquele fenômeno coletado tem explicações que somente a vida cotidiana é incapaz de fornecer”, complementa.

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Santos orientou a professora de ciências da rede estadual Karine Arriaga Almerini em um projeto que entrevistou 270 participantes da comunidade de quatro escolas no município de Laguna (SC). Foram levantadas 13 crenças frequentes da região e estas foram confrontadas com explicações científicas, processo que resultou no artigo “Saberes populares e o Ensino de Ciências: uma investigação no município de Laguna, SC”.

Fauna local

Muitos saberes localizados por Santos e Almerini abordavam cobras, sapos e lagartixas, animais típicos da fauna local. Foi o caso de “assobiar dentro de casa atrai cobra”, crença provavelmente relacionada ao som emitido por algumas serpentes. Já a máxima “quando se é picado por cobra, deve-se sugar o veneno com a boca e cuspir” falava de um experimento que é considerado ineficaz e perigoso pela medicina.

“Os procedimentos após acidentes continuam sendo pouco abordados em manuais escolares, e visto que o livro é, muitas vezes, a principal ou mesmo a única fonte de referência científica para as crianças, é preocupante que esta crença se encontre disseminada”, alerta Almerini no texto.

Sobre répteis e anfíbios, mereceram destaque também as crenças de que“tomar água que uma lagartixa passou pode matar” — sem referência na literatura científica — e de que “urina de sapo pode cegar/matar uma pessoa”. “A urina não apresenta perigo para seres humanos pois ao serem ameaçados por um predador, todos os anuros liberam um líquido produzido pela glândula de veneno localizada atrás dos olhos, que apenas assusta e afugenta quem o capturou”, explica Almerini na pesquisa. Atualmente, a única espécie que pode ser letal ao ser humano, caso as toxinas da pele cheguem à corrente sanguínea, é a rã Phyllobates terribilis (Anura: Dendrobatidae), da Colômbia.

Santos vê nessas crenças a oportunidade de problematizar os motivos pelos quais repteis e anfíbios são mal vistos e, por conta disso, não raro mortos ou envenenados em seus habitats.“São animais relevantes para os ecossistemas. Talvez, isso ocorra por visualizarmos com mais facilidade expressões de felicidade e agrado nos mamíferos domesticados, quando a própria estrutura muscular de anfíbios e répteis impede isso. Outro ponto é que eles possuem a pele mais fria e escamosa, que impede um contato similar ao de cães, gatos e aves”, pondera.

De micro-organismos à botânica

Ainda no campo da zoologia, existe a crença de que “formigas no banheiro é sinal que algum morador está com diabetes”.“Esse é um bom exemplo de conhecimento popular que não está errado, mas que pode ser explicado pelo conhecimento científico, ou seja, as consequências no corpo quando os níveis de açúcar sanguíneos estão elevados”, destaca Santos.

“Varrer a casa à noite traz doenças para um de seus moradores” foi outra crença com potencial para o ensino de ciências. “O chão de uma casa é um dos lugares com maior concentração de microrganismos, entre eles fungos, vírus e bactérias. Quando varremos, colocamos todos esses organismos em suspensão no ar, junto à poeira. E o corpo humano quando está em repouso fica mais suscetível à entrada de microrganismos do ar, o que acontece com mais frequência à noite quando vamos dormir”, resume Almerini no texto.

O campo da botânica também pode ser bem explorado. Caso da afirmativa “chá de formiga para dor de barriga” – máxima provavelmente associada ao chá da planta Chenopodium ambrosioides L, popularmente conhecida como erva-formigueira.

Em outra, “para cálculo renal, chá de quebra-pedra”, a associação foi com a planta Phyllantus niruri. “Ela impede a agregação dos cristais de oxalato de cálcio (componente do cálculo renal) e evita a formação de novos cálculos. Porém, ela não ‘quebra a pedra’, apenas impede que o cálculo já existente cresça”, relata Almerini em seu trabalho.

Para Santos, professores de redes públicas de outras localidades do Brasil podem se inspirar no projeto realizado em Laguna para trabalhar as crenças presentes nas suas próprias comunidades. O processo de levantamento desses conhecimentos pode ser realizado por entrevistas, questionários ou mesmo em atividades em classe com os alunos.

“Nesse primeiro momento, não faça julgamento de valor se o que as pessoas trazem está certo ou errado”, aconselha o docente. “Para completar, outras disciplinas podem ser associadas ao projeto, como geografia e filosofia”, finaliza.

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